Das multidões

Foi certamente com a tradução de Herrera Filho, revista por Carlos Burlamáqui Köpke para a terceira edição de A Rebelião…

Foi certamente com a tradução de Herrera Filho, revista por Carlos Burlamáqui Köpke para a terceira edição de A Rebelião das Massas, lançada no Brasil pela Ibero-Americano em 1971, que nós outros, deste país tropical, tomamos consciência do clássico de Ortega Y Gasset. O ensaio, escrito em 1926, retirava as massas do anonimato inerte e coletivo para fazê-las atuantes na vida social e política a partir dos países da Europa, e da sua velha Espanha que ele conhecia tão bem e tão intensamente.

A rigor, Ortega Y Gasset ensinava ao mundo uma lição simples: a sociedade é feita de minorias e maiorias. As minorias formadas por indivíduos qualificados, e a massa dos não qualificados que formam as multidões. Na massa, as pessoas não se diferenciam necessariamente uma das outras, mas são movidas pela ‘coincidência de desejos, idéias, do modo de ser dos indivíduos que a integram’. Talvez, e descontadas as novas aspirações quase um século depois, sua força esteja exatamente ai.

É verdade que naqueles anos a citação orteguiana que viajava de boca em boca era aquela que desenhava o homem e sua circunstância. Era comum encerrar qualquer discussão com esta lição, até para explicar ‘o eu e sua circunstância’, sob pena de não se ter uma visão completa do homem. E assim vivemos, sacudidos de vez em quando pelas multidões, esquecidos de que a rua é o espaço natural das insatisfações coletivas todas as vezes que a individualidade não abriga em suas casas a reação popular.

Ao projetar a Praça dos Três Poderes, em Brasília, Oscar Niemayer e Lúcio Costa certamente, e não por descuido, reservaram um imenso e eloquente vazio entre os três palácios, respeitando ali o espaço da multidão. A monumentalidade daquele vazio se completa e se ergue todas as vezes que a multidão ocupa a praça. Aquela mesma praça que é do povo como o céu é do condor, para lembrar os versos condoreiros de Castro Alves. É o espaço coletivo por excelência que mete medo aos poderosos.

A espetacularização que o marketing petista imaginou reger ao destinar recursos para construir mais de uma dezena de arenas esportivas, verdadeiras catedrais para a festa populista neste País do futebol, talvez tenha sido a dialética do infortúnio. O esbanjamento de recursos revelou às multidões de qualificados e desqualificados, a essa altura não importa, a revolta diante do discurso político de que não havia recursos para a saúde, segurança e a educação – diante de suas ricas e luxuosas arenas.

Talvez tenhamos construído os coliseus de pequenas ‘Romas’ hoje simbolizadas pelos estados e transformados em ilhas de prosperidade cercadas de pobreza por todos os lados. E ainda que se fale em legado, o que restou diante dos olhos da multidão foi o sentimento de revolta. As impurezas – vandalismo não nasce das lutas – em nada ferem a consciência coletiva. É como se fosse a clássica rebelião das massas, de Ortega Y Gasset. Cabe ao Estado interpretá-la sem fugir pela porta dos fundos.

 

JOGO – I

É intenso o jogo de remanejamentos do governo entre as rubricas do seu orçamento para o exercício de 2014. Segundo declarou o deputado Fernando Mineiro, em três meses já remanejou R$ 321 milhões.

DISSE – II

Ainda o deputado petista que nem sempre as informações são postas no Portal da Transparência com a clareza necessária para uma compreensão. O orçamento público foi sempre uma grande arma do poder.

AVISO

Já tem secretário municipal sob o olho perscrutador do prefeito Carlos Eduardo Alves. Ninguém, em princípio, está sob suspeita, nem ninguém está livre a qualquer momento de ser chamado à explicação.

CARDÁPIO

Alguns restaurantes da cidade estão planejando incluir pratos regionais nos seus cardápios durante os jogos da Copa. É que nem a carne de sol hoje consegue mais ter espaço na onda do afrancesamento.

BURACOS

Se os turistas da Copa só andarem na BR 101, Hermes da Fonseca e Salgado Filho vão sair da cidade com uma ótima impressão. Fora dessa retão a degradação das ruas bate todos os recordes de buracos.

EFEITO

O ritmo de edificação no Campus da UFRN já demostra os problemas de trânsito e estacionamento que poderá ter no futuro. Ou faz o plano de circulação ou deixa ao futuro sua péssima lição de urbanismo.

SE…

A comissão de investigação instalada na Câmara Municipal de Natal pelo menos desnudar qual é o papel dela mesma no jogo dos transportes urbanos já seria uma grande contribuição em favor do povo.

HUMOR – I

Deve ter sido por humor a proposta de fazer o desembarque do navio de turistas mexicanos para a copa a duas milhas da costa e trazê-los para o porto de Natal. Nos barcos bucólicos do Canto do Mangue?

PONTE – II

A ponte nasceu do tamanho da nossa medíocre visão do futuro: com quatro pistas e não com seis, como até chegou a ser anunciada, e abaixo da altura necessária aos novos transatlânticos e cargueiros.

CENA – I

É feio e tristemente espetaculoso o cenário político em Mossoró: candidatos condenados pela Justiça que negam ao eleitor mossoroense o último gesto de respeito que seria renunciar às suas candidaturas.

JÁ… – II

Não basta o que a classe política vem fazendo no Estado, onde quem é candidato lança um sobrinho, uma irmã, filha ou filho para os seus lugares, transformando seus mandatos em heranças de família?

LEGADO

Faz parte do tal legado da Copa esquecer Augusto Severo, confinando a nome de um aeroporto militar fechado ao uso público, e de João Machado, o desportista que teve o nome ‘demolido’ do Machadão?

PÁSCOA

Os alunos – crianças e adolescentes – do Complexo Educacional Contemporâneo numa campanha que é, no mínimo, original: eles arrecadam chocolates. Querem doar às instituições de caridade do Estado.

PRÊMIO

A equipe que registrar o maior número de chocolates arrecadados terá o direito de eleger, por escolha direta, a quem será feita a doação. A ideia é promover a páscoa de jovens e adultos carentes da cidade.

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