Descoberta – Rubens Lemos

A data oficial foi ontem, domingo. A conquista é eterna. A primeira Copa do Mundo do Brasil decretou o fim…

A data oficial foi ontem, domingo. A conquista é eterna. A primeira Copa do Mundo do Brasil decretou o fim do subalterno padrão do escrete massacrado pela derrota funeral de 1950 no Maracanã e a covarde eliminação para os magiares húngares em 1954, quando entrou em Berna (Suíça), com um 3×0 moral para reverter.

1958 foi o ano em que o mundo descobriu o Brasil – título de precioso documentário – e ficou boquiaberto. Não eram eles os acrobatas inúteis e fracos na hora de decidir. A importância emocional do cronista Nelson Rodrigues está em seus textos de patriotada. Com a diferença: Nelson Rodrigues, gênio, não bravateava tal os tresloucados de hoje. Proclamava a nova ordem futebolística. Nunca antes se formara um escrete tão virtuoso e imperial.

A figura central, esguia e majestosa de Didi, pai dos meia-armadores extintos pelos canalhas fantasiados de retranca, conduzia o país inteiro a milhas de distância em torno de um time. Que começou vencendo e jogando mal contra a Áustria, mesmo que por 3×0, viu tocar o alerta do perigo no empate em 0x0 contra os ingleses.

O Brasil torna-se Brasil dos campinhos, das calçadas, dos rachas de corredor de colégio e de beira de praia, a partir de Pelé e Garrincha, esfuziantes assombrações que passaram a destruir um a um seus adversários. Começando pela temida União Soviética, corada de vergonha pelos dribles de Garrincha, o veneno de Didi, o choque causado pelo menino Pelé, leitor de Mandrake e autor precoce de obras literárias em chuteiras.

Vavá, o artilheiro, o Peito de Aço ou Leão da Copa, a quem a história deve mais justiça e generosidade. Vavá é bicampeão mundial e o tratam como se fosse um Vampeta de 2002. Sem fleumas técnicas, Vavá foi um dos maiores artilheiros desde que a bola é bola.

O Brasil queimou a coleira no vira-latas refletido no espelho, bateu País de Gales, França na verdadeira final e a Suécia no Rasunda Solna. Estádio destruído e povoado pelas almas invisíveis da epopeia. O Brasil ensinava que arte é meio caminho (e meio) para a glória. Depois, quando Pelé parou, trataram de borrar de covardia a cultura de felicidade fugaz com Telê Santana.

No dia 29 de junho de 1958, o Brasil venceu a Suécia por 5×2 com Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Enciclopédia Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Dois gols de Pelé, dois gols de Vavá e um de Zagallo. O Brasil combinava com o país em alegria. O país do seu maior presidente: Juscelino Kubitscheck. Uma seleção bem JK.

Eles choram por nós

Transcorridas as 48 horas do fim do flagrante passional, nada surpreende, em exame imparcial, na classificação melodramática do Brasil contra o Chile. Todo time espelha seu técnico e o país varonil, dos muito vivos aos sepultados sob sete palmos de terra, sabia que seria assim.

Felipão é coerente aos seus princípios de retranca. O Brasil tomou um olé chileno. Chegou aos píncaros do ridículo, acuado, amarelo de palidez e pavor, desarticulado e vexatório em nulidades estampadas nos atacantes Fred e Jô.

Fisicamente, Fred está a cara de Coalhada, personagem de Chico Anysio. Coalhada jogava mais. Jô me faz pedir perdão público a Serginho Chulapa, o tosco de 1982 e Di Stéfano comparado ao mamulengo de patinetes imaginários nos pés. Correu, caiu.

O Brasil empatou pela segunda vez quando mereceu perder na bola rolando. Fomos uma espécie de Venezuela eliminando uma Alemanha em duelo hipotético. Júlio César salvou a seleção no jogo, numa defesa monstrenga na grande área. Nos pênaltis, foi “Travarel”. A vantagem dos guapos é nos poupar. Eles choram por nós.

PS. Caso o Brasil passe pela Colômbia, seu adversário sairá do confronto entre os vencedores da rodada de hoje. A Alemanha jogou antes contra a Argélia, depois da coluna fechada. A França pega a Nigéria e é carrasco dos mais animalescos da seleção brasileira. Ia esquecendo: time bom não precisa reclamar de arbitragem.

Holanda letal

Despachos de macumba foram desfeitos e secadores desligados em apenas seis minutos. A legião dos obtusos cruzando dedos para ver a Holanda eliminada pelo México. Para gritar que não adianta ser bom e perder. Não deu. Não desta vez. Robben quebra qualquer mandinga.

Oitavas

Todas as meninas nascidas no México poderiam se chamar Oitavas. É o limite psicológico de uma seleção insegura e descontrolada. Ainda mais, treinada por um sujeito medroso e medíocre. Agiu como treinadores que andaram pelo ABC em tempos recentes. Roberto Fernandes e Zé Teodoro não estão entre eles. México faz mesmo é novela. Da pior qualidade.

Bom argumento

Recebo e-mail bem articulado do presidente em exercício do ABC, José Wilson Gomes Neto. Ele acha justa a punição aplicada ao uruguaio Luís Suárez pela mordida no italiano. Discordo. Ocorre que o argumento inteligente enriquece o debate.

Caso da Fogueteira

José Wilson cita Brasil x Chile nas Eliminatórias de 1989, quando uma mulher lançou um sinalizador no gramado do Maracanã. O Chile aproveitou para encenar uma farsa, simulando ferimento no goleiro Rojas.

José Wilson

Aí José Wilson escreveu: “Caro Rubinho: Acabo de ler seus comentários sobre o caso da mordida de Soares e sua consequente punição pela Fifa. Pelo que entendi você também teria achado muito pesada a punição aplicada, apesar dos antecedentes do atleta no mesmo sentido, inclusive com punições pesadas.”

Rojas

Ele acentua: “Agora, o que não vejo ninguem se lembrar é do caso de Rojas, goleiro do Chile e do São Paulo, que em uma partida eliminatória de Copa do Mundo, simulou que teria sido atingido por um rojão jogado das arquibancadas do Maracanã e cortado o supercílio. Lembra-se? Sua intenção era prejudicar a classificação do Brasil, favorecendo o Chile.”

Eliminação

Diz mais José Wilson: “Depois que tudo foi descoberto, a Fifa simplesmente eliminou do futebol o atleta Rojas, um dos melhores goleiros da época. Na minha opinião era o que deveria ter ocorrido com esse caso, principalmente por não ser Suarez primário nesse tipo de atitude anti-desportiva e moralmente condenável sob todos os aspectos. Desculpe a intromissão no seu comentário, sempre tão apropriado e lógico.” Intromissão nenhuma. Aqui, o Passe é Livre para os bons.

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