Da hegemonia

Vale muito pouco ou quase nada, Senhor Redator, numa terra de políticos convencidos de todas as certezas, discutir conceitos para…

Vale muito pouco ou quase nada, Senhor Redator, numa terra de políticos convencidos de todas as certezas, discutir conceitos para eles muito abstratos, como os riscos de uma hegemonia. Mais ainda num país que desenvolveu, com a mais cândida sem-cerimônia, a cultura do levar vantagem em tudo segundo a Lei de Gerson. Uma forma perversa de distorcer aquele jeitinho brasileiro tão bem estudado por Antônio Cândido quando ergueu e fixou, com originalidade, a sua Dialética da Malandragem.

Ora, pra que? Mas, ainda que não tenha a menor repercussão na nossa classe política, é este o melhor caminho para se tentar perceber a complexidade de uma escolha que, por uma força de atração absoluta – o corpo maior atrai o menor – acaba reunindo em torno de uma candidatura a governador todas as outras forças menores que gravitavam em torno do processo sucessório. Como se um chapão, um acordão ou que outro nome possa ter vier assegurar uma ausência de contendor e até de oposição.

Toda hegemonia acaba encontrando um adversário, quando não na própria rua, a sua força capaz de galvanizar as insatisfações populares. A disfunção começa no amontoado desordenado de ideologias, programas, tradições e ideias e se corporifica na prática política que acaba por esfacelar sua unidade artificial. Tanto é que a sensibilidade de alguns políticos recomenda o modelo de alianças entre semelhantes, ou seja, a reunião natural de integrantes de uma mesma inspiração e objetivos.

Nenhuma política foi mais sólida, na contemporaneidade, do que a liderança de Dinarte Mariz que teve seu auge ao conquistar o governo. Do alto do Palácio Potengi parecia algo de inexpugnável e eterno. Nem ninguém imaginava que Aluizio Alves, um jovem político inexpressivo diante da força do governador que vetou suas aspirações seria a força catalizadora a atrair a insatisfação de uns, o desejo de outros e a revolta de outros mais, e promovendo nas ruas uma verdadeira revolução pelo voto.

Sua pequena ‘gentinha’ transformou-se, pela força simbólica de sua voz e do seu gesto, numa legião romana, e ele próprio num gladiador que, nascido num grupo político que tudo podia, assumiu derrotando esse grupo e avisando a todos: ‘Vim para lutar, vim vencer, vim para ficar’. Dois anos depois, quando tudo parecia definido, o povo que consagrava seu governo voltou às ruas para eleger Dinarte Mariz senador e refazer a polarização, contra qualquer forma, velada ou não, de hegemonia.

Experiente – quarenta anos de política, hoje presidindo um dos poderes – o deputado Henrique Alves pode ter acertado ao escolher o modelo que reúne todas as cores contra a chance do adversário. Mas, corre o risco de ver nascer nas ruas, e em torno de quem menos esperaria aquela estranha força capaz de colocar no palácio o símbolo do repúdio popular. Para Antônio Gramsci, por exemplo, formulador do conceito de hegemonia, não basta ser hegemônico. É preciso liderar a sociedade civil.

 

LEVANTE – I

Como em 35, na Intentona, a célula pedetista, integrante do acordão, ensaia um levante sublevando-se pelo direito de indicar o vice de Henrique. Ora, como se João Maia já autoproclamou-se ser essencial?

É… – II

Que o PDT tem o prefeito da capital, com mais de 70% de aprovação, e não pode ficar confinado às migalhas que o PMDB oferece, como quem joga milho aos pombos. Acordão também tem seus brios.

ALIÁS – III

Tomara que o vice não venha ser Agnelo Alves. É legítimo, mas um tio e dois primos na Prefeitura de Natal, no governo e na vice, parece ser um pouco demais. Mesmo sabendo-se que oligarquia é assim.

RN

Dizem as boas línguas do Centro Administrativo que o RN Sustentável virou uma festa de compras: de carros, móveis e, muito principalmente, de diárias. São R$ 50 milhões só neste primeiro tiro de meta.

AGENDA

Padre João Medeiros em São Paulo. Fez conferências para um grupo de teólogos e estudantes sobre ‘O ensino acadêmico da Teologia no Brasil – Sacerdócio, Cultura e Ensino’. Só não é profeta em sua terra.

VIRILIDADE

Depois da ‘História do Corpo’ a Vozes lança no Brasil ‘História da Virilidade’, em três volumes, sob a direção de Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello. Impossível não tê-los na estante.

SERIDÓ

Um ano depois da audiência pública para a criação da Universidade do Seridó, no plenarinho da AL, nada há, nem notícia. Nem mesmo a fala animadora do senhor arcebispo Dom Jaime Vieira Rocha.

PAZ

O corpo de Gianni Garbellini, depois de embalsamado desde o dia 6, foi cremado ontem para sossego de Tamara e seus filhos. A burocracia atenta contra vivos e mortos nesta aldeia velha e sem estribeira.

PROSA – I

A Universidade de Goiás lança ‘A Ressurreição de um Caçador de Gatos’, de Carmo Bernardes, que Oswaldo Lamartine considerava um dos maiores contadores de histórias desse Brasil do mato-dentro.

SELEÇÃO – II

Na verdade, o livro de Bernardes não é inédito e póstumo, é uma seleção feita por ele das prosas e que mereceu o prêmio cubano Casa de Las Américas. Seleção de histórias antes publicadas nos seus livros.

ESTRÉIA

Nosso amigo Eugênio, da Caixa Econômica, Campus, petista e americano, todo feliz com a estréia de Eugênio Filho nas páginas do jornal Metropolitano, seguindo sua tradição como bom desportista que é.

VOZ – I

Paulo Lima, da Isto É, dedica duas páginas de sua coluna a Iris Lettieri, saudando o prefeito Eduardo Paes por ter solicitado o retorno de sua voz no serviço de informação de vôos do Aeroporto do Galeão.

DEUSA – II

Para o colunista, Iris, esse ícone com raízes natalenses, é uma deusa da beleza hoje aos 73 anos e que teve sua voz aveludada tombada como patrimônio dos cariocas. Ela fala outra vez nos nossos ouvidos.

EXPO

Será no Sam’s Clube, de 4 a 6 de abril, a XXI Exposição de Orquídeas. Um dia, quem sabe, além delas teremos uma exposição para mostrar as flores silvestres desses morros da nossa bela Mata Atlântica.

AVISO

Leio num release que vem por aí um mágico para alguns espetáculos nesta Natal de tantos malabaristas e prestidigitadores. Como se aqui, entre mágicos e sabidos, já não fosse difícil sobreviver sem riscos.

HUMOR

José Simão registrou, ontem, na Folha, com todo aquele seu humor cáustico, o fracasso na reedição da marcha: ‘Em Natal, Marcha com Deus pela família: nove pessoas. Nem a sogra foi. Nem Deus foi!’.

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