Home > Colunas > Da arte de ser

Da arte de ser

Data: 17 janeiro 2013 - Hora: 18:02 - Por: Vicente Serejo

Às vezes tenho a sensação, Senhor Redator, que o homem é mesmo um diabo que vive a negar a sua própria miséria. Enche as mãos de dinheiro e imagina que as velhas angústias, atávicas e ancestrais, só por isso são invencíveis. É fácil identificá-lo nos jogos pueris. A alegria tola e inútil de quem se acha merecedor da unção dos deuses. Não sabe que as pessoas maravilhosas são as falsificadoras da arte de viver. Quando não montam a farsa, fazem da ausência a máscara com a qual escondem a sua omissão.

Repórter, e por força do ofício, aprendi a olhar o outro nos seus silêncios como a expressão fiel da condição humana. A desconfiar das mágoas, se são álibis. A duvidar do rancor, se são invenções. De ter medo da soberba quando vem embrulhada em papel de presente. A dominação é o exercício de criar falsas semelhanças. Um pouco de destreza e outro de ousadia e o monstro revela-se. Pode ser na austeridade da gravata ou quem sabe, o carmim do batom que encobre o veneno. Tudo é maquiagem.

Aprendi com a areia que tudo fica e com o vento que tudo passa. O chão da vida nunca será o mesmo se sobre ele há um ser humano entre a miséria e a dor, a esperança e a glória. Por influência de um amigo, aprendi num poema de John Milton que a esperança é a casa do medo. Perdê-la é perdê-lo. Não para ser corajoso – a coragem é a forma ruidosa da tolice, mas porque todos os heróis são inúteis. A diferença entre o vitorioso e o vencido é o bronze das estátuas sem vida no silêncio morto das praças.

Daí, esses jogos pueris do ser e do não ser. Essa peleja entre o saber-saber e o saber-fazer numa olimpíada andrajosa de desejos e frustrações. O verniz, se aplicado com cuidado e lustrado com esmero, aviva o brilho cego dos incultos. Como ensinou o velho e irônico Afrânio Peixoto nos estertores daquela belle époque risonha e tardia, entre debruados e espartilhos, a literatura é o sorriso da sociedade. Melhor ser feliz assim, como se fosse, do que servir nas salvas de prata o desgosto amargo de nunca ter sido.

É dessa arte de ser e não ser que se faz o ventríloquo, mas que seja de algum modo casual. Se possível, quase humano. Ou tão humanamente parecido que se passe como se fizesse parte da vida e do baile. Em sociedade, o pecado é a afronta. Tudo se loa e se perdoa, desde que se faça com cuidado e distinção. O proibido é permitido como a perna que leva o pé até o bosque proibido, enquanto sobre a mesa o espetáculo continua. Ao som de taças que tilintam e dos risos gaios que se tocam fugidios.

Eis o homem, Senhor Redator, feito da grandeza divina e da miséria humana, pobre e pecadora. Se não fosse assim, seria incompleto. A perfeição sublime lhe roubaria a humanidade e sem fraquezas ele seria um monstro. É preciso aceitá-lo assim, compreendê-lo nas suas coragens e nos seus medos, na sua inteireza e na sua incompletude. Entre a mesmice de ser sempre igual e a inesperada descoberta de nunca se saber quem é. Na glória incompreensível de ser eterno, mesmo a cada sinal de sua finitude.

 

SERÁ
Das duas, uma: ou os assessores da governadora Rosalba Ciarlini esperam muitos velórios ao longo de 2013. Ou muito aniversário e casamento.  Só assim um governo consegue gastar R$ 220 mil com flores.

ALMOÇO
O poeta Diógenes da Cunha Lima reúne sábado os amigos do jornalista e escritor Murilo Melo Filho em Pirangi. A ideia é brindar a presença de Murilo entre nós, o único ícone potiguar no cenário nacional.

MÁSCARAS
Dia primeiro de fevereiro, às 8 da noite, no Clube de Radioamadores, sede do Clube de Engenharia, na Av. Rodrigues Alves, o Baile de Fantasias. Promoção dos Antigos Carnavais nos seus 12 anos de folia.

CARNAVAL
Castilho avisa: quando o carnaval chegar, numas tardes sairá como anjo bêbado com as asas de arminho; noutras, será um mórmon compenetrado, de camisa branca, gravata, crachá e uma caneta bic no bolso.

SINAL
A Sephora, em nome das cores vibrantes do coral, lança um novo iluminador para o brilho sutil do rosto das mulheres e batizou: The multiple orgasm. Para um tão prazeroso milagre, não é caro: R$ 156 reais.

URSO
Já nas bancas, a edição de Playboy com Catarina Migliorini, virgem e nua, sobre o olhar sem vida de um imenso urso de pelúcia. Como se os olhos do mundo não ferissem de desejos medonhos sua virgindade.

LEITURA
O impacto da tecnologia na reinvenção do futuro é o tema do novo livro de Chris Anderson, considerado hoje o Nostradamus deste mundo moderno. E este é seu título: ‘Makers – a nova revolução industrial’.

PRESENÇA – I
Hoje, em Natal, Usha Pitts, representante diplomática dos Estados Unidos no consulado de Recife, para um encontro oficial com a governadora Rosalba Ciarlini e outro com o prefeito Carlos Eduardo Alves.

MAIS – II
Na sexta-feira Heidi vai fazer uma visita à Rampa neste 2013 dos setenta anos do encontro de Roosevelt e Getúlio e vai ainda ao Iate Clube para olhar o pôr-do-sol da cidade. Augusto Maranhão é o anfitrião.

CORTEJO – III
Dia 26 próximo, às 10 horas da manhã, será a carreata a partir da Rampa, percorrendo um roteiro por algumas ruas da cidade para marcar o encontro histórico de 1943. A iniciativa é da Fundação Rampa.

RAMPA – IV
A data demonstra não só a importância do fato histórico que definiu a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, um fato da História, como mostra nosso descaso pela preservação integral da Rampa.

ALIÁS – V
A insensibilidade dos nossos governos, ontem e hoje, tem sido a marca desastrosa do Frio Grande do Norte diante de sua própria história. Partida ao meio, vítima de uma rendição que a história vai julgar.

POESIA – I
Deus sabia quando fez de Michel Temer fosse um político nacional e vitorioso a ponto de ser hoje vice-presidente da República. Como poeta, a julgar pela sua poesia, teria sido de um fracassado retumbante.

LEIAM – II
Leiam seu poema Embarque: ‘Embarquei na tua nau / sem rumo. / Eu e tu. / Tu porque não sabias / para onde querias ir. / Eu porque já tomei muitos rumos / sem chegar a lugar nenhum’. O Brasil que se cuide.

Notícias Relacionadas
  • TAGS: