Da arte de não ser – Vicente Serejo

É o que sempre digo Senhor Redator: bons exemplos há, mas nossas dondocas e socialites não querem segui-los. Preferem o…

É o que sempre digo Senhor Redator: bons exemplos há, mas nossas dondocas e socialites não querem segui-los. Preferem o ramerrão onde fofocam, azucrinando a vida do próximo e roubando a paciência do mundo. Nelas, nada enobrece o espírito. A não ser os berloques que adornam suas carnes e balançam nos lóbulos de suas orelhas, embora diante de algumas, principalmente as mais sensuais – pra que negar? – as pérolas acendam os desejos quando repousam, quietas, sobre a vastidão do colo.

Triste dos homens sem graça a quem o destino negou a arte da sedução e deu apenas um olhar a contemplar a beleza como uma fruição do espírito. Se os olhos por acaso tudo observam, e as pupilas tocam de longe o objeto do desejo, é sinal de que a contemplação também é um ofício. Como o mister de um velho artesão que, dominando o segredo do belo, a ele se entrega. Ou, o grande escultor que liberta a forma perfeita que mora no mármore como quem inaugura no olhar a beleza da sua criação.

Devo lembrar, Senhor Redator, no caso das dondocas, e ainda que não sejam todas, que nas nossas socialites – que não falte lhaneza às palavras – o silêncio muitas vezes salva a beleza do fastio que seria ouvi-las sobre a vida. Melhor vê-las caladas, como garças na paisagem outonal. Ou segui-las à distância, sob o sol luminoso do verão. Tê-las, sobretudo, se o olhar é uma forma de posse, e se o real e o irreal se misturam na mesma realidade naquele raro enternecer-se de quando a beleza é invenção.

Do devaneio que poderia ter sido e que não foi, como no verso célebre de Manuel Bandeira, o que resiste sobre esta mesa é a notícia de Maria Alice Setúbal, filha de Olavo Setúbal e herdeira do Banco Itaú, uma das maiores e mais sólidas fortunas do Brasil. E tudo isto não impediu que fosse socióloga, senhora nas ciências políticas e sociais, amiga e consultora informal de Marina Silva, o que mostra não ser verdade que a riqueza há de ser burra para ser bonita, como alguns teimam em dizer.

Maria Alice Setúbal, conta Maria Carolina Trevisan ao longo de dez páginas da revista TPM, ‘tinha tudo para ser uma dondoca alienada’. Nada a impedia de transformar sua vida num rastro de luz e de ser um cometa nos salões do higt society, ‘na bolha da alta roda’. Fortuna tinha. E tem. Muito mais que as nossas socialites tupiniquins que de tão precárias por nada assustam. Se a beleza em algumas até enobrece, é um tempo de frescor que passa quando passa o sol daquela última primavera.

Outro dia, numa noite de conversa entre bons goles de um conhaque que um amigo esconde entre velhos romances de capa e espada, fui ouvindo sua leitura em voz alta da história de Maria Alice. Não sabia que Eduardo Campos incorporou algumas de suas ideias e que depois acabou convidando-a para ser uma das cabeças do seu plano de metas. Ela acredita na luta pelos mesmos direitos sociais para todos. E com a vantagem de não poder ser acusada de invejar a riqueza de ninguém. Que bom.

FUROR

A Prefeitura de Mossoró, enfurecida com os artesãos que ocuparam um terreno baldio, receberam uma notificação para que desocupem a área em 48 horas. Se até Lampião saiu correndo é bom não demorar.

OPINIÃO

A Continente, hoje a mais importante revista cultural do Nordeste, lança a edição de agosto dedicada ao tema Opinião e a disputa entre a mídia tradicional e as redes sociais. E um texto sobre Octávio Paz.

CASCUDO

A Global desdobra de Contos Tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo, e lança a seleção ‘Contos de Exemplo’ com as ilustrações de Cláudia Scatamachia. São treze histórias ilustradas com muito talento.

SILÊNCIO

Os números da pesquisa Seta apontando em Natal uma disputa imprevisível para o Governo e Senado jogaram o silêncio de pedra de gelo sobre a euforia de alguns próceres. Mas ainda é cedo. Muito cedo.

COMENDA

Este repórter, velho alvissareiro desta ribeira entre o rio e o mar, agradece ao vereador Dickson Júnior a indicação do seu nome para receber a Medalha Deífilo Gurgel. O cronista ainda comovido, agradece.

SEXO

Tem um cheiro certo para aquele hora quando todos os desejos, uma vez disparados, são irrefreáveis? Tem, segundo a edição agosto da Playboy. Na capa, Jessika Alves, a babá que revela todo seu acervo.

LEITURA

Recomenda-se, se não for muito, e tendo em vista o tempo de espinhos, a leitura de ‘Violência’, de Slavoj Zizek. E com direito, na edição Boitempo, a um longo prefácio escrito para a edição brasileira.

SALÁRIOS – I

Pesquisa do Ministério do Trabalho divulgada na rede virtual – dados de dezembro do ano passado – mostra que o Brasil tem um salário médio nacional no valor de R$ 2.265,71 incluído o poder público.

COMO – II

A maior média salarial do Brasil é a de Brasília – com R$ 4.217,61 – segundo dados da Relação Anual de Informais Sociais, do Ministério do Trabalho e a menor é a do Ceará fixada hoje em R$ 1.633,85.

AQUI – III

O RN ocupa a vigésima posição – R$ 1.865.08 – e se mantém acima de Pernambuco, Bahia, Maranhão, Piauí, Alagoas, Paraíba e Ceará. São Paulo é a quarta posição perdendo para Brasília, Rio, e Amapá.

SOM

É bom anotar para não esquecer: amanhã, domingo, às 16h30, Som da Mata, no Parque das Dunas com a apresentação da Big Band Jovem, de alunos e professores da UFRN. Tem K-Ximbinho pra se ouvir.

FOLCLORE – I

Enquanto as nossas entidades ditas culturais continuam folclorizando o folclore na sua velha cafonice, a Paraíba preferiu convidar a professora Idalette Muzart para falar sobre a obra de Ariano Suassuna.

PARA – II

Para algum intelectual conterrâneo que por acaso ainda não saiba, Idalette Muzart é hoje professora titular da Universidade de Paris, onde também dirige o Centro de Pesquisas sobre o mundo Lusófono.

ALIÁS – III

Não bastasse a folclorização de um saber que na terra de Câmara Cascudo ainda não passou de festejo e furdunço, ainda se tem que aceitar as conspícuas nulidades nos remelexos dos fandangos culturais.

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