Da civilização – Vicente Serejo

A falta de um processo civilizatório consistente nos fez assim, sem respeito pelo outro, e pelo livre ir e vir…

A falta de um processo civilizatório consistente nos fez assim, sem respeito pelo outro, e pelo livre ir e vir das pessoas. Dos indígenas nativos e puros que fomos, passamos por uma miscigenação que nos acrescentou os sangues português e africano, e acabamos assim, numa bela raça, mas feita de incompletudes que só a civilização corrigiria. Acontece que não fomos civilizados, mas invadidos pela ambição dos portugueses, franceses, espanhóis e holandeses, só para lembrar os mais famintos.

Passados quinhentos anos, os sinais da falta de civilização se revelam em tudo, até nas coisas mais simples. No prazer dos que dizem não como forma de afirmação, como se o sim diminuísse sua autoridade, aos excessos cometidos em nome dessa mania incivilizada de não respeitar o espaço que também é do outro. Resultado de um povo oprimido diante de um Estado que há cinco séculos ainda é muito maior que a Nação e vítima de um autoritarismo velho que vem do Tratado das Tordesilhas.

Quando afirmo que a incivilidade se revela em tudo, Senhor Redator, não exagero. Os nossos soldados quando se exercitam nas ruas ocupam toda a largura da faixa de rolamento. Se são policiais militares, correm nos bairros residenciais guardados por viaturas, fuzis e metralhadoras em punho e em riste. Se militares garbosos, já saem com suas bandeiras vermelhas sinalizando o impedimento de carros, como se a ousadia de ultrapassá-los ferisse a grave e solene dignidade da segurança nacional.

As interdições, então, são piores. Não importa que sejam de civis, militares, eclesiásticas ou que tais. Há sempre um exagero descabido, uma declarada demonstração de autoritarismo. Para não falar da sinalização. O que deveria ser preventivo e com sentido de orientação, afinal o cidadão paga impostos, e vários, para viver e circular na sua cidade, é um exemplo de desatenção. As placas não são postas com distância necessária e o guarda não cumpre seu dever de orientar, pois prefere multar.

Por esses dias, alguém ungido de predicados superiores resolveu interditar pedaços de ruas e avenidas em torno da Praça Pedro Velho, a que nunca foi cívica, a não ser pelo puxa-saquismo dos nossos gestores no tempo da ditadura. Não se sabe se tanta antecedência é para o altruísmo do 7 de Setembro ou se há, tão nobre como a liberdade, algo mais urgente. Um mês antes a interdição fere a paz dos que lá vivem ou precisam passar por ali. É a cultura da autoridade imposta desde a colônia.

Em Paris – não é pedantismo, é só exemplo de civilização – no 14 de Julho, data da Revolução Francesa, há um dos maiores desfiles militares do mundo com a interdição da Av. Champs Elysées, do início até o Arco do Triunfo, mais algumas ruas indispensáveis ao acesso. A interdição acontece na madrugada de 13 para 14. Mas tudo é liberado imediatamente depois da passagem das viaturas e tropas. Só por questão de respeito aos cidadãos franceses. Chegaremos lá, Senhor Redator? Talvez…

PESQUISA

O natalense, o maior consumidor de pesquisas do Brasil, terá um bom e variado cardápio de números no próximo final de pesquisa. Além das pesquisas internas misteriosamente trancafiadas nas gavetas.

REAÇÃO

O crescimento da candidata Marina Silva nas pesquisas – Ibope e Datafolha – suportou bem a reação da presidente Dilma Rousseff, e também a deixou bem posicionada numa hipótese de segundo turno.

DETALHE

Política tem coisas assim: antes Aécio Neves era essencial para não deixar Eduardo Campos crescer demais. Agora ele é essencial para evitar a vitória de Marina no primeiro turno. Bastaria ele renunciar.

ONDA – I

O senador José Agripino vive uma conjunção dos astros da má sorte: depois de dizer que subiria até num coqueiro para tirar o último voto de Rosalba Ciarlini, agora antecipou a derrota de Aécio Neves.

SUA… – II

Sua previsão seria legítima se não fosse o coordenador nacional da campanha tucana e se Aécio não vivesse o drama de ver sua candidatura descer pelo ralo. Tucanos consideraram uma fala desastrosa.

LUTA – I

As raposas políticas projetam um confronto Wilma-Fátima até o final da campanha, mas com grande chance para Wilma; e o favoritismo de Henrique sobre Robinson. Só um cataclismo político mudaria.

CRISE – II

Para essas raposas, a crise de gestão que vive o Estado à beira de um abismo tem hoje a força de uma consciência coletiva. E uma crise política que a cada dia qualifica mais o candidato Henrique Alves.

GUERRA – I

Os gladiadores virtuais não descansam suas armas, a não ser para afiá-las na pedra da maledicência. Divulgaram o ministério de Marina como se ela fosse burra a ponto de nomeá-lo com antecedência.

ALIÁS – II

O temor dos petistas tem razão de ser: fizeram o maior aparelhamento da máquina estatal das últimas décadas. Nunca na história deste país se teria um desmonte tão grande se Marina Silva for a vitoriosa.

PAZ

Da casamata do marketing do candidato Robinson Faria ouviu-se enfim o estampido que matou a paz tão bem inventada até agora. Daqui pra frente, só Deus sabe em quais desvãos de desaforos cairemos.

MODELO

As pesquisas qualitativas mostram um eleitor que exige uma ficha limpa e propostas concretas com chances de execução. Mais que isto: alguém qualificado para conquistar soluções, aqui e em Brasília.

COMPETÊNCIA

Sai terceiro volume dos Escritos de Marilena Chauí, edição da Autêntica, agora reunindo ensaios em ‘A Ideologia da Competência’. Na seleção, a sua longa entrevista concedida à revista Caros Amigos.

POÉTICA

Os professores Carmen Comino e Francisco Ivan reuniram seus talentos e produziram uma Antologia Poética Hispano-Brasileira. O longo ensaio sobre Federico Garcia Lorca é primoroso como erudição.

TIRANIA

De Bertrand Russell num dos seus ‘Ensaios Críticos’ lembrando uma velha máxima do capitalismo: ‘O afortunado não pode ser reprimido no exercício da tirania sobre os desafortunados’. Não mudou.

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