Cubano satisfeito descarta abandonar o Programa Mais Médicos em São Tomé

Médico criticou profissionais que deixaram o país antes do fim do programa

Mais de 20 pacientes estavam à espera de  atendimento com o médico cubano nesta manhã. Foto: José Aldenir
Mais de 20 pacientes estavam à espera de
atendimento com o médico cubano nesta manhã. Foto: José Aldenir

Roberto Campello

Roberto_campello1@yahoo.com.br

O Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), localizado no centro do município de São Tomé, distante 110 quilômetros de Natal, tem sido, nos últimos cinco meses, durante toda quarta-feira, o local de trabalho do médico cubano Rey Noeky. Na recepção, já por volta das 9h30, ainda havia cerca de 20 pessoas à espera de atendimento. Entre uma consulta e outra, o médico recebeu a equipe de reportagem d’O Jornal de Hoje em seu consultório e falou sobre os cinco meses que vem atuando no município, as dificuldades, expectativas, criticou os médicos cubanos que abandonaram o programa Mais Médicos e rechaçou qualquer possibilidade de retornar à Cuba antes do fim do programa.

Desde o início da atuação dos profissionais do Mais Médicos, no segundo semestre do ano passado, ao menos 192 já abandonaram o programa, sendo que 27 deles são cubanos. Do total de cubanos, 22 médicos decidiram retornar à Cuba por problemas de saúde ou motivos pessoais, e cinco simplesmente abandonaram o trabalho, entre eles Ramona Rodriguez, que declarou ter decidido abandonar o programa ao descobrir o salário pago aos profissionais de outras nacionalidades. Existem, hoje, cerca de 7,4 mil profissionais de Cuba no Brasil que vieram pelo Mais Médicos.

A rotina de trabalho do médico Rey Noeky, assim como da sua esposa, a médica cubana Maylin Perez, começa às 7h30 e só termina quando o último paciente é atendido, normalmente por volta das 12h30. A consulta dos médicos cubanos é atípica. Dura, aproximadamente, 30 minutos. À tarde, eles realizam a visitas nos domicílios, seguindo as diretrizes do Programa Saúde da Família.

“Esses cinco meses foram ótimos. Uma grata e rica experiência. Temos algumas dificuldades quanto aos medicamentos, mas nada que impeça e traga prejuízos ao nosso trabalho”, afirmou o médico Rey Noeky. Questionado a respeito do tempo de duração das consultas, o cubano disse que é comum demorar cerca de 30 minutos com cada paciente. “Estamos acostumados a interrogar e conversar com o paciente. Depois examinamos e falamos sobre o diagnóstico e tratamento que será necessário fazer. Tudo isso requer tempo e meu atendimento é humanizado”, explicou Rey Noeky que atende pacientes de todas as idades.

O médico considera que o sistema de saúde em Cuba é um pouco mais organizado que o Brasil. “Mas aqui o serviço de saúde é mais integrado. Os diversos profissionais atuam em conjunto e essa integração facilita e ajuda no atendimento à população”, destacou Rey Noeky.

Rey Noeky discordou dos médicos que abandonaram o programa, mas entende os motivos que levaram eles a fazerem isso. O médico conta que antes de virem para o Brasil houve uma capacitação em Cuba com profissionais de saúde do Brasil e mostraram um cenário diferente da realidade encontrada quando chegaram ao Brasil. Por exemplo, haviam dito aos cubanos que todas as unidades de saúde eram bem equipadas, com internet, inclusive.

“Mas a realidade encontrada por nós foi totalmente diferente. Não pelo fato da internet, pois não precisa de internet para realizar um bom atendimento, mas pelas condições de trabalho. Muitos médicos foram trabalhar em municípios que não ofereciam nenhuma condição de trabalho e moradia. Não é o caso de São Tomé, mas mesmo assim não concordo com a saída dos médicos do programa”, afirmou o médico cubano.

O médico rebateu qualquer possibilidade de abandonar o programa e lembrou que, durante sete anos, trabalhou na Venezuela, onde o trabalho era bem pior. “Se eu tivesse que fugir de algum lugar seria da Venezuela e mesmo assim não o fiz, mesmo sendo o trabalho muito mais perigoso. O trabalho no Brasil é infinitamente melhor e mais tranquilo”, afirmou.

Os cubanos que atuam no município de São Tomé já estão familiarizados com a cultura e culinária local. “O clima é parecido, mas aqui é bem mais seco. Aos poucos vamos nos acostumando com a comida daqui. Feijão verde e galinha, por exemplo, não tem lá e já passamos a comer aqui”, disse Rey Noeky.

A demora na fila para atendimento com o médico Rey Noeky não é transtorno para os moradores de São Tomé diante da satisfação ante a consulta. Foto: José Aldenir
A demora na fila para atendimento com o médico Rey Noeky não é transtorno para os moradores de São Tomé diante da satisfação ante a consulta. Foto: José Aldenir

População aprova médicos cubanos

A demora na fila para atendimento com o médico Rey Noeky não é transtorno para os moradores de São Tomé diante da satisfação ante a consulta. O agricultor aposentado José Targino, de 87 anos, esperou por quase duas horas para ser atendido, mas não reclamou. “É a segunda vez que sou atendido por ele e o que mais gosto é a atenção que ele dá aos pacientes”, afirmou.

A auxiliar de serviços gerais Roselândia Maria de Lima, de 38 anos, conta que já foi atendida duas vezes pelo médico e mais duas vezes pela médica cubana. “Eles são muito pacientes e atenciosos. Espero que esse programa possa ampliar cada vez mais a atuação, pois só traz benefícios para o nosso município”, destacou a paciente.

Secretário considera positiva atuação dos médicos cubanos

O secretário municipal de Saúde de São Tomé, Eriwerton Rocha, avaliou como “extremamente positivo” os cinco meses de atuação dos médicos cubanos na cidade. Ele relata que no início a população estava receosa quanto a presença de médicos estrangeiros na cidade, em função das diferenças culturais e de idiomas, mas que a medida que os médicos começaram a atender a população a aceitação foi imediata. A médica Maylin Perez, por exemplo, falava bem o português, mas encontrava dificuldade na escrita. Para aperfeiçoar a escrita, a médica fez um dicionário com o dialeto utilizado pelos moradores de São Tomé.

Os dois médicos trabalham tanto na zona urbana, quanto na zona rural. Nas segundas e terças-feiras, os médicos atendem na zona rural, na comunidade de Ingá de Santa Luzia, uma das maiores comunidades rurais do município, e nas quartas e quintas-feiras trabalham na zona urbana. Semanalmente, eles trabalham 32 horas. Pela manhã atendem uma média de 30 pacientes e a tarde realizam as visitas de campo. Na sexta-feira, os médicos não trabalham, pois eles participam de uma especialização à distância. Ao longo desse tempo de atuação no município de São Tomé, cada um dos profissionais atendeu cerca de três mil pessoas. O custo para o município de São Tomé com os dois profissionais não ultrapassa os R$ 1,8 mil por mês, com alimentação e residência.

“O programa aqui está dando muito certo e São Tomé é referência para os outros médicos cubanos que atuam no Rio Grande do Norte. A nossa estrutura ainda não é como de primeiro mundo, mas oferecemos uma boa estrutura nas unidades de saúde para que os médicos possam oferecer um melhor atendimento à população”, destacou o secretário de saúde de São Tomé. Hoje, o município conta com cinco equipes completas do Programa Saúde da Família. O município foi contemplado com mais uma unidade de saúde, esta na comunidade quilombola da Gameleira, zona rural. A obra, orçada em R$ 408 mil, já está em fase de construção e deve ficar pronta até o mês de junho. A unidade deverá atender uma população estimada em 1,3 mil habitantes.

O secretário não teme que os cubanos abandonem o programa Mais Médicos em São Tomé, pois, segundo o secretário, os dois profissionais estão satisfeitos. “Conversamos bastante com eles para saber se há alguma insatisfação, se estão precisando de algo e o feedback é sempre positivo. As demandas vão surgindo e vamos resolvendo os problemas para oferecer uma melhor condição de trabalho e uma melhor assistência”, destacou Eriwerton Rocha. Além disso, conta o secretário, os médicos cubanos têm total liberdade para passear nos horários vagos. “Eles já conheceram o Arena das Dunas, as praias do litoral Sul. Já se criou um laço afetivo muito grande entre eles e a população de São Tomé”, afirmou.

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