Decapitações ocorridas no presídio de Pedrinhas deixam legião de órfãos

São vítimas da rebelião de outubro em um dos presídios de Pedrinhas, maior complexo penitenciário local, pivô da crise de segurança da gestão Roseana Sarney (PMDB

Fábio Henrique, 11, cujo pai morreu em Pedrinhas. Foto:Divulgação
Fábio Henrique, 11, cujo pai morreu em Pedrinhas. Foto:Divulgação

Fábio Henrique acabava de voltar de uma pelada de rua. Calçava chinelos com o símbolo do São Paulo. No peito, o brasão do Barcelona. Fã de Luis Fabiano e Messi, o garoto de 11 anos vive longe da sede dos times que admira. É maranhense, de São Luís.

Ao entrar em casa com um sorriso no rosto, encontrou a avó falando com a reportagem.

O sorriso desaparece ao ouvir o assunto. Fábio fica quieto, apoiado aos pés de Maria do Socorro Silva Lima, 57.

O menino sai da sala e volta com um jornal. Aponta a foto do pai, Fábio como ele.

O registro mostra o pai, Fábio Silva Lima, 30, e outros nove cadáveres, com perfurações de facas e tiros.

São vítimas da rebelião de outubro em um dos presídios de Pedrinhas, maior complexo penitenciário local, pivô da crise de segurança da gestão Roseana Sarney (PMDB).

A avó de Fábio detalha a morte do filho, condenado por homicídio, e as condições insalubres em Pedrinhas.

“Eles não têm como trabalhar. Passam o dia amontoados naquela quentura”. Evangélica, sentencia: “Ali é a casa do demônio”.

Maria do Socorro se emociona ao lembrar de um sinal: um dia, um ex-detento lhe disse para orar para Fábio “sair com vida” de Pedrinhas. Um mês depois veio a notícia.

Fábio Henrique diz ter ouvido que o pai foi morto a tiros, provavelmente por policiais. Conta sobre o último encontro dos dois, em uma visita a Pedrinhas em junho. Era aniversário do garoto. O pai conseguiu um refrigerante e o filho levou o bolo.

O menino quer desanuviar a tristeza. Conta do reggae que ouvia em casa com o pai e das tatuagens que ele ostentava. “Meu pai tem meu nome tatuado”, diz ele, com a flexão verbal no presente.

O sorriso volta.

PELA TV

Da janela de casa, Vitória, 13, lembra do pai varrendo a frente do imóvel e da oficina mecânica em que trabalhava.

O mecânico Elson de Jesus Pereira, 44, ficou 12 dias preso em Pedrinhas. O crime: receptar quatro pneus. No dia 1º de outubro, um dia após o seu aniversário, morreu decapitado durante rebelião.

Diante da notícia das decapitações, a mulher de Elson, Tereza Furtado, 45, correu para o computador e procurou informações. “Se não está o nome dele, é porque não é ele”, disse Marcelo, 15, filho do meio. No dia seguinte, Vitória viu a foto no pai na TV.

Os três filhos repetem o sonho que o pai tinha para eles. Do mais velho, carreira no Exército; da garota, que se tornasse “doutora”. De Marcelo, o do meio, advogado.

Tyelle Safira não conhecerá o pai. Taiane Gaspar, 20, está no sétimo mês de gestação. Detido em Pedrinhas, o pai, Sidnei Pinheiro Martins, 19, foi morto a facadas dia 2.

Estava havia sete meses no CDP, acusado de ter matado um policial em um assalto. A mulher reconhece que ele participou do roubo, mas atribui a morte a comparsas.

O casal havia abandonado a escola. Taiane foi até a oitava série. Abandonou os estudos após engravidar, por não ter quem cuidar da primeira filha, de dois anos.

Sidnei deixou o interior para morar com a mãe em São Luís. Estudou até o primeiro ano do ensino médio. Fazia bicos como ajudante de pedreiro e havia se alistado no Exército. Não queria que Taiane voltasse a estudar.

Viúva e com duas crianças, ela ainda mantém o olhar perdido, para o chão.

Fonte:FSP

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