“Da quebrada à frente da praia”: Veja a trajetória de sucesso dos funkeiros

Carros importados, casas, sítios e aproximação com músicos sertanejos: MCs Guime, Menor, Pocahontas e Lon falam sobre como o funk melhorou suas vidas

MC Guimê. Foto: Divulgação
MC Guimê. Foto: Divulgação

Para alguns cantores de funk ostentação, as rimas sobre artigos de luxo deixaram de ser um sonho para se tornar realidade. “O conforto mudou completamente. Eu era um moleque que morava em uma casa alugada, apertada, dormia em beliche. Hoje tenho empregada para fazer comida, posso ajudar minha família”, conta ao iG o paulistano MC Guimê.

O funk ostentação, ou funk paulista, é uma vertente do funk carioca. Com origem na Baixada Santista, no litoral do estado de São Paulo, tornou-se popular na Capital a partir de 2011. É um subgênero musical que usa batidas comuns ao funk carioca, mas as letras mostram os desejos de uma periferia que sonha em ter bons carros, roupas caras, festas bem produzidas e muito luxo.

Quando o “ostentação” vira realidade

Nascido em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, Guimê, que atualmente tem sua própria casa no bairro do Tatuapé, é um dos maiores representantes do funk ostentação no País. Recentemente, esteve presente em programas de TV como “Encontro com Fátima Bernardes” e “Domingão do Faustão”, além de ter sido um dos artistas mais visualizados do YouTube em 2013.

Com seu trabalho com o funk, “a vida mudou da água para o vinho”, define Guimê, de 21 anos. “De todas as coisas que eu fazia, pouquíssimas eu mantenho. Jogava bola na rua, soltava pipa. Infelizmente, não tenho mais tempo para isso, mudou a rotina.” No entanto, as mudanças trouxeram visibilidade, melhores cachês e, consequentemente, a realização de sonhos que são cantados em suas letras.

“Conquistei muita coisa, comecei a viver um sonho através do funk. Às vezes, falamos de um carro de meio milhão (nas letras), e tenho um carro de menos (valor), mas não sou tão apegado a isso”, explica o MC – que diz ter hoje o carro e a moto que sempre quis.

Do “proibidão” para o “ostentação”

Não foi apenas a vida do MC Guimê que mudou para melhor por causa do funk ostentação. Para o MC Lon, de 22 anos, que também foi um dos destaques brasileiros do YouTube Awards 2013, o funk já permitiu que ele realizasse alguns sonhos, como comprar um sítio para a mãe e ajudar financeiramente os irmãos e o pai.

Antes da fama, Lon, que mora na Praia Grande, litoral sul de São Paulo, trabalhava cortando cabelos. “Eu sustentava a família como cabeleireiro. Comecei a cantar funk e tudo melhorou na minha vida, chegou na hora certa”, conta. “Tudo mudou de uns três anos para cá. No começo, foi muita ralação para ter alguma coisa.” O MC também mudou de bairro desde que melhorou de vida: “Morava na quebrada, agora moro na frente da praia.”

Conhecido anteriormente por cantar “proibidão”, subgênero do funk com letras de apologia à violência, Lon conta que os shows só valorizaram quando foi para o “ostentação”. “O cachê do ‘proibidão’ é mais da comunidade, mais da quebrada. Com o ‘ostentação’ a gente passa na tela (da TV), tocamos em baile bom, muda tudo.” Com o sucesso, os sonhos de ter uma moto e um carro viraram realidade. “Tive um Camaro branco, fui com ele no (programa do) Rodrigo Faro e no meu clipe novo aparece uns detalhes dele.”

Funk “romântico”

O MC Menor, da dupla Pikeno e Menor, não gosta de rotular suas músicas e diz que prefere trabalhar com “relatos de histórias” em vez de “ostentar” – característica essa que agrada ao público feminino, estimado por ele em 80% das pessoas que vão aos shows da dupla. “Contamos histórias que as mulheres se identificam”, define.

Os hábitos que Menor tinha antes da fama também se modificaram, como as idas ao shopping para fazer compras. “Escolho horários na parte da manhã. Sempre morei no Carrão (zona leste de São Paulo) e sempre fui ao (shopping) Anália Franco. Mantenho isso, mas vou cedo porque à noite não dá mais, o pessoal cai matando”, conta sobre o assédio dos fãs.

Com seu trabalho como funkeiro, Menor, de 24 anos, conta que já conseguiu trocar de carro e comprar um apartamento para ele e outro para a mãe. O aumento do cachê é usado também para investir nos shows. “Antes era eu, o Pikeno, o DJ e o motorista. Hoje tem técnico de som, violão, estamos atrás de cenário, tem segurança. Conforme a música vai sendo pedida, aumenta a equipe e o tempo de palco”. O MC explica que, no começo, os shows eram de 20 minutos. Hoje já têm quase uma hora.

MC Menor, da dupla Pikeno e Menor. Foto: Divulgação
MC Menor, da dupla Pikeno e Menor. Foto: Divulgação

“Mulher do Poder”

Conhecida como MC Pocahontas, Viviane Queiroz, de 19 anos, faz sucesso com um funk ostentação que, de certo modo, pode ser visto como um grito feminista de meninas que sonham em ser “do poder”. A expressão é usada pela funkeira em “Mulher do Poder”, letra escrita por ela que enumera alguns desejos de consumo: “Salão de beleza, roupa de marca, sandália de grife no pé/ Bolsa da Louis Vuitton, sonho de toda mulher.”

Quando ganhou a primeira bolsa da grife francesa citada na letra, Pocahontas se emocionou: “Chorei muito. Era um sonho, eu falava muito dessa bolsa”. A funkeira diz que sua coleção de Louis Vuitton já tem cinco peças e, com a fama, planeja a abertura da própria marca, a “Ponto P”. Pocahontas é uma raridade no cenário predominantemente masculino do “ostentação”. Nascida e criada no Rio de Janeiro, a MC é fã de Nicki Minaj e Beyoncé, que, assim como a funkeira, falam sobre luxo e poder feminino em suas músicas.

“Vivo da minha imagem, tenho que estar sempre bem vestida. Passei a ligar mais para isso, vira um vício depois que você começa a usar (produtos de marca)”. Há três anos cantando funk, Pocahontas conta que conseguiu comprar uma casa para a mãe e que agora pode passar no shopping para “comprar o que quer”. Os pais trabalham com a MC, que é seguida por fã-clubes como o “Família Poca Loca”, “Pocahontinhas” e “Pocahontetes”, além de várias páginas de fãs no Facebook.

Aproximação com sertanejo e celebridades

Com a riqueza, vem também a fama. O jogador Neymar já convidou o MC Lon para andar de iate, diz o funkeiro, assim como artistas famosos passaram a enxergar seu trabalho com o funk ostentação de uma outra maneira. “Já fui em festa na casa do Neymar, na casa do Ralf do Corinthians, saí com a Turma do Pagode”, enumera.

Para o MC Menor, a integração com outros artistas também tem sido positiva. “A maior mudança (na carreira) foi o respeito dos músicos. Eles procuram a gente, eles gostam. Estou mantendo contato com o Sorocaba (da dupla Fernando e Sorocaba), ele quer compor comigo.” O sertanejo Lucas Lucco chegou a gravar uma música de Pikeno e Menor, “Toda Toda”, por indicação do próprio Sorocaba.

O assédio também mudou. “(As mulheres) estão dando mais em cima. Antes, quando eu não era nada, ia nos bailes, via aquela menina bonita, mas que jogava o cabelo e fingia que não me conhecia. Hoje eu passo e elas mexem, chamam de ‘gostosinho’, onde eu vou todo mundo me adora”, descreve Lon, que afirma fazer questão de atender todos os fãs para tirar fotos.

MC Pocahontas. Foto: Divulgação
MC Pocahontas. Foto: Divulgação

“Rolezinho”

“Acho que hoje, a cada 10 moleques que estão na rua, 11 gostam de funk, é normal escutar funk. Sou a favor dos encontros da molecada, mas sou contra a parte do vandalismo”, diz o MC Menor sobre os “rolezinhos” – ele lembra que na época em que era adolescente os encontros em shoppings de São Paulo já aconteciam.

Para Lon, o “rolezinho” quando vira confusão “é muito chato”. “Se fosse um encontro que junta todo mundo, sem machucar ninguém, tudo bem. Mas do jeito que está eu não dou valor, não.”

A MC Pocahontas teve uma experiência ruim durante um encontro de fãs em um shopping no Rio Grande do Sul. Segundo a cantora, houve tumulto e, depois disso, ela prefere recomendar que os “rolezinhos” aconteçam em outros lugares. “Deviam fazer na balada. No shopping tem muita família, que acaba encontrando um monte de gente correndo e aloprando, isso é meio constrangedor.”

 

 

Fonte: iG

 

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