Desperdício

Desperdiçados economistas, empresários, industriais, jornalistas, médicos e advogados habitam os gramados brasileiros. Dê uma olhadinha em qualquer time posado antes…

Desperdiçados economistas, empresários, industriais, jornalistas, médicos e advogados habitam os gramados brasileiros. Dê uma olhadinha em qualquer time posado antes de um jogo para o que chamávamos de pôster ou perfilado na hora do Hino Nacional.

Tire 10% e você verá uma tropa de elite. De elite de engomadinhos, de gente nascida e criada sem o doce veneno malicioso que compôs em tempos áureos o perfil afro-sambista dos craques verdadeiros.

Quando vejo uma reportagem mostrando treino de criança em escolinha de futebol me lembro dos escoteiros, briosos e sempre alertas, de fardinha azul e voluntários da bondade. Os moleques são disciplinados, obedientes e dispostos a ajudar ao próximo. Só não jogam absolutamente nada.

São meninos bem penteados, gordinhos, de material impecável e caro maltratando a bola sob orientação de um antigo perna de pau ou de um fisiculturista, defensor dos gladiadores de chuteiras.

O resultado sai para os juvenis e dos juvenis para os juniores. De lá para os profissionais. Juvenil agora é sub-17, Junior é sub-20 e profissional é sub-futebol. Baixo nível técnico e rúgbi disputado por pés animalescos.

Escantearam negros e mulatos hábeis criados pela natureza, também criadora da mulher, única invenção capaz de superar o futebol. Do que relembro sem me preocupar em ser repetitivo porque é agradável recordar o doce e terrível ver a insistência no azedo das peladas em todas as séries e campeonatos.

Recordo dribles, lançamentos, tabelinhas e gols trabalhados na astúcia e na inteligência dos escolhidos para fazer arte em campo e excluídos pela pobreza familiar. Escolinha de futebol hoje é paga e filho de pobre não tem dinheiro para o que agora se transformou em supérfluo. O principal é garantir a comida no prato humilde.

Um pai conformado e escolado, criado e aprimorado em peladas de rua, em jogos escolares, me contou maravilhado de um jogo do time do seu filho, goleiro, contra um time de subúrbio.

Liberta, sem amarras e esquemas táticos que nenhum inocente assimila, a turma de vestimenta modesta e capacidade sanguínea, a turma do bairro distante, deu um olé no sub alguma coisa de um clube tradicional.

O pai registrou, encantado, o show de um baixinho de seus 10, 11 anos de idade, a fintar galalaus parecidos com jogadores de basquete, enfiar bolas dentro das pernas longas e desengonçadas, a tocar com sutileza ameaçando bater, fazendo o goleiro cair e então, faceiro, jogar a bola nas redes. O menino anônimo já está batizado de Romário Potiguar.

>>> <<<

Eis a diferença crucial. O nanico virtuoso estava fazendo aquilo para o qual saiu do berçário destinado a cumprir: jogar futebol com beleza e deboche.

É a vocação dele, é o atributo que veio desde a primeira mamada que deu, fominha, no peito da mãe em alguma casa de parto pública e deficiente da cidade. Berrou pedindo uma bola dente de leite, de borracha e fez embaixadinhas.

Jogava como um homem diante de teimosos estimulados por familiares que insistem em enxergar talento em quem não tem, submetendo os pequenos ao ridículo quando encaram os boleiros carimbados, no andar matreiro, no grudar à bola, na boçalidade típica.

É aconselhável aos teimosos, assistir ao Filme Boleiros, o primeiro, de Ugo Giorgetti. É um primor. A sequência nem é tão boa, o original é delicioso e triste, porque alguns protagonistas estão mortos, como o inigualável Rogério Cardoso, o Rolando Lero da Escolinha do Professor Raimundo, de Chico Anysio, e um ator desconhecido do grande público e brilhante na mais atual de todas as histórias contadas na mesa de um bar.

Isolado e deprimido, Adriano Stuart foi encontrado morto em sua casa dois anos atrás. Em Boleiros, faz o papel de um velho craque sobrevivendo como técnico de escolinha de campo de grama sintética, maltratado pelos bagulhinhos infantis bem arrumados, de colete e péssimos jogando.

O papel de Stuart é uma clara homenagem ao volante Roberto Dias, um dos melhores jogadores da história do São Paulo, herói dos tristes anos de construção do Estádio do Morumbi, quando o dinheiro era aplicado na obra e o time apanhava de goleada do Santos de Pelé e do Palmeiras de Ademir da Guia. Roberto Dias marcava os dois – muito bem – vestindo a camisa da seleção em meados da década de 1960.

No papel de professor do que não pode ser ensinado, Stuart aguenta mães insuportáveis querendo impor escalação dos filhos e descobre um marginal mirim cheio de estilo, que aparece de vez em quando e humilha todos os donzelos. O menino faz parte de uma gangue e desaparece, levando o que havia de futebol.

Na história do Brasil em campo, seria delírio imaginar Garrincha ou Gerson participando de mestrado em Direito ou MBA em gestão pública. O craque sempre deixou o luxo livre para os prósperos gênios e tecnocratas. Eles é que invadiram, ocupando, pela grana, a grama dos seus legítimos donos.

Errou demais

O América abusou e por muito pouco não jogou fora uma classificação certa. Perdeu gols fáceis e tomou dois mais ainda.

ABC

Prematuro fazer qualquer prognóstico sobre o ABC esta noite. O time é imprevisível. A diferença é a obrigação de não jogar pelo 0×0. Se pudesse, jogaria.

Lino

A volta do zagueiro Lino, que jogou pelo ABC no ano passado, é a novidade do Atlético (GO) para o jogo da volta em casa. O seu perigo é o atacante Júnior Viçosa.

João Paulo

O atacante João Paulo de volta ao ABC na Série B seria uma boa. Talento comprovado. Desde que possa jogar e não ficar hospedado no Departamento Médico. João Paulo é bom caráter e não aceitaria fazer marketing enganoso.

Proteção a Jô

Com a presença de Alan Kardec na lista de espera dos convocados para a Copa do Mundo, oremos pelas canelas delgadas e quase inúteis de Jô, centroavante com mobilidade de poste. Alan Kardec é motivo mais do que suficiente para a Terceira Guerra Mundial. Pior dos péssimos.

Imperatriz Alecrinense

Enquanto o Alecrim vive apreensões quanto ao seu futuro, ainda sob implacável domínio estrangeiro, fora de campo exibe uma verdadeira imperatriz: Giulliana Monte, eleita Musa do Campeonato Estadual 2014. Uma beleza greco-italiana.

Compartilhar: