De boia-fria aos R$ 600 milhões: “Não tinha dinheiro para almoçar todos os dias”

Aparecido Viana, dono da Viana Negócios Imobiliários, trabalha desde os quatro anos e afirma que o sucesso como empresário está no carinho e na disponibilidade

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Se soubesse a importância que o curso de datilografia teria na sua vida, talvez a trajetória de Aparecido Viana, empresário do ramo imobiliário, não tivesse sido tão bem-sucedida.

Onde vivia, não havia uma só máquina de escrever no começo da década de 1960, mas a mãe de Viana queria porque queria que o menino aprendesse a datilografar. Até hoje ele agradece. “Minha mãe era pobre, não tinha ensino, mas era visionária”, lembra.

Para aprender datilografia, Viana ia todos os dias para Mirassol (SP), fosse pendurado no trem ou com alguma carona conquistada na beira da estrada. O destino era a cidade grande mais próxima à pequena Bálsamo, que tinha oito mil habitantes e 150 quilômetros quadrados. Experimente perguntar a Viana onde fica seu município de origem: “Bálsamo é a capital da grande Microrregião de São José do Rio Preto”, brinca.

Viana era o segundo de seis irmãos – eles e seus pais trabalhavam na roça. No interior de São Paulo, eram todos boias-frias. A nomenclatura não incomoda nada o empresário. “Trabalhamos em tudo que é lida que você possa imaginar, menos cana-de-açúcar. Subia no caminhão de madrugada e ia para a roça antes de amanhecer”, conta. Aos quatro anos já estava na labuta com a família. “Fazia as coisas que dava para criança fazer na lida, como limpar o pé de café ou levar o caldeirão para os pais e irmãos na lida na hora do almoço”, conta.

Aos 14 anos, a datilografia levou o empresário à São Caetano do Sul (Grande São Paulo), onde iniciou sua jornada na cidade grande. Começou numa metalúrgica e logo passou para o primeiro cartório de notas da cidade, onde começou a ter contato com o ramo imobiliário. “Não tinha dinheiro para almoçar todos os dias, então acabava ficando muitas horas lá no cartório, trabalhando e sempre disponível”, conta.

Esse, até hoje, é o segredo dos negócios de Viana. “Estar sempre disponível e atender com carinho é o que eu faço de melhor”, diz. Quando completou 18 anos, foi dispensado pelo cartório que se recusava a aumentar o seu salário. No mesmo dia, um dos donos da IAS Imobiliária foi buscá-lo em casa para começar no novo emprego.

Ao lado de Alarico Suhadolnik, teve sua primeira “grande experiência”. “Ele é meu chefe até hoje”, diz. “Ensinou sobre filosofia, deu conselhos. Até hoje sou muito grato a tudo que recebi de toda a família dele.”

A primeira fase na IAS durou dois anos. Depois de sete anos de intervalo, ele voltou para a imobiliária a convite do próprio Suhadolnik – e com salário quatro vezes maior. “Fiquei sete anos fora, mas nunca deixei de visitá-los e de procurar por eles”, lembra.

A pausa foi providencial. De volta à imobiliária – e já casado –, caiu no departamento de vendas por acaso. “Era só para eu aprender a mexer com os papeis”, conta. Mas em dez dias fechou dez contratos de venda. Bastaram três meses para que ele tivesse dinheiro suficiente para dar entrada na casa própria.

Foram sete anos “e uns quebrados” como corretor. Na década de 1980, nasceu a Aparecido Viana Imóveis. De lá para cá, Viana acumula histórias de todos os tipos: cômicas, tristes, bem-sucedidas e outras nem tanto. Já pensou até em escrever um livro, mas o projeto está em suspenso.

38 anos no mercado sem nenhum processo

A proximidade com o cliente e o atendimento cuidadoso são as qualidades das quais Viana se gaba sem nenhuma falsa modéstia. “Eu ia pessoalmente na casa dos meus clientes, conversava, perguntava da vida, ia no aniversário dos filhos e até em velório se fosse necessário”, conta. “Tem gente que há 38 anos só compra comigo. Você nunca pode esquecer quem está com você desde o começo.”

Um dos maiores orgulhos de Viana é estar há 38 anos no mercado imobiliário e nunca ter enfrentado nenhum processo. Pelo contrário, sua popularidade já cruzou as sete cidades do Grande ABC. “Para chegar até o fundo de um restaurante, é 30 ou 40 abraços por aqui”, brinca. “Esse carinho ninguém paga, não.”

No auge do mercado imobiliário, menos de dez anos atrás, a Viana Negócios Imobiliários chegou a ter 700 funcionários. Entre eles, seus filhos, nora e quem mais da família estivesse apto a assumir uma posição. “Eu queria ter eles por perto para poder descansar”, comenta o executivo.

De fato, ele descansa. Passeia a cavalo, curte a lua cheia, viaja para o interior e não dispensa suas partidas de frescobol. “Continuo desafiando todo mundo no frescobol. Estou com 65, mas ainda estou bem espírito de porco”, ri.

Em 2013, a empresa faturou cerca de R$ 600 milhões. “Já tive proposta para vender minha empresa, mas nunca quis.”Com grande atuação no Grande ABC, a empresa já trabalha em outras regiões do interior de São Paulo e Viana acumula histórias.

Do passado, ficaram lembranças e lições

De Bálsamo, Viana ainda tem as memórias e o sotaque típico do interior, nada mais. Não sobraram parentes na região – os irmãos que ainda estão vivos também foram para a cidade grande. O mais velho chegou a trabalhar com o empresário, mas hoje, aos 77 anos, está aposentado. “Acho que me sobressaí porque eu gostava muito de estudar”, diz.

Quando vai para a região, geralmente fica em Tanabi, com os filhos de seus contemporâneos. “Quem tem a minha idade não tem meu pique”, comenta com o bom humor característico. A cada visita, dezenas de pessoas dão uma passada para cumprimentar o executivo.

Nunca esperou ver nos filhos a energia que tinha na juventude. “São outras situações. Eu precisava trabalhar porque tinha de comer. Se não tivesse serviço, não tinha nem uma bala para por na boca”, diz. “Sempre sonhei em crescer, mas não mirava nada. Eu sabia que ia vencer e quando pensava no futuro, só vinha coisa boa.”

A única coisa que sempre imaginou foi a cidade grande. “Eu sempre imaginei muito como era São Paulo e quando conheci a cidade fiquei espantado, porque era tudinho que eu tinha na cabeça”, lembra. “Quando era criança, a gente morava em um sítio, entre duas cidades. Eu ia para cidade uma vez por ano, comprava uma botina e chegava em casa com o pé cheio de bolhas.”

 

Fonte: iG

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