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Dilemas humanos, demasiado humanos – Laurence Bittencourt, jornalista (laurenceleite@bol.com.br)

Data: 01 fevereiro 2013 - Hora: 18:06 - Por: Portal JH

Como diz um dileto amigo, cada um tem uma biografia que deve ser respeitada. É uma ideia, a desse amigo, um tanto filosófica freudiana, sem dúvida. Falar nisso, foi o filosofo Heráclito na antiguidade que disse que “caráter é destino”, uma frase interessante e que pode servir de baliza para avaliarmos a biografia de cada um.
O que estou tentando dizer com essa linha de raciocínio é que o padrão de cada um é formado, forjado no encontro com os outros, inicialmente a familia, e depois com o grande Outro, o social, como diria Jacques Lacan. Nada nasce pronto, ainda que a personalidade tenha também muito de biológico, ou seja, trazido com o DNA de cada um.
Mas sem dúvida, penso eu, que é no confronto com o outro, ou com os outros que o nosso destino, para o bem ou para o mal é traçado, construído, processado. Não estou seguindo a linha dos empiristas para quem o ser humano ao nascer é uma “tábula rasa”. Não. Há sem duvida disposições inatas, filogenéticas, herdados de uma herança arcaica e coletiva. Mas o grosso do humano, sem dúvida, que é adquirido.
Exemplos têm aos montes que justificam essa linha de raciocino. Por exemplo, a noção de perigo não parece ser algo inato, basta verificar uma criança de pouca idade, ou com poucos anos, para constatarmos a ausência de certo principio ou noção de perigo. A criança quer por a mão, ou melhor, o dedo no buraco da tomada de energia. É um exemplo. Ela não tem noção de certo ou errado, do que pode ou não, no sentido cotidiano. É um exemplo, mas há outros, vários outros. Logo, podemos pensar que a noção de ética é algo construído.
Costume dizer para os meus alunos, meio que de brincadeira, que se Deus tivesse confiança no ser humano, não teria enviado os dez mandamentos. A ideia de “não matarás” está lá entre os dez mandamentos, como uma lei posta ou imposta de fora. E foi exatamente por isso, que fez Freud admitir que houvesse (há) em todo ser humano uma tendência para a agressão, inata. Dai a educação, a lei, para coibir essa tendência.
A educação, as leis, é construída no contato com o outro, com o meio externo, construída no e pelo social. Uma medida de garantia para a civilização poder funcionar minimamente. E, no entanto, o grande desafio, a grande questão que cada ser humano tem que coadunar é encontrar um equilíbrio entre o que temos de mais singular com as demandas sociais.
Esse discernimento não é tão simples de entender e aplicar. E ai entra a biografia de cada um, como disse o amigo dileto. Essa tem sido, resumidamente, um pouco da história humana ao longo dos tempos. Encontra a medida certa é que é a questão que cabe a cada um e a todos.

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