Cuidar da própria vida – Rubens Lemos

Faz cinco anos que o meu time de futebol soçaite e areia de praia, o Rio Ave, jogou sua última…

Faz cinco anos que o meu time de futebol soçaite e areia de praia, o Rio Ave, jogou sua última partida. Se despediu ao conquistar o Norte/Nordeste numa quadra sintética de Natal derrotando os favoritos cearenses por irrevogável escore de 3×0. Foi o bicampeonato.

Em 2004, vencemos os pernambucanos. Aqui por 7×2. Eles alegaram que era zebra (placar muito equilibrado) e fomos a Recife. O Rio Ave de camisa branca em detalhes pretos lembrava o ABC dos tempos de Alberi, Danilo Menezes, Dedé de Dora, Silva, Marinho Apolônio ou Sérgio China e Odilon. Encontramos ambiente hostil e a soberba estampada no rosto de cada jogador e torcedor na manhã de domingo, sede da AABB lotada.

Mantivemos nosso time, treinado por Danilo Menezes, e eles vieram com vários jogadores de futebol profissional e dois ou três juvenis do Náutico. Começou ferrenha a peleja. Até que abrimos 1×0 e fomos estufando as redes com sede cervejeira.

Ganhamos de 8×1, mais bonito do que o resultado de Natal e os vencidos reconheceram nossa superioridade, confraternizaram com a gente, nem chegamos a beber no local e pegamos a estrada de volta. O porre foi dentro do ônibus, em ritmo de alegria e companheirismo, a receita do Rio Ave além do brilho dos seus craques.

Pela primeira vez, alguém reconhecia nossos méritos. Os pernambucanos tomavam uma surra em casa e revelavam o espírito esportivo e óbvio que faltava nos adversários locais.

Houve ocasião em que até bandeirinha comemorou gol contra nós, no ato ridículo de um bisonho teatro de despeito criado por conta de nosso pecado: opção em jogar bonito. Perdemos duas partidas (uma delas nos pênaltis), ao longo de cinco anos no futebol soçaite e os times entravam não para vencer, mas para nos derrotar.

O que começara como aventura de menino para mim numa quadrinha de traves chamadas mirins no bairro do Tirol se tornava uma guerrilha perigosa e provocativa. Enfiávamos 11×0 em algum time e a arbitragem recebia a culpa, nós éramos acusados de suborná-la ou de fazer gols ilegais. Um ou dois, tudo bem, mas onze bolas roubadas num jogo só é para fazer hiena chorar.

No soçaite, um tipo de futebol de salão maior, onde jogam o goleiro e mais seis na linha, a supremacia sempre foi avassaladora. Ganhamos um campeonato de cinco etapas com duas de antecipação. Fomos até proibidos de jogar num local onde empreendimento privado ocupa área pertencente ao Estado e que a Justiça mandou ser devolvida ao patrimônio público.

Dez anos mais moço, me irritava bastante e até batia boca com a imensa e radical maioria da oposição. Em jogos na praia de Pirangi do Norte – na areia ganhamos cinco títulos e perdemos três sem reclamar, houve cenas em que a Polícia Militar teve trabalho para conter ameaças de agressão quando vencíamos.

Nas decisões perdidas, havia um detalhe absurdo: os vencedores não gritavam o nome do time campeão, mas berravam palavrões contra nós. Mais importante era nossa desgraça do que o êxito deles.

>>>>>>

Hoje, quando tudo está na memória e o time, desativado, me vem o Rio Ave na lembrança, após receber um bom e anônimo amigo que destrinchou uma longa e elegante análise sobre os malefícios do ódio causado pela inveja, a dor de cotovelo serpentária e silenciosa.

Parece um monge de monastério europeu o meu amigo oculto. De uma paciência oriental. Atira de sniper com as palavras e a profundidade de pensamento. De uma simplicidade franciscana autêntica. Só lhe falta o chinelão e a santidade. Milagre ele não faz porque adora um rabo de saia.

Ele desenvolveu uma tese segundo a qual o invejoso é possessivo, mimado e incapaz de aceitar o sucesso alheio. É um neurótico compulsivo, muitas vezes ególatra ou apenas raivoso nato.

Nada de extraordinário na descoberta lógica. Gosta de ser centro das atenções, de monopolizar discussões e não enxerga – jamais, a virtude do outro, satisfazendo-se, em gozo de sexo malfeito, com a desgraça do alvo de sua peçonha incurável.

Tão logo ele saiu, pronto, me veio a imagem das partidas incríveis do Rio Ave, um time que se tornou complementação afetiva da ausência do pai, meu irmão confidente e filho muito bem amado pelo desprazer que proporcionava às almas sebosas.

O amigo oculto nem sabe, mas assim que decidi parar com o time, cansado e estressado pelo lazer que se transformara em atividade de risco e convivência lamentável com mediocridades ululantes, doei todos os uniformes.

Não me resta uma só recordação material que não seja em fotos ou vídeos. Camisas, calções, meiões, bolas, tudo foi entregue a instituições de caridade que fazem o bem legítimo , nada ligado à pilantropia.

Quando os sacos plásticos imensos e lotados foram levados do apartamento, deu uma leveza imensa no peito. Parecia que todas as mazelas dos inimigos gratuitos sumiam numa fumaça invisível.

O Rio Ave é a minha analogia com quem se preocupa mais com os outros do que com a própria vida. Papai nem passava banha: “Ciúme de homem é pior do que da amante”.

Cuidar da própria vida é um princípio. Sigo desde criança. Pequeno na estatura física da época e na idade. É bom deixar registrado.

William

Posso até ser desmentido na Copa posto amistoso não vale, mas ninguém imaginou, desde Pero Vaz de Caminha, uma seleção a depender de mediano igual a William no meio-campo ou ataque . É esperar fratura sendo tratada com esparadrapo.

Alecrim

Tradição em campo e na vida da cidade, o Alecrim não merece atravessar o rio de amargura de hoje. Dívidas, abandono e zero de perspectiva. Tem que se duvidar de esmola grande. Até santo desconfia. Por mais que seja quitado o calote , nada justififica a humilhação submetida aos profissionais.

Baile

Começaram a ser vendidas as senhas para o Baile em Preto & Branco, celebração dos 99 anos do ABC. Cada bilhete é 100 reais e o traje é paletó nas cores do clube para os homens e roupa chique para as damas. À frente, o conselheiro Antônio Gentil. Outras informações no www.abcfc.com.br

Fica

O técnico Oliveira Canindé não faz por onde sequer ser cogitada sua demissão no América.

Compartilhar:
    Publicidade