Das insondáveis sensações – Vicente Serejo

Por esses dias, Senhor Redator, e dado à mesmice das coisas, nem andava mais interessado em falar sobre pesquisas. Nesta…

Por esses dias, Senhor Redator, e dado à mesmice das coisas, nem andava mais interessado em falar sobre pesquisas. Nesta aldeia onde nossos feiticeiros batem tambores e soltam sinais de fumaça, já não há certeza com tantos mistérios. Claro que em alguns sempre irá acender aquela desconfiança de que vendedores e compradores pactuam a consagração do que uns vendem e outros compram. Quem há de saber das insondáveis sensações, se errar é humano, como um bálsamo a curar todas as mazelas?

Depois, os feiticeiros desta aldeia blindaram-se de bondades e ficou até arriscado o exercício da crítica. Aliás, talvez tenha morrido aqui, mais do que em qualquer outro lugar, a razão crítica que um dia fascinou a Immanuel Kant. Vivemos entre as meizinhas do agrado e do desagrado, e ai de quem criticar a um desses gênios enriquecidos na adivinhação, embora bem guarnecidos pelo método em nome da ciência e que esconde as unhas expostas quando escrevem números com a tinta da leniência.

Mas os parvos, Senhor Redator, ainda que pareçam ladinos no mais das vezes, esquecem aquilo que Hélio Schwartsman lembrou no seu artigo sobre as pesquisas eleitorais: ‘Há modelos para todos os gostos’. Ele cita a dúvida levantada por Andrew Gelman: ‘Se os votos são tão previsíveis, por que as pesquisas variam tanto?’. E acrescenta, numa tirada do mais absoluto e leve bom humor diante de tão misterioso ofício de adivinhar o futuro: ‘Como o marido traído, o eleitor é o último a saber seu voto’.

Ora, se os bruxos sabem que um grande contingente avalia os candidatos durante a campanha, e Gelman concorda, e se muitas vezes só decide bem próximo do dia e até da hora de votar, como saber com tanta antecedência? Schwartsman não defende que se revogue a pesquisa, hoje um dos negócios mais gordos do mercado eleitoral, mas é de bom alvitre mantê-la sob uma lente crítica. Para ele, as pesquisas servem muito mais aos interesses de financiadores, marqueteiros e mídia, do que ao eleitor.

Nesta aldeia, então, onde se vive a um passo da promiscuidade, tal a estranha força das relações e interesses pessoais, há uma jacente e subjacente tendência ao heroísmo a favor. Só Frei Miguelinho, de todos nós, honrou seus ideais diante da forca, como fizera seu líder na Revolução de 1817, Frei Caneca, arcabuzado sob as ordens de um capitão granadeiro porque os seus carrascos não aceitaram enforcá-lo. Morto, teve seu corpo frágil abandonado nas escadas do velho Convento dos Carmelitas.

O mais incrível Senhor Redator, é que o muro diante do qual Frei Caneca tombou a tiros de arcabuz, vizinho ao Forte das Cinco Pontas, no Recife antigo, continua de pé. Parece que lembrando aos pernambucanos que é preciso manter acesa a chama da liberdade. Já aqui, neste arraial, apertado nos estreitos desta bela enseada, entre o rio, o mar e os morros, não se pode sequer criticar essa gente ungida nos santos óleos do poder. Como se o silêncio transformasse tudo em verdades incontestáveis.

MOSSORÓ – I

Pesquisa Seta aponta liderança de Henrique em Mossoró e mostra, no momento, dois descolamentos: Henrique e Fátima, adversários, lideram as preferências mesmo com um número elevado de indecisos.

PODE… – II

Significar que o apoio do prefeito Francisco Júnior a Robinson Faria não é tão determinante assim e que o grupo de Rosalba Ciarlini pode ter sua influência na evidente liderança de Fátima sobre Wilma.

DÚVIDA – III

As maiorias de Henrique – 11% – e Fátima – 9,7% – tão próximas, não deixam de manifestar uma certa eloquência. Ou Mossoró livremente prefere Henrique, ou ele, Henrique, não é um alvo do rosalbismo.

TRADIÇÃO – IV

No voto proporcional – federais e estaduais – Mossoró cumpre a sua tradição e prefere mossoroenses. Sandra e sua filha Larissa lideram como as mais citadas num universo votante ainda muito indefinido.

ALIÁS -V

A ex-governadora Wilma de Faria experimenta uma liderança no quesito de rejeição que nunca foi comum na sua trajetória. Números da Seta apontam que o combate em Mossoró será pelo voto casado.

CRUELDADE – I

A cordialidade brasileira, aquela que praticou o genocídio na Guerra do Paraguai, também se ‘revelou’ na guerrilha no Vale da Ribeira, SP: nosso exército lançou bombas de Napalm. No Vietnã foi assim.

PROVA – II

Até hoje, segundo revelações feitas pela matéria na revista Carta Capital, os moradores do local ainda encontram na área as carcaças das bombas de Napalm. A ditadura queria dizimar o grupo de Lamarca.

ATENÇÃO

De Eliana Cantanhêde antevendo o cenário que se arma na luta da sucessão presidencial perguntando de Brasília num PS da coluna: ‘Nova disputa entre PT e PSDB: quem vai bater primeiro em Marina?’.

REAÇÃO

De uma dignidade rara a reação do professor Boris Vargaftig, da Universidade de Campinas: devolveu o título de Professor Honoris Causa já que a Unicamp manteve o mesmo título para Jarbas Passarinho.

RAZÃO

Tendo sido ministro da educação na ditadura, inclusive aplicado o 477 para cassar estudantes, Boris entendeu que Passarinho não pode ser causa honrosa. E devolveu o título como uma forma de protesto.

ESPECIAL

A revista Piauí lançou uma edição especial – rara no seu portfolio de quase cem números – com Arthur Ávila, carioca de 35, o brasileiro que recebeu a Medalha Fields, considerado o Nobel da Matemática.

DATAS

Em agosto de 1874, há 140 anos, nascia o governador Juvenal Lamartine de Faria. Também em agosto, há 120 anos, nascia a poetisa Palmyra Wanderley. E há 20, em 1994, o teatro perdia Jesiel Figueiredo.

PESQUISA

As especulações estão garantidas esta semana: quarta próxima sai a pesquisa Consul. No dia seguinte, quinta, os números do Ibope. São os primeiros em todo estado depois da propaganda eleitoral na tevê.

DEBATES

Quanto mais debate, melhor. Até para se conhecer o que pensam os candidatos. São treinados, se sabe, mas também é possível observar quem formula com segurança. O debate só democratiza a campanha.

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