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De volta para casa

Data: 01 março 2013 - Hora: 14:40 - Por: Conrado Carlos

Foi o que aconteceu com a turma do vocalista e guitarrista Alvin Lee. Convidados pelo famoso empresário Bill Graham, eles estouraram no Fillmore West, casa onde pisava boa parte da elite do High Ashbury – sobretudo Jefferson Airplane e Greateful Dead. O sucesso em território americano conduziu os ingleses em direção a o maior festival de rock feito até aquele momento: Woodstock.
É com esse currículo que, em 1983, o próprio Lee, mais Leo Lyons (baixo), Chick Churchill (teclado) e Ric Lee (bateria), integrantes originais do Ten Years After, voltaram ao Marquee para gravar sua parte em uma série de shows comemorativos dos 25º do clube. O material com a apresentação chega às lojas brasileiras através da ST2 Music no DVD “Live From Marquee Club, London”.

Para fãs de blues-rock, é item obrigatório. Logo na aberta, um dos clássicos do TYA, “Love Like a Man”, com seu riff conhecido até em Nova Papua Guiné, mostra o virtuosismo de Lee e Lyons – as evoluções da guitarra com a linha melódica do baixo formam pacote coeso e instigante. Outros temas conhecidos, como “Help me”, “I’m going home” (um dos hinos de Woodstock), compõem o número que ainda inclui Standards – casos de “Blues suede shoes” e “Hound Dog”.

Como todo bom grupo do gênero, o fator instrumental tem relevo, como se as faixas fossem verdadeiras jams que os quatro improvisavam ao vivo. A simplicidade dos extras e da produção do show de 30 anos atrás não diminui o valor histórico e estético da banda que um dia teve o Black Sabbath como abertura e discípulos.

Se muitos, hoje, consideram um item arqueológico, o som do Ten Years After que, pelo nome, pressupõe um olhar à frente, uma banda moderna para seu tempo, merece atenção redobrada de quem gosta do bom e velho rock and roll, pelo menos como descoberta da essência da sonoridade de medalhões surgidos nos anos posteriores – vide Zeppelin e AC/DC.

 

Com a boca no mundo

O livro de Philip Norman sobre Mick Jagger entrou em minha fila de leituras em novembro passado. Pelo tamanho (600 páginas) e saturação do tema que, por causa do cinquentenário nos Rolling Stones, foi comemorado em 2012 com diversos livros, discos e DVDs, me senti obrigado a um fazer quase um mestrado sobre a banda, para dar conta de tanto produto alusivo.

Por isso, tratei a biografia do vocalista dos lábios indecentes com desdém. Atuou também certa fidelidade para com “Vida”, a autobiografia de Keith Richards que pode ser apontada com uma das melhores narrativas de um pop star – mesmo com a suspeita de o texto ser cheio de firulas e mentiras.

Então, comecei aos poucos. Cruzei dezembro e janeiro relendo e descobrindo histórias sobre parte significativa do rock and roll – aliás, fica a dica: não tenha pressa em ser um dos primeiros a ler um livro badalado. Se ficar animado com uma crítica, anote título e autor e compre um, dois meses depois. Antes, colha opiniões de amigos, resenhas de comentaristas que admira e veja o que a galera comenta nas redes sociais. Com tanto produto no mercado, e o tempo escasso para o lazer cotidiano, convém economizar bala mirando bem no alvo; evito o procedimento apenas em relação aos romances, categoria mais afeita a impressões variadas.

Quando percebi, “Mick Jagger”, de Philip Norman, fazia parte de minha rotina, como uma busca incessante por satisfação. E que satisfação! Pois além de fazer um apanhado sobre o período áureo dos Stones (1967-1978), com uma nova audição de “Beggars Banquet”, “Let It Bleed”, “Sticky Fingers”, “Exile on Main Street”, “Goats Head Soap”, “It´s Only Rock and Roll”, “Black and Blue”, “Some Girls” – se algum passou batido em sua discoteca, compre urgente; perfiz as décadas de maior criatividade da música feita para os jovens.

Desde o encontro com Keith na estação de trem em Dartford, aos 8 anos, até a separação de Jerry Hall, após a gravidez de Luciana Gimenez, em 1998, a vida do homem que simboliza o talento, a esperteza e a luxúria em meio ao caos dos 60s e 70s é esmiuçada por Norman, também autor de uma premiada biografia de John Lennon. Foi em uma escadaria dos fundos de um cinema londrino que biógrafo e biografado se encontraram pela primeira vez. Daí em diante, discos multiplatinados, shows antológicos, brigas internas, mulheres de todas as cores, drogas de todos os sabores moldaram a carreira da maior banda de rock que o planeta já viu. E Jagger, indiscutivelmente, foi o líder da trupe.

Entendo os Rolling Stones como maiores que os Beatles, no panteão do rock. Eles não sucumbiram a (1) uma japonesa mal humorada, (2) ao estrelismo dos dois principais integrantes, (3) a obrigação de excursionar mundo afora. Pelo contrário.

A Longevidade dos britânicos mais sujos e depravados, os riffs inconfundíveis, as mulheres, a morte do primeiro líder Brian Jones, o casamento de Keith com a heroína e outros psicotrópicos, e alguns hinos para a geração Baby Boomers transformaram a brincadeira de imitar blueseiros norte-americanos em uma fábrica de dinheiro – os Fab Four aguentaram apenas três anos de apresentações ao vivo, com a Beatlemania já proclamada.

Mick esnobou Philip Norman e não autorizou a biografia. Abusou da ‘Tirania do Cool’, expressão criada pelo autor para a estratégia de Jagger em dizer que não lembra de fatos desagradáveis e de não sucumbir na pose, se confrontado com traições ou desilusões amorosas – a formula encontrada para garantir a união foi um pegar a mulher do outro, sem maiores traumas.

Se a essência da música pop não mudou (linguagem calcada no amor, no desejo e na perda), Jagger é ícone eterno por ser um dos responsáveis pela popularização da picardia, da sexualidade transviada na indústria cultural, e manter o interesse do público em alta até hoje. O catatau de Norman vale por cada página cobrada, como puro entretenimento e auxílio na compreensão do fenômeno rock and roll.

Tempo de Ozzy

Dois anos após sair do Black Sabbath, Ozzy Osbourne lançou seu primeiro disco solo. Com verdadeiros Standards do heavy metal, “Blizzard of Ozz” (1980) mostrou que o maluco de Aston, Inglaterra, tinha lenha para queimar sem a companhia dos incendiários Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward.

Músicas como “I Don’t Know”, “Mr. Crowley”, “Crazy Train” e a polêmica “Suicide Solution” (teria sido usada por um jovem como influência para cometer suicídio), rapidamente ganharam as vitrolas dos cabeludos naquele começo dos anos oitenta.

Ozzy mudou-se para os Estados Unidos e incorporou em sua banda um dos deuses da guitarra: o baixinho Randy Rhoads. Dono de técnica e carisma sui generis, desde os tempos do Quiet Riot, ainda no começo dos 70s, ele virou um irmão mais novo.

A parceria produziu dois discos: a supracitada estreia e outro clássico, “Diary of the Madman” (1981). Mas a tragédia fulminou o que pintava como a perfeição: aos 25 anos, Randy morreu em um acidente aéreo e deixou fãs estarrecidos.

O DVD “Speak of the Devil” mostra o momento seguinte à fatalidade, com o substituto Brad Gills segurando a barra em meio à tristeza que abateu a banda durante a turnê. Gravado em 1982 em Irvine Meadows, Califórnia, o show revela um Ozzy no auge, desenvolto e com a voz firme – ainda que ele ingerisse toneladas de alucinógenos.

Se no álbum de mesmo título, lançado à época, covers do Sabbath serviram de homenagem póstuma à Randy, neste DVD, o foco está nos dois trabalhos da dupla. São 78min de catarse e superprodução para a então incipiente onda nas grandes arenas.

Desde a abertura com “Over the montain”, até “Believer” e “Flying High Again”, fica a sensação de que Randy, com seus riffs antológicos, está no palco. Gillis mantém o alto nível, o que pode ser conferido na faixa instrumental em que divide com o ótimo baterista Tommy Aldridge.

Sem extras, mas com emoção de sobra, “Speak of the Devil” demorou trinta anos para ser remasterizado e, finalmente, lançado.  Fãs do Príncipe das Trevas, agora, não têm do que reclamar. É abrir a cerveja e bater cabeça na sala de casa até o Paracetamol ser inevitável.

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