Piloto Graco Magalhães fala sobre a convivência com governadores

Graco Magalhães privava da intimidade de todos os políticos com quem conviveu durante anos, tanto na cabine de um avião quanto fora dela

Graco--Foto-Leonardo-Dantas

Joaquim Pinheiro

Repórter de Política

As vésperas de completar 92 anos de idade e após 22 de aposentadoria, lúcido e ativo, o comandante Graco Magalhães Alves continua apaixonado pela aviação. Com uma memória privilegiada, ele passa a maior parte do dia à frente do computador atualizando-se sobre as novidades tecnológicas e os novos modelos de aeronaves surgidas no mundo. Residindo no apartamento do filho, Antonio Carlos, no bairro de Petrópolis, o comandante Graco recebeu a reportagem d ´O JORNAL DE HOJE para uma entrevista descontraída, agradável e interessante durante mais de 2 horas. A pedido do repórter, Graco opinou sobre os aviões de última geração adquiridos recentemente pelo governo brasileiro na Suécia: “o melhor avião do mundo é o F18 americano, mas o Governo Brasileiro optou pelo Gripen sueco”, disse o comandante, lembrando que o F18 é usado pela Força Aérea Americana, Aviação Naval Americana, Força Aérea do Canadá, Áustria e Arábia Saudita, informa com autoridade de quem pilotou 202 tipos de aeronaves, civis e militares, no Brasil, Inglaterra e França.

O então garoto Graco nasceu numa cidadezinha mineira chamada Muzambinho em 1922 e depois de entrar na FAB veio para Natal onde casou com Elza Pedroza, em 1948. Ela, irmã do governador Sílvio Pizza Pedroza. Antes, Graco ficou 2 anos como aspirante a oficial fazendo um curso de aviação nos Estados Unidos. Em Natal, o tenente Graco foi instrutor de B25. Posteriormente, foi convidado pelo governador Sílvio Pedroza para ser seu chefe de gabinete. Na sequência, Graco foi piloto e agente do Loide Aéreo em Natal. Voltou para a FAB e num certo dia, início do ano de 1960 foi convidado pelo então governador Aluízio Alves para ser piloto do Estado. Aceitou, na condição de ser nomeado para um cargo público para evitar injunções políticas por parte dos governadores subsequentes. Aluízio o nomeou fiscal de renda e ele passou a ser piloto oficial do Governo do Estado com estabilidade garantida. O primeiro avião de 6 lugares e 2 motores foi adquirido nos Estados Unidos.

Depois de Aluízio Alves foi eleito governador o monsenhor Walfredo Gurgel e o comandante Graco continuou pilotando. Depois, vieram Cortez Pereira, Tarcísio Maia, Lavoisier Maia, Geraldo Melo e José Agripino. “Convivi bem com todos eles, inclusive fui amigo pessoal de Dix-Sept Rosado, para quem pilotei apenas 2 vezes, além de José Varela e Ubaldo Bezerra, lembra o comandante que permaneceu 32 anos como piloto do governo do Rio Grande do Norte. Instigado a contar casos pitorescos e inusitados, o piloto limitou-se a dizer o seguinte: “voei com gente boa, gente ruim e amantes de políticos. Transportei até um defunto pilotando sozinho um helicóptero”, disse ele, informando que o defunto era um tenente da FAB morto num acidente de avião. Graco disse também, que foi testemunha da Paz Pública protagonizada por Aluízio Alves e Tarcísio Maia. “Transportei a autorização do Núncio Apostólico permitindo que monsenhor Walfredo Gurgel fosse candidato a governador, acabando com uma disputa que existia entre Clóvis Motta e Jessé Freire que desejavam ser indicados por Aluízio. Porpino foi buscar o documento e levamos para Aluízio em Caicó”, relata. Além de avião, a outra paixão de Graco Magalhães é a vida do campo. Até pouco tempo ele foi criador e produtor rural. Era proprietário de 2 fazendas, uma em Jandaíra e outra em Ceará-Mirim, onde criava cavalos e plantava algodão. Trocou o cavalo e o avião pelo computador onde permanece ligado à internet pesquisando sobre avanços tecnológicos no setor de aviação.

testemunha da Paz

A convivência de 32 anos com todos os governadores do Estado permite ao ex-piloto Graco Magalhães fazer um perfil sucinto de todos eles, começando com Sílvio Pedroza, de quem era cunhado e tinha bom relacionamento de amizade e admiração. “Sílvio era um homem educado que atendia a todos. No seu governo não houve perseguição política. Foi o responsável pela construção do Ateneu e do Quartel da Polícia Militar”. Aluízio Alves: “Era muito ativo e no seu governo houve muitas realizações. Inaugurou a Telern e a Cosern”. Walfredo Gurgel: “Concluiu algumas obras que Aluízio deixou e apoiou muito o setor educacional. Foi austero com relação às finanças do Estado. Calmo, sereno e zeloso gestor público. Sua austeridade e humildade foram marcas constantes da sua vida pública”. Cortez Pereira: “Era um homem simples e inteligente e foi incentivador do progresso. Foi um grande orador”. Tarcísio Maia: “Um homem sério. No seu governo foi estabelecida a Paz Pública”. Lavoisier Maia: “Foi seguidor de Tarcísio Maia. Fez muitas estradas vicinais unindo vilarejos a sedes de municípios. Levou um médico para cada município do Rio Grande do Norte”. Geraldo Melo: “É um homem inteligente. Piloto como eu, fizemos muitas viagens juntos. Sempre passava o avião para ele e conversávamos muito sobre aviação”. José Agripino: “Conversamos pouco. Como marca do seu governo lembro-me do projeto Curral, muito importante para o homem do campo”.

Graco Magalhães privava da intimidade de todos os políticos com quem conviveu durante anos, tanto na cabine de um avião quanto fora dela nas conversas em aeroportos e residências oficiais de governadores. A discrição foi sua marca. Ouviu muita coisa, mas até hoje guarda segredos que jamais serão revelados. Sobre o discreto piloto e bom profissional, Aluízio Alves divulgou no seu livro (de Graco), “Voar é Preciso”, o seguinte depoimento: “No livro de Graco Magalhães não sabe o leitor o que é mais agradável: a reminiscência de colegas e amigos, através de toda uma longa carreira , a competência dos instrumentos de voo nos quais andamos sem nada saber deles; a lembrança de episódios, sobretudo políticos, a que assistiu, como a solução final da minha sucessão no governo.

Vale considerar também, a diligência para cumprir tarefas, e a discrição como o fazia. Quantas conversas não ouviu, e que, não guardadas em segredo, por algum tempo, poderiam criar situações desagradáveis, e até serem modificadas. Graco é o mineiro perfeito: discreto, colaborador, disposto ao trabalho. Com ele, andei 5 anos, sempre assim… sem inconveniências, as vezes colaborando na opinião sobre pessoas e fatos, com fidelidade e consciência. Vale a pena ler o livro. É conhecer um bom técnico, mas sobretudo, um homem digno e correto”.

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