Declaração de penhores

Sou animal nativo de uma outra floresta, Senhor Redator, que não existe mais. Talvez daqueles verdes manguezais, lá longe, depois…

Sou animal nativo de uma outra floresta, Senhor Redator, que não existe mais. Talvez daqueles verdes manguezais, lá longe, depois do lamarão, onde pousavam as garças brancas ainda no tempo da infância nas magias do nunca mais. Não sou deste mundo moderno, do facebook e instagram, agora que a vida deixou a casa e foi viver na rua, mesmo sem precisar sair do quarto. Sem o lirismo daquela lua do poema de Cecília Meireles. De tudo, ficou este homem, feio e mal vestido, como dizem no jet.

E se ter ficado assim foi não ter sido vários e, sobretudo, não ter tido tudo, não sei. O que restou deu para o gasto que é pequeno e para os sonhos que são poucos. Fui construtor paciente dos meus próprios castelos de areia e por precaução neles não plantei devaneios. Seriam justos, se livres nos vastos campos desta alma vadia, mas veio o mau destino, como no verso de Manuel Bandeira, e fez de mim o que quis. Fiquei. E, ficando, como nos ofícios cartoriais, acabei feliz da felicidade possível.

Não é muito, devo reconhecer, mas se tivesse sido, quem sabe a alma teria dobrado os encantos num galope à beira-mar. Foi bom, pois, ter sido assim. Não sei se os encantos, da carne e do ouro, não teriam vencido as minhas sentinelas. O coração é fraco, Senhor Redator, e tem um medo que não sabe vencer. Como disse um dia, não precisei reforçar a guarda e a ninguém concedi o prazer de queimar os navios que nunca tive. Naveguei livre, com a alma corsária, entre goles de rum e sem medo do mar.

Das travessias, confesso, trouxe nos olhos ouro, incenso e mirra, como se fossem presentes de um rei muito amigo que eu mesmo inventei para não voltar de mãos vazias. E tudo sem qualquer valor, a não ser o êxtase das descobertas, o inesperado sonho de chegar e o estranho desejo de ficar. E, no entanto, em cada lugar, para descansar das travessias, deixei um pouco de mim. Como se olhasse tudo e fosse, ao mesmo tempo, a grande alegria da primeira vez e aquela tristeza sem fim do último olhar.

A minha fortuna, Senhor Redator, é carregar comigo um pouco das águas do meu mar antigo misturadas aos mares por onde andei, como um marinheiro cheio de encantamento. Um dia, exausto da subida, descansei recostado aos paredões da velha abadia do Mont S. Michel, no seu ponto mais elevado. Era uma noite de verão na Normandia. No salão mais alto, uma sala e sobre uma mesa grande e vazia, cercada por 12 cadeiras, um pão. Como se fosse Deus no silêncio da grande solidão monástica.

Hoje, como um navio sem mar, gosto do porto e de sua paz de pedra.

Das ostras que os anos fizeram nascer no casco, e dos ventos adejando a bandeira rota das travessias. Viver é colecionar amores e rancores, posto que na vida os santos não nascem de demônios, mas apenas homens, feitos da miséria e da fortuna humanas. Mas é bom ser um homem comum. Já sem ter nos ombros os deveres do futuro. E livre dessa terrível obrigação de ser vitorioso todo dia ainda que nunca tenha sido tanto…

 

AVIÃO
A investigação do uso abusivo do avião da Força Aérea Brasileira pelo deputado Henrique Alves para assistir a um jogo de futebol nada encontrou e já arquivou o processo. Era melhor não ter investigado.

ONDA
Com duas decisões a Justiça Eleitoral, num verdadeiro tsunami, devastou a tradição da luta política em Mossoró que foi sempre muito radical, mas sem escândalo. Era melhor ter dado o dinheiro a Lampião.

AVISO
O empresário Fernando Bezerra não ensarilhou as armas, mesmo mantendo seu silêncio em torno de sua possível candidatura ao governo. Não fala, mas não deixou de ouvir. E tem conversado todo dia.

JOGO – I
Tem procurador municipal temendo que o MP peça informações sobre o cálculo dos seus salários. Se fica de fora a gratificação de sucumbência ou se faz parte da remuneração para o efeito de teto salarial.

ALIÁS – II
O cálculo pode revelar se os procuradores aplicam a eles e aos outros os critérios da lei ou se vale só para os amigos do rei. Se há discriminação, a Procuradoria fica desqualificada para discutir legalidade.

DESIGUAL
Nem os magistrados se entendem. Os da ativa receberam o paletó de uma vez e à vista; os inativos de todos os tribunais e do legislativo reclamam da suspenção que sofreram e da orfandade em que vivem.

LUXO
É o tema da revista Continente de dezembro. Uma reportagem revela como é o desejo de ostentação na sociedade de consumo. E a matéria sobre a arte injustamente esquecida do grande Augusto Rodrigues.

VIAGEM
Quem segue para Cartagena das Índias, na Colômbia, é Elenir Varela. Deixa por alguns dias sua Gávea e vai olhar a cidade antiga e moderna, da secular presença espanhola aos dias deste século vinte e um.

TOCA
Márcia Carrilho fez uma mesa bonita no casarão alpendrado da Toca do Miga, às margens da Lagoa de Extremoz, para receber os amigos Manoel Onofre Neto e Habib Chalita. Saudados com goles de vinho.

CRISE – I
Cassiano Arruda circula na cidade com um adesivo no carro, em inglês, que é o protesto e também um alerta contra o empobrecimento do mercado de trabalho para a remuneração do trabalho jornalístico.

ASSIM – II
Em inglês, num bate-pronto, a frase é: ‘We will Write for food’. Em bom português, numa tradução livre e fiel à idéia de quem escreveu seria: ‘Ainda vamos escrever por um prato de comida’. E vamos.

LEITURA
Não deixem de fazer a leitura do artigo do padre jesuíta Agustin Calatayud Salom nas páginas deste bravo JH. Não é só saudação ao Papa Francisco, mas lição sobre seu papado revolucionário na Igreja.

POSTAL
Os médicos Genibaldo Barros, Ernani Rosado e Ivis Bezerra fizeram passeio de barco no Potengi. Na chegada, como no tempo do cais da Tavares de Lyra, foram recebidos com o aceno de lenços brancos.

POESIA
De um poema de Ana Cristina Cesar, enquanto dezembro corre, dia a dia, como um rio manso, e vai para lugar nenhum, levando lentamente as águas da vida que passou: ‘A fotografia é um tempo morto’.

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