Destruir, apagar
Destruir campos de futebol é trucidar o sonho e a liberdade das crianças. Na cidade vaidosa por sediar quatro jogos da Copa do Mundo de 2014, a ordem é derrubar o patrimônio histórico e os celeiros dos craques construtores de alegrias da terra aldeota, em nome de repartições, burocracias e interesses eleitoreiros sutis.
Primeiro foi o Estádio Machadão, homenagem ao jornalista João Machado, homem do Curruchiado, programa escrachado da Rádio Cabugi AM(hoje Globo nos anos 1960) e dono de protuberante hérnia inguinal. Seu nome foi um ato de justiça em 1989. Antes, era uma adulação ao Marechal Castelo Branco, o primeiro dos ditadores.
João Machado é dos tempos da Natal provinciana e viveu quatro anos do estádio batizado de Poema de Concreto pelo ex-governador Cortez Pereira e inaugurado em 1972. A placa com a frase lírica de Cortez Pereira.foi jogada às traças (tenho a foto dela em meio aos escombros), quando máquinas começaram a triturar cimento e lembranças.
O estádio, que começou a ser construído na gestão do prefeito Agnelo Alves, cassado em episódio dos mais vergonhosos da história de Natal(seus aliados votaram pelo seu impeachment por pânico das baionetas), foi o marco de minha geração violentada pela força da grana que destroi coisas belas muito mais do que as ergue hoje em dia.
Nos primórdios da epopeia da Copa do Mundo em Natal, o estádio seria a modernização do Machadão, em projeto perfeito e aprovado pela FIFA, obra-prima do arquiteto Moacyr Gomes da Costa, autor da ideia original. Bonito e barato. O Mineirão, o Castelão ficaram prontos primeiro porque neles foi feito assim.
Moacyr foi enganado e os vigaristas de luxo tomaram-lhe à frente impondo à cidade uma fantasia de Dubai, uma maravilha faraônica de computador, que custou milhões de reais aos cofres do Estado e apenas a demolição da Creche Kátia Fagundes Garcia, golpe na memória de uma mulher vanguardista e à frente do seu tempo no planejamento urbano.
Enfim, o Machadão foi ao pó e a Arena das Dunas está 50,34% ou 51,21% pronta, segundo cálculos precisos dos seus operadores. Imagino um Alecrim x Potyguar de Currais Novos jogado nela, depois da ressaca das quatro partidas, uma delas provavelmente Tanzânia x Botsuana pela Copa do mascote Fuleco.
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Os homens de paletó e sabedoria de cifrão estão de olho, há longos anos, no tesouro da floresta do Tirol chamado Estádio Juvenal Lamartine. A nata da história do futebol potiguar deve, na visão abutre, ser estuprada em nome da especulação imobiliária, como se a memória não fosse o combustível humano de qualquer lugar.
Quanto mais deteriorado e esquecido o JL, de Jorginho, Wallace, Véscio, Vasconcelos e Alberi, melhor para seus coveiros. Em João Pessoa, reformou-se o velho Estádio da Graça. Em Cuiabá, está em ação o ancestral Dutrinha. Em Fortaleza, o Presidente Vargas foi refeito. É o charme da volta ao passado revisitar o segundo estádio de cada canto.
Todos em localizações semelhantes à do JL, perto da área urbana e da moradia burguesa. Aqui, só aqui, destruir é o verbo a se conjugar primeiro. Como num banquete de cédulas sendo engolidas até todos os gulosos morrerem engasgados pela própria cobiça.
Agora o alvo é o campinho das Rocas, o velho Senador João Câmara, do Palmeiras, do Racing, do Monamy, do Jordanês, de Pancinha, Cocó, Piaba, Saquinho, Sérgio Poti, Ivan Matos, Robério, Pernambuco, Tiê, Geraldo Tamba, Beto Platini, Tidão, Sérgio Espirro, frutos de sua grama florida e de sua terra batida.
Querem transformá-lo na nova Câmara Municipal. As Rocas, berço de craques, produtora de muitos votos. Há, em Natal, inúmeros prédios e terrenos onde os vereadores possam legislar e trabalhar com aptidão e conforto, deixando em paz o João Câmara.
Outra proposta é acabar com o estadinho para criar uma sede do IFRN, uma das instituições mais sérias do país e que também serve de combustível eleitoral infalível ao PT. Que se faça o IFRN em Santos Reis. No lugar dos tanques da Petrobrás.
Um campo de futebol é a esperança de menos um menino metido na bandidagem, de mais uma chance de um virtuoso nato ter, de graça, a oportunidade de mostrar seu talento. A bola é a garantia de menos uma arma na mão, de uma droga circulando.
O esporte é a diversão preventiva antes do crime. Destruir o Estádio Senador João Câmara é invadir, como uma força bruta e insensível, a autonomia natural de uma comunidade feita de alegria, samba no pé, fé e futebol.
Números, números
O radialista, blogueiro e pesquisador Marcos Trindade jogou na opinião pública números que desmentem qualquer pirotecnia sobre o Campeonato Estadual. É mesmo um fiasco e só vai se salvar com duas boias chamadas ABC e América.
Média
A média de público até agora é de 670 pagantes por jogo. Quantitativo de um Atlético de Adelino Marques contra o Ferroviário de Joãozinho Paiva no JL com o folclórico Jácio entrando em campo amarrando o cadarço do calção.
O maior e o menor
A multidão do estadual, até a rodada de ontem, Potiguar 1×2 Santa Cruz com 1.400 pagantes. O menor público foi o de Alecrim 1×1 Baraúnas com 91 masoquistas no estádio. O modelo dos estaduais faliu. O Nordestão está dando um banho. Em Salgueiro, 9 mil assistiram o jogo do time da casa contra o América.
Soberba
Nota-se, no América, uma soberba acentuada. Foi ela, a soberba, um dos sete pecados capitais, a razão principal da derrota para o Salgueiro. O América ,em 2012, venceu por saber ser humilde.
ABC
Hoje é o jogo da vida do ABC na Copa do Nordeste. Está certo que futebol é caro. Mas se o ingresso fosse a 20 pilas a arquibancada, lotaria o Frasqueirão.
Taça de Prata
No dia 31 de janeiro de 1981, o ABC venceu o Central(PE) por 3×2 pela Taça de Prata, correspondente à Série B do Brasileiro. Zezinho, Noé Macunaíma e Berg fizeram os gols da vitória. Guiga e Gil Mineiro marcaram para o Central. Público de 2.054 pagantes no Castelão(Machadão).
Times
ABC: Carlos Augusto; Gelson, Ticão, Cláudio Oliveira e Joel(Betinho); Paulinho, Noé Macunaíma e Zezinho(Nilsinho); Juarez, Berg e Babá. Central; Jorge Hipólito;
Ramalho, João Correia, Alexandre e Batista; Sérgio Perez(Erasmo), Maneco e Paulinho; Porto, Guiga e Gil Mineiro(Zequinha).


