Deixar uma criança ouvir Top Hits é desejar todo o mal para o futuro

Dessa forma, então, que liberem clássicos da Buttman no maternal

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Sigo a afirmação que diz ser a música a arte mais invasiva e acessível. É inevitável ser sequestrado por qualquer subgênero massificado, sem direito à apelação. Por outro lado, pode ser fruída por proprietários de senso estético e cultura geral primários – ao contrário da pintura, da escultura e da literatura. E é aí que acontecem algumas desgraças, se pensarmos que, mesmo com a incapacidade congênita das artes de se adequarem aos novos tempos, ainda são um importante canal de transmissão de valores.

Na cabeça de uma criança, a sensualidade arterial que pulsa nos artistas, não existe. A mão no joelho e a abaixadinha divertem papai e mamãe. Acredito que hímens e reputações perdidas precocemente são aditivadas pelo lixo do Top Hits. “Aproveita que hoje eu tô querendo, vem!”, diz Anitta, em “Não para”. Muita menina reproduz a letra e coreografia, com direito a encaixe profundo do quadril na hora do “Vem!”. Se isso não influencia de forma negativa, que liberem clássicos da Buttman no maternal.

Os pais incentivam o desvio infantojuvenil, mesmo cientes que tem algo de esquisito em ver graça no contraste entre a inocência da criança e o sexo explicitado nas letras. “Besteira!”. Faça um teste. Acesse os sites das rádios populares de Natal e ouçam o Top 10. Depois pense que aquilo é a trilha da periferia da cidade, onde quase tudo é endêmico. Mais o crack e a ausência do Estado, é ou não é uma panela de pressão prestes a arrebentar? Talvez a degradação moral alardeada por religiosos faça mais sentido após a experiência.

“Não tem o que fazer, todo mundo gosta”, defendem-se os incautos. Na era dos tablets e smartphones, então, “ficou impossível”. Pode ser. Como também pode ser que se ausentar da educação dos filhos crie anomalias irreversíveis. O velho Nietzsche cravou em Humano, Demasiado Humano (1878) que “as dissonâncias não resolvidas na relação entre caráter e a atitude dos pais ressoam na natureza da criança e constituem a história íntima de seus sofrimentos”. Chega dói, né? Pois é isso mesmo. Uma transmissão de neuras.

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