Da velha ponte
Não tenho nada contra as ideias. Muito menos contra boas ideias. Mas não basta que as ideias sejam boas. Na gestão pública, então, é preciso que sejam viáveis. Sobretudo, prioritárias. E na ordem das precedências. É bem o caso da velha Ponte de Igapó que carrego como um ícone da infância nos seus arpejos metálicos. Era a trilha sonora da chegada e da partida. Ferros batendo sob os pneus do ônibus de Chico de Gustavo. Natal chegava e desaparecia nos rastros da estrada poeirenta e comprida.
Mas uma coisa é a ponte que trago comigo – os sinais acesos e as bandeiras tremulando de cada lado, avisando que lá vinha o trem. Outra, a ponte hoje, real, partida ao meio, despedaçada na chama dos maçaricos, como vi nos anos setenta. Vendida como sucata, nem assim serviu. Abandonada, apodrece sem descanso nas águas salobras do rio, depois de ser um território de sonhos. Restaurante nos olhos de uns, varanda no desejo de outros, tudo. Menos ponte. Até virar esse monstro sem vida.
Como no poema de Zila Mamede, a Ponte de Igapó para quem a tem dentro da alma, é também um salto sobre o vão do espaço. Seja de pedra ou de aço, e por isso, numa paráfrase, ela permanece, e passa. Mas, nem assim, a ponte no plano real se completaria apenas diante da decisão desta ou daquela forte ou fraca instituição. Não basta a sugestão do Ministério Público. Como refazê-la em tão pouco tempo numa cidade sem uma boa urgência de saúde, escolas fechadas e a violência solta nas ruas?
Também quero a ponte. Como não? E o que faço com as minhas pequenas travessias quando trazia na maleta os sonhos de um dia viajar pelo mundo? Sim, dizem, querer é poder, mas nem sempre. Fernando Pessoa dizia que querer não é, necessariamente, poder. Veja: ‘Quem quer nunca há de poder, porque se perde em querer’. Querer todos nós queremos, mas não basta. É cômodo distribuir tarefas aos governantes, como se dispusessem de um bom orçamento. E fazer fosse tão somente um querer.
Uma noite fui ao Iate Clube a convite de Alberto, meu irmão, velejador dos sete mares. E ouvi a palestra do engenheiro Manuel Fernandes Negreiros. Conversa inteligente, com ilustrações, suas fotografias, mapas, plantas e cálculos. Sua pesquisa sobre a história da Ponte de Igapó vai nos trazer de volta um mundo de informações que hoje dorme em arquivos locais, nacionais e alguns internacionais. E de como os ingleses construíram outra ponta igual a esta, com seu grande vão central, longe daqui.
Sim, foi um absurdo vendê-la como ferro velho. Consentiram desmontá-la, quase dinamitaram suas bases de sustentação erguidas com cimento inglês que Negreiros descobriu um saco já petrificado no acervo do Instituto Histórico. Um dia, quem sabe, quando a vida estiver menos ameaçada de tudo – pela violência, falta de um serviço de urgência, tudo – teremos a ponte como um lance perfeito sobre o rio. E então, como no poema de Zila Mamede, a ponte será um salto esculpido sobre o vão do espaço.
PRESSÃO – I
É discreta, mas firme e obstinada, a pressão do PMDB pelos cargos do governo. Presença de Henrique Alves é tão forte, avalia o partido, que terá ressonância positiva mesmo que venha a romper no futuro.
GAGAU – II
Decidido: o governo não aceita transferir ao PMDB o programa do leite, mesmo para tê-lo ao lado pelo menos até dezembro próximo. O leite é como resumiu ontem um governista desses francos: ‘É muito’.
ALIÁS – III
O governo não quer incluir a Caern no pacote de recursos hídricos. Considera que é um dos setores do governo melhor administrados, além dos bons frutos políticos que serão produzidos a partir de agora.
FLAGRA
Infeliz, para não dizer patética, a reação da governadora Rosalba Ciarlini diante das críticas feita pelo deputado Henrique Alves diante do estilo centralizador e isolado do seu governo. Faltou amor próprio.
CORRIDA
O deputado Henrique Alves aproveitou a embalagem e prometeu nos próximos dias ao deputado Nélter Queiroz iniciar as obras da barragem de Oiticica, a velha e desejada conquista dos seridoenses.
ESTILO – I
Numa coisa o secretário Rogério Marinho tem inovado: no linguajar que adotou quando fala sobre as metas desenvolvimentistas. Aliás, nada melhor para falar sobre o que não existe do que as metáforas.
EXEMPLO – II
Outro dia, quando da visita do deputado Henrique Alves, o secretário de desenvolvimento se referiu ao aeroporto de São Gonçalo como modal. O telespectador não sabe o que é. Mas, que ficou bonito, ficou.
SILÊNCIO
A ex-governadora Wilma de Faria, pelo visto, não pretende quebrar seu silêncio sobre as eleições do ano que vem. Mas vem atentamente sintonizada com suas bases em Natal e no interior. Ouvindo tudo.
ICMS
A grande luta dos donos de bares e restaurantes reunidos desde ontem em Pipa é a redução de ICMS como forma de incentivo a um dos segmentos que mais geram empregos entre as atividades turísticas.
VENTOS
Além de assumir o título de Vale dos Ventos, no rastro da novela da Globo, Pipa vai ser também a vila dos festivais: de comida, literatura, bossa e jazz, como forma de fazê-la o maior balneário do Nordeste.
HISTÓRIA – I
Uma comissão do Instituto Histórico abriu as discussões técnicas com a UFRN para viabilizar ainda este ano a digitalização de A República, com mais de um século, e antes que os jornais se desfaçam.
POSSE – II
Ainda nem tomou posse – será sexta, dia 15, às 19h, no salão da Academia de Letras – o presidente Valério Mesquita já vem articulando parcerias para uma revisão completa da rede elétrica do Instituto.
POESIA
Na Capitania das Artes a estrela será o poeta Lirinha, convidado para falar da poesia, e no Bardallo’s, ali na Gonçalves Lêdo, tem recital com Antônio Naud e Civone Medeiros. Tudo isso amanhã, quinta.
HUMOR
De um deputado gaiato nos corredores da Assembleia olhando a foto do submarino Tapajó atracado ao cais do porto: ‘É feito para afundar, mas já apareceu mais do que as ações do governo em dois anos’.


