Dia Internacional

Lá pela terceira taça do tinto francês, a ruiva balançou o cabelo, vendaval ondulado e em câmera lenta dos comerciais…

Lá pela terceira taça do tinto francês, a ruiva balançou o cabelo, vendaval ondulado e em câmera lenta dos comerciais de shampoo. Percebendo a visão gulosa dos três machos nas cercanias, deu um jeito de cruzar os calcanhares, subindo a saia e deixando nuas as panturillhas tenras de musculação. A companheira de mesa preservava o olhar semicerrado das astutas profissionais e manteve-se elegante ao primeiro golpe de soberba desferido pela ruiva sem protocolos:

– Recebi meu presente do Dia Internacional da Mulher, amiga. É ma-ra-vi-lho-so! Uma surpresa dos deuses. Aliás, do meu Deus particular. Uma viagem a Áustria, a Viena, cinco dias fantásticos. Já estamos com bilhetetes, reservas de hotel, tudo certo.

Passou a descrever o roteiro, deslumbrada: Museu de Belas Artes, Catedral de São Estevão, a Ilha do Danúbio, o Palácio de Hofburg, onde viveram imperadores(a ruiva confundiu Hofburg com Hamburgo, Alemanha), o Jardim Buggarten e o lugar que ela considerou enfadonho.

O ponto chato do passeio, segundo informava a ruiva à paciente amiga, que conhecera quatro dias antes na academia de ginástica, seria a parada no Hotel Sacher. Lá, em 1824, foi tocada pela primeira vez a 9ª Sinfonia de Beethoven. O compositor, que estava surdo na ocasião, apenas sorriu embevecido pelos 20 minutos de aplausos do público encantado com a beleza de sua obra.

– Não sei não. Vou dar um jeito bem caprichado de cortar esse passeio do circuito. Imagina visitar um lugar apenas porque um homem chamado de gênio esteve lá e ainda por cima, surdo. Música clássica eu detesto e olha que estudei geografia e história no colégio, mas perder meu tempo na Europa com bobagem, de jeito nenhum. Música boa é música que a gente entende, tipo Zezé e Luciano, sabe? Aquela coisa romântica…

Enquanto a ruiva matraqueava dando a impressão de que o planeta seria espatifado nos próximos 40 minutos por uma bomba nuclear – transformando em cinzas a sua sonhada turnê, a outra expressava uma paz calculista. Ouvia e balançava a cabeça, em sinal de concordância. Bebia pouco, beijava o vinho, dissimulava. Perguntou ferina como Jules Maigret, o notável inspetor francês dos romances policiais, em versão feminina:

– Há quanto tempo você está separada?

A ruiva, uivante e empolgada:

– Há três meses.

A outra, de hábitos e trajes sóbrios como a beleza clássica e de aparente fragilidade, emendou:

– Não acha pouco tempo para já estar viajando assim com outro, que você mal conhece? E a propósito, não entendo o seu mistério sobre esse príncipe encantado ou deus vienense…

Enrolando mais do que o meio-campista Zinho ao girar sobre a bola na Copa do Mundo de 1994, a ruiva, possivelmente também uma falsa ponta-esquerda se futebol jogasse, encheu a prosa de rodeios, quis vender fiado a conversa de paixão fulminante e à primeira vista(como as compras que ele lhe fazia) até cambalear com a garganta:

– Amiga, posso te confiar um segredo?

A ouvinte, gélida como espiã de Guerra Fria tilintou taça com taça:

– Nem precisava perguntar. Pode contar que a conversa morre aqui mesmo.

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Depois de um olhar perimetral sobre o restaurante, não notou ninguém observando o diálogo( Os três caras duas mesas adiante olhavam mesmo era para as pernas dela), pigarreou como é de praxe nas confissões cretinas e admitiu:

- Ele é casado.

Mas, garantiu a turista animada, logo, logo, ele deixará a “megera” da mulher. Com quem sequer ele transa e, antes mesmo de Felipão confirmar Hulk de titular no ataque do Brasil, estará lhe dando cartão vermelho e se aninhando nos braços e táticas quentes dela, a ruiva. Velho truque, eterno efeito.

- Legal, disse a elegante de calça e blazer no tom azul escuro. Legal e coincidente.

- É mesmo? Por quê?

- Imagine. É que hoje, de manhã, uma agência de viagem me ligou no celular para confirmar cinco dias na Áustria com roteiro igualzinho ao seu. Foi o Doutor Mazzola(não o Altafini, da Copa de 1958), quem comprou tudo. Doutor Mazzola é meu marido, por sinal. O estranho é que meu nome não é Ana Paula é Ana Cláudia. Cancelei tudo, Doutor Mazzola confessou e vai comigo, co-mi-go é para Veneza, navegar e recomeçar. Você vai ver a Áustria pela TV, piranha!

Ana Paula, a ruiva, chorou sozinha, enquanto a outra sapateava empinada em direção ao estacionamento. Sem crédito no cartão, a derrotada disse sim a um dos três admiradores das suas irresistíveis pernas, que lhe pediu permissão para sentar. Conversa vai, vem, caronas e travesseiros, acertaram a Semana Santa numa pousada. Modesta, em Riacho do Meio, Alto Oeste potiguar.

PS. Cuidado com elas. Não parecem, mas, em instinto, são internacionais. E ninguém criou nada melhor do que a mulher. No singular e no plural.

 

Torcida única

Perfeita ideia de torcida única nos jogos entre América e Ceará. Tem de ser institucionalizada para todos os jogos importantes, como reforço à segurança do verdadeiro torcedor.

 

Como seria

O time com mando de campo teria sua torcida em seu estádio e o jogo seria transmitido para a cidade da equipe visitante. Não haveria pretexto para a presença de falsos torcedores uniformizados do clube de fora.

 

Comprar a briga

Ainda que não dê certo na semifinal da Copa do Nordeste, a ideia lançada pelo América deve ser comprada não apenas por quem está envolvido no ambiente do futebol. Segurança é dever de Estado e questão que mexe e fere a carne e a alma da sociedade.

 

Primeiro turno

Eis que o primeiro turno chega ao fim com três candidatos no Big Brother do Campeonato Estadual. Alecrim, Globo e América formam o paredão e um deles garantirá o principal objetivo, que é a vaga na Copa do Nordeste do próximo ano. O padrão do futebol jogado no campeonato local é idêntico ao conteúdo do confinamento de idiotas da televisão.

 

Alecrim

A Fera desfralda bandeiras, tira a esperança do baú saudosista e vibra pela possibilidade concreta de o Alecrim garantir depois de 28 anos ,uma vaga em decisão. É um tempo, é uma vida. É a memória de torcedores inesquecíveis como o poeta Francisco Macedo, o jornalista e cartunista Edmar Viana e o irrequieto Pastel.

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