“Dilma, cuidado com a inflação”, diz professor de economia da presidente

Segundo Luiz Gonzaga Belluzzo, se índice acelerar e subir, poderá causar prejuízos à eleição

"Infelizmente, não dá para corrigir o populismo cambial de outros anos", diz Belluzzo. Foto:Divulgação
“Infelizmente, não dá para corrigir o populismo cambial de outros anos”, diz Belluzzo. Foto:Divulgação

Luiz Gonzaga Belluzzo é um dos expoentes da corrente heterodoxa no Brasil. Diretor e fundador da Facamp, faculdade privada em Campinas, o economista se autodefine como um “keynesiano-marxista bem modesto”, favorável à presença forte do Estado na economia.

Em entrevista, ele voltou a afirmar que o investimento público é coordenador do investimento privado. Admitiu, porém, que o cenário internacional é adverso e exige corte no orçamento da União. “É uma dor que se sentirá agora, mas pode-se ter uma situação melhor à frente”.

Um dos professores de Dilma Rousseff, quando ela cursou o mestrado em Ciências Econômicas na Unicamp, Belluzzo, de tempos em tempos, é convidado para conversas informais com a presidente sobre os rumos do País. E antecipa que, se for convidado para um novo encontro em Brasília, levará um conselho na ponta da língua: “Dilma tem que tomar cuidado com a inflação. A inflação pode ser mortal. Se acelera e sobe para 8%, 10%, poderá provocar dolo na eleição dela”.

Como o sr. está vendo a atual fase da economia brasileira?

Apesar de todas as virtudes da economia brasileira, nós deixamos uma peça fora do lugar. Permitimos a valorização cambial, aliás, temos 20 anos de valorização cambial. Parece que é uma coisa banal, porém as pessoas não dão a ela a importância que de fato tem, porque ela desequilibrou um setor importante para a economia brasileira, que é a indústria.

O déficit da indústria em 2013 foi assustador, mas ele não nasceu agora. Se for olhar o desempenho do setor importador da indústria nos últimos anos, percebe-se que esse déficit já estava se espalhando em todos os setores e foi bloqueando a diversificação da indústria brasileira. Nós reagimos à crise internacional de maneira correta, buscando estimular o consumo, reabilitando o crédito.

Ao longo desse tempo, em paralelo ocorreu uma mudança na fixação do salário-mínimo, uma incorporação de um contingente cada vez maior no programa do Bolsa Família, a criação do crédito consignado, então tudo isso é responsável por uma inflação diferenciada do setor de serviços.

Se for observar a composição da inflação, vai se ver que o setor de serviços tem um peso maior do que os produtos manufaturados, mesmo depois das flutuações sazonais dos preços dos alimentos. Houve uma mudança nos preços relativos que acabou se transmitindo para a economia por causa do sistema de indexação que ainda temos.

Mas a inflação é uma ameaça para a economia brasileira?

Hoje é o seguinte, nós temos reservas e vamos ter de administrar esse momento do câmbio. Infelizmente, não dá para corrigir o populismo cambial de outros anos. Temos que ter muito cuidado com a taxa de câmbio. O governo não pode ser benevolente com a inflação. Não vamos nos iludir e acreditar que vamos colocar a inflação para debaixo da meta. Mas temos de seguir minimamente as recomendações da política de metas.

Ao mesmo tempo, a meta busca, no fundo, minimizar os custos da inflação em termos de produto, renda e emprego. Isso me parece que seja um conjunto importante no sistema de metas. Temos uma economia que saiu de uma inflação muito alta, de ameaça de hiperinflação, que tem ainda um contingente grande de preços indexados. Alguém faz algum tipo de operação financeira por cinco anos com taxa fixa nominal? Não. Por isso, não se pode permitir que a inflação saia do controle. Se isso acontecer, você reestimula a reindexação dos outros preços. É uma gestão muito delicada. Quem disse que isso é fácil, deve ser internado num hospício.

Como o sr. vê as críticas recorrentes que o governo enfrenta sobre o descontrole dos gastos públicos?

Há uma discussão entre a esquerda e a direita, em que a direita supõe que a esquerda é a favor do desatino fiscal. O governo se debate com um problema: ele tem que escolher qual é a sua prioridade. Numa situação como essa, o governo não pode achar que pode atingir todos os objetivos ao mesmo tempo.

Eu acho que, na verdade, não se pode escapar de determinados gastos públicos. Por exemplo, não se pode construir um hospital e não contratar médicos e comprar equipamento. O governo tem que organizar seu orçamento de maneira a maximizar suas vantagens para a sociedade eminimizar suas despesas. Mas esse controle das despesas correntes não é tão banal. Muita gente pensa que essas despesas se resumem aos gastos com salário de pessoal. Não é verdade.

Mas é preciso rever, por exemplo, o número de cargos comissionados no poder público. Por que não fazer um melhor uso da estrutura burocrática existente? É preciso controlar os contratos de prestação de serviço. Nesse capitalismo que está aí, é preciso que o Estado mantenha as rédeas do investimento público. Porque o investimento público é coordenador do investimento privado. Agora mesmo os Estados Unidos estão voltando a investir na sua infraestrutura, que está caindo aos pedaços. Para quê? Para gerar horizonte de gastos das empresas privadas.

Na época da dívida externa brasileira, nos anos 80, as empresas estatais projetavam demandas futuras, era o que faziam empresas como Telebras, Petrobras — e para Petrobras ainda continua sendo verdade, desde que ela corrija os preços e reduza um pouco a alavancagem. O que aconteceu naquela época? O setor de bens de capital cresceu atrás dessa demanda antecipada pelas estatais.

Quando vieram as privatizações, não houve uma substituição por outro modelo, que seria um orçamento de investimento separado do investimento corrente. Estou repetindo aqui o que Keynes dizia em 1936: à medida que o capitalismo vai ficando mais centralizado, mais concentrado, que as empresas vão tomando conta dos mercados, o impulso para investir vai arrefecendo. Há essa contradição, os liberais defendem a ideia de pouca intervenção do Estado, mas se o Estado não investe, a iniciativa privada não se mexe.

Em sua opinião, qual deve ser a prioridade da política econômica do governo?

Maximizar o investimento público neste momento e impedir que o crescimento dos gastos correntes fique acima do crescimento da economia. Isso tem várias implicações… Outro dia eu vi um expoente do liberalismo nativo dizer que é preciso encolher o Estado. O que significa isso? Na prática, ele quis dizer que o governo deve se restringir às funções burocráticas.

Só que o governo tem médicos, professores… Todo mundo defende melhoria na qualidade dos serviços públicos, em educação, saúde e segurança, e quase sempre essa melhoria passa por investimentos na valorização do profissional, na sua remuneração. Já fui professor de uma instituição pública, hoje estou numa privada, mas digo claramente: a educação tem de ser uma responsabilidade do governo. Educação custa caro. É importante ver o que a Coreia investe no seu ensino público.

E essa tem de ser uma das prioridades do governo. Mas o engraçado é que não vemos os economistas defendendo isso. Hoje se fala muito na necessidade de inovação. Se acompanharmos os vetores da inovação tecnológica, vamos observar que eles estão muito além daquilo que a indústria de bens de capital brasileira pode fazer.

Não quero generalizar, mas a questão da automação, da impressão 3D, tudo isso tem implicações enormes na produtividade social do trabalho e na nossa posição na economia industrial. Não podemos simplesmente achar que vamos marchar no mesmo horizonte tecnológico que vimos até aqui. O problema da indústria brasileira não é só o câmbio. Em qualquer lugar do mundo, por exemplo, nos EUA, o gasto do governo com as universidades empenhadas na pesquisa tecnológica que chega à indústria é impressionante.

Mas no cenário atual, como mostram as pesquisas da CNI e da FGV, o empresário brasileiro tem se mostrado retraído, com taxa de confiança baixa.

Isso reflete a mudança de humor dos mercados financeiros. Em 2010, a revista “The Economist” publicou uma capa como Cristo Redentor na forma de um foguete, dando a impressão de que o Brasilera formidável. Mais recentemente, publicou uma capa com o Cristo Redentor despencando.

A revista inglesa é uma excelente publicação, mas não há verdade nem numa capa, nem na outra. Essa mudança de humor afeta muito a economia brasileira. Não se trata de uma teoria conspiratória. Trata-se de uma observação sociológica. E a sociologia não admite conspiração, admite a formação de certos conjuntos sociais que têm predominância sobre outros e que acabam conformando a opinião geral.

O sr. acha que a presidente está certa quando diz que há uma “guerra psicológica” contra a política econômica do governo?

Não sei se é uma guerra psicológica. É um fenômeno que se organiza coletivamente, mas não é que há alguém por de trás, manipulando os cordéis. É que a percepção dos mercados vai mudando. As agências de risco — que acertam mais do que o Luís Fabiano está acertando de penalty (o atacante são-paulino vem perdendo repetidos penalties desde o ano passado) — ainda são respeitadas pelo mercado.

Porque o mercado ainda não tem outro meio de avaliar o risco. Na verdade, tem como avaliar os riscos através dos derivativos. Mas mesmo assim precisa de alguém que diga que aquele papel de dívida merece ser absorvido por certas instituições, como os fundos de investimento. Atualmente estamos preocupados porque as agências de risco nos colocaram no purgatório. Estamos preocupados porque se elas nos rebaixarem, o Brasil terá problemas. A despeito de elas terem errado muito todas as avaliações antes da crise econômica mundial, as agências ainda têm esse papel.

Como o sr. viu a presença de Dilma Rousseff no Fórum Econômico Mundial, em Davos? Foi positiva?

Ela fez bem de ir. Porque lá estavam os formadores de opinião da área econômica. Estavam todas as figuras do mercado, e a presidente teve uma série de conversas privadas interessantes, porque o discurso público é uma mera formalidade. Nos próximos anos, esses formadores de opinião ficarão atentos ao desempenho fiscal do País.

Logo após a viagem da presidente Dilma, vazou a informação de que o governo estuda um corte no orçamento. Parece uma resposta objetiva às críticas à política fiscal. Um aceno para além do discurso?

Às vezes tenho desavenças com meus colegas com uma visão mais de esquerda, eme posiciono, afirmando que não se brinca com a inflação. O mercado de trabalho exige cuidado porque está veiculado à ideia de que é preciso fazer desemprego. E o atual nível de emprego não é compatível com a política de metas. O Banco Central tem sido muito competente em elevar a dosagem dos juros, mas talvez tenha errado no timing.

Como o sr. avalia a crise da economia mundial? Há sinais de recuperação? Como o Brasil deve se posicionar?

A economia mundial é igual ao cidadão que caiu do 10º andar, se arrebentou todo, e ainda está começando a recuperar uma certa lucidez. Os Estados Unidos este ano devemcrescer um pouco mais, por causa da vantagem que eles adquiriram com o gás de xisto.

Eles estão conduzindo com mais cuidado a política fiscal, ainda que não seja exatamente aquilo que é necessário para recuperar a economia inteiramente. Não vão abortar abruptamente o Quantitative Easing — eles fizeram esse movimento, mas recuaram porque perceberam que o mar não está para peixe. Já a Europa…

A previsão é de que a China continue crescendo a uma média de 7%, que, comparado como crescimento do período áureo de 10% e 12%, aponta para uma queda na taxa de crescimento. É bem diferente afirmar que a China entrou em recessão. Isso vai manter os preços das commodities mais ou menos no nível que estão.

O crescimento norte-americano ainda está muito apoiado na inflação de ativos. Acho que a economia mundial vai retomar o crescimento e com mais calmaria. O Brasil está encaminhado por dois vetores: o primeiro deles é esse conjunto de projetos de concessões.

Houve um erro no início, em cima de uma discussão estéril sobre a taxa de retorno, mas agora houve um avanço. E também há o pré-sal, que terá impacto na demanda doméstica e também na política de absorção tecnológica, de inovação. Não podemos esquecer que a Petrobras é uma empresa inovadora, e que tem investido muito em pesquisas e exploração em águas profundas.

Com esses investimentos nas concessões ena exploração do pré-sal, é possível que o Brasil atinja uma taxa de crescimento de 2,5% ou 3% este ano?

Acho que sim.

Mesmo assim, a indústria nacional vai continuar sem fôlego?

No mundo em que se tem um competidor temível, que é a China, eu acho que o Brasil tem de atacar a questão da indústria por todos os ângulos, sempre levando em conta a desvalorização do câmbio – que tem de ser muito cuidadosa – porque se ocorre uma desvalorização abrupta, há perdas, e a desvalorização é sempre muito inferior à desvalorização nominal.

A cotação de R$ 2,40 está muito apreciada?

Para alguns setores ela ainda é apreciada. Nós ficamos 20 anos com câmbio valorizado, com uma inflação média de 5%.

E a questão dos juros? Haverá novos aumentos? Há necessidade?

Enquanto o governo não sinalizar claramente sobre a meta de superávit fiscal consistente, o mercado vai ficar falando. Dado o estado de expectativas e essa inter-relação com os mercados financeiros globais, e a formação desses consensos, pode-se discordar, e defender a criação de um novo Breton Woods, de verdade, para coordenar o desenvolvimento de capitais. Mas como isso não está no horizonte, é necessário ser capaz de apresentar um desempenho fiscal compatível com a moderação dos juros.

O corte no orçamento em estudo pelo governo é inevitável?

O governo tem de rever esse orçamento. É uma dor que se sentirá agora, mas pode-se ter uma situação melhor à frente. Se a economia com uma taxa de juros menor deslancha, mais pra frente tem-se mais facilidade de fazer um superávit livre. Não vou dizer que a situação fiscal é desastrosa, como muita gente diz.

Tivemos aquele incidente da contabilidade criativa, mas o que é necessário é mostrar um superávit crível. Não adianta, diante do estado que se encontra a economia brasileira, querer tentar remar contra a maré. Tem de administrar as expectativas. Esse é o problema da economia. A geração de emprego depende fundamentalmente daqueles que têm o controle do crédito e da produção.

Para retomar o crescimento da indústria seria o caso de controlar o câmbio?

O mais importante seria ter um câmbio pouco volátil e estabilizado,porque cria um horizonte de investimento. Os empresários precisam ter muita clareza sobre isso. O câmbio é um preço crucial, mas como ele deixou de ser fundamentalmente um preço relativo, que regula as importações e exportações, ele se tornou um asset, um ativo financeiro. Quando a economia global move essa massa de capital que não tem muita identificação com nada, ela transforma o câmbio nisso e as economias ficam à mercê desses movimentos.

O sr. tem conversado com a presidente, e pode ser chamado agora para trocar ideais sobre a economia. Que conselhos pretende dar a Dilma?

Eu acho que ela deveria se concentrar nos vetores de crescimento — que são as concessões e os investimentos da Petrobras – e ser muito cuidadosa com a inflação. Porque a inflação pode ser mortal. Se a inflação acelera e sobe para 8%, 10%, poderá provocar dolo na eleição dela. Muita gente pensava que os ganhos das classes C e D desaceleraram no governo dela. Mas isso não é verdade, eles aceleraram.

Discordo da ideia de “nova classe média”, são as classes que ascenderam que tiveram acesso a crédito, a bens duráveis. A ascensão foi de todas as classes e isso fica muito visível no desempenho do setor de serviços.

Aumentou o consumo de refeições fora de casa, as pessoas começaram a viajar mais de avião, por causa do crédito e por causa do aumento real do salário-mínimo, e isso funcionou como incentivo ao desenvolvimento, aumentando a pressão sobre a inflação. Como o Brasil ficou caro por causa do câmbio, as pessoas passaram a viajar para o exterior e isso bateu na conta corrente. Por que a inflação foi mais alta no setor de serviços? Primeiro, porque mudou essa estrutura de distribuição de renda e, depois, porque aumentou muito a demanda.

Em relação à política econômica, é verdade que a presidente Dilma é quem dá a palavra final sobre os rumos da economia do País?

Criou-se uma imagem de que ela é uma pessoa intratável, dura, que não fala com ninguém. Isso não é verdade, é uma tremenda injustiça. A Dilma é uma pessoa educada, civilizada, às vezes dá bronca nos seus subordinados, mas nada de grave. Acho que ela é vítima de um certo machismo, porque, se fosse um homem, seria considerada um presidente firme. Mas como é mulher, há uma percepção diferente.

O sr. figura no “Biographical Dictionary of Dissenting Economists”, entre os 100 economistas mais heterodoxos do século 20. Como se sente em fazer parte dessa lista?

Não sei por que me escolheram. Entre os brasileiros estão Celso Furtado, Conceição Tavares e eu. Do título, a coisa que eu mais gosto é o “dissenting” (contrário, dissidente). Quem organizou esse dicionário foram dois professores ingleses, e não sei por que eles me enfiaram na companhia do John Maynard Keynes e Joan Robinson.

Não vou dizer que não gostei, mas não me considero nem um pouco à altura deles. Eu sou um keynesiano-marxista bem modesto. Aliás, não há como estudar economia e escapar de Marx e Keynes. Como estudar sociologia e escapar de Max Weber? Esses autores estão infernizando nossa vida o tempo inteiro.

E a presidente Dilma, que foi sua aluna, é também uma keynesiana-marxista? A propósito, Dilma foi boa aluna?

Ela foi aluna do mestrado em Ciências Econômicas da Unicamp. Era, sim, aplicada e séria. O curso que ela fez comigo se chamava “Paradigmas em Economia”, muito teórico, a gente abordava muito Keynes e Marx. Mas não creio que ela seja muito teórica, Dilma é uma mulher bastante pragmática. Em minha opinião, Keynes foi o maior economista do século 20, assim como Franklin Roosevelt foi o maior estadista do século 20.

Fonte:IG

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