Doce peladeiro
Flutuava pelas quatro linhas. Esguio, elegante, evitava as divididas. Driblava com deboche e suavidade. Abominava os trancos, os choques com zagueiros e volantes. Crueldade e despeito, parte dos adversários, torcedores do Corinthians e a imprensa tascaram-lhe um apelido cruel: “Pipoqueiro”, o covarde do futebol.
Virou bordão no programa de Jô Soares. Quando havia piada de casamento, o padre fazia as recomendações matrimoniais e perguntava, olhos esbugalhados, aos noivos: “Prometam jamais pipocar Jorgemendonçalmente!”. Jorge Mendonça nem ligava. Dava o troco marcando de trivela ou de falta no Corinthians dos terríveis goleiros Jairo e Tobias.
Jorge Mendonça vestia a camisa 8 do Palmeiras na segunda metade dos anos 70. Viera do Náutico, de Recife para a ponta-de-lança palestrina. Juca Show, Vasconcelos e Jorge Mendonça foi um meio-campo dançado em ritmo de frevo de Capiba. A bola entregou-se ao triângulo amoroso na volúpia da paixão cega.
O Nordeste inteiro assistia, encantado, aos passistas do Náutico de 1974. Vasconcelos, a grande estrela, brilhara no Alecrim ainda menino, contracenando com Alberi do ABC no Estádio Juvenal Lamartine.
O Náutico impediu o hexa (seu luxo e sua exclusividade), acabando o reinado do Santa Cruz, mantido pelos dólares do inglês James Torp. Torp e a mulher, Carmen, até hoje são reverenciados pela Velha Guarda do Santinha de Givanildo, Luciano Coalhada e Betinho.
Chegava ao crepúsculo a Academia do Palmeiras que decidiu comprar Vasconcelos para o lugar de Ademir da Guia, o Divino Mestre. Jorge Mendonça foi como contrapeso. Deixou Recife trocado por Toninho Vanuza, esquecido nos arquivos.
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Vasconcelos sentiu a responsabilidade da camisa 10 e da força de Ademir da Guia, o melhor jogador do Palmeiras em todos os tempos, o falso lento em ritmo de samba de Adoniran Barbosa. Hábil e veloz, era a contradição de um estilo que havia virado mantra nos corações seduzidos pelo antecessor. Vasconcelos terminou ídolo chileno, dando shows pelo Palestino.
Jorge Mendonça assumiu o trono sem caprichos e uma gana de goleador implacável. Sua colocação desnorteava zagueiros, suas arrancadas em toques curtos e fintas desconcertantes sentavam marcadores. Parecia cabecear com mira telescópica.
Tornou-se o astro e o artilheiro do time campeão em 1976 e que passaria 17 anos em jejum. Jorge Mendonça resistia a todas as tempestades e à turba de corneteiros italianos que sempre rondou o Parque Antártica.
Sua ideologia era o futebol-arte e imponente como na própria letra do hino do Verdão. Barrou Zico na Copa da Argentina. Em seu último ano pelo clube, em 1979, formou com Pires e Mococa um meio-campo que humilhou o Flamengo do Galinho Zem pleno Maracanã numa goleada de 4×1.
Jorge Mendonça fez o primeiro e armou os outros três. Parou no Internacional de Paulo Roberto Falcão, tricampeão invicto. O técnico do Palmeiras era Telê Santana. O óbvio ululante da magia e da graça no futebol brasileiro.
O homem sem medo de atacar, de buscar o gol, de ousar acima do medo nunca deixou de ser, na contramão dos seus conceitos ofensivos e ilusionistas, um turrão, um teimoso e um centralizador. Telê Santana foi o melhor técnico brasileiro e discípulo de Zezé Moreira, seu mestre, na intolerância.
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Jorge Mendonça era o malandro criado em Bangu, na escola do bicheiro Castor de Andrade. Vedete e rebelde. Artilheiro sensual, de cortes precisos e tabelas área adentro. Não gostava de treinar. Reclamou de Telê. Foi posto à venda.
Veio o Vasco da Gama e o comprou, para fazer dobradinha com Roberto Dinamite, repatriado do Barcelona e outro perseguido por Telê. A dupla não deu certo. Lá se foi Jorge Mendonça ao Guarani, trocar versos com Careca, que entendia o seu idioma.
Foi artilheiro do Brasil em 1982. Telê, técnico da seleção, vingou-se na paciência e frieza dos mineiros. Não o levou à Copa da Espanha. Seguiu viagem Renato “Pé-Murcho”, meia-atacante que não sabia chutar. Renato fez três gols em 22 jogos oficiais de camisa amarela. Média de lateral-direito para o reserva imediato da máquina de estufar redes, Zico.
Jorge Mendonça sentiu o baque. Foi abatido em pleno vôo-solo. Definhou. Vagou por times sem tanta expressão. Emagreceu, passou a beber demais, perdeu o que tinha, o destino lhe tirou até o amor da família.
Morreu do coração, numa primeira quinzena de fevereiro de 2006. Pouca gente lembra dele. Tinha que cair na grande área da morte por ataque cardíaco. É que nas suas veias corria sangue puro, de peladeiro brasileiro nato.
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Estátua
A diretoria do Flamengo, sucessora da presidenta Pat Barraco, vai inaugurar a estátua de Zico na Gávea dia 2 de março, véspera dos 60 anos do maior gênio brasileiro da geração Pós-Pelé. Estátua é justa e até redundância para Zico, escultor das obras mais lindas da minha geração.
livro
O professor Geraldo Batista, menino de Acari , vigilante da cidade e seus personagens, concluiu seu novo livro. Num raro ato de irresponsabilidade, entregou a mim a tarefa de escrever o prefácio. É uma honra e missão de fuzileiro naval norte-americano.
Bons de bola
Bom papo ontem, num shopping (onde vou apenas quando por necessidade), com Scala Júnior e Helinho, dois monstros do futsal da década passada. Scalinha, filho do maior zagueiro que o Rio Grande do Norte já viu, chegou à seleção italiana. Helinho, meia talentoso no gramado, jogou no Santa Cruz e na Votorantim(PE), time histórico. Hoje é executivo no setor privado.
Bolívia
A polícia boliviana não vai deixar barato com os assassinos do menino de 14 anos no jogo do Corinthians contra o San José pela Libertadores. Chance universal de apagar a escória do meio do futebol.
mossoró
Passei por Mossoró e a cidade no clima típico dos anos 1970. Tudo gira em torno do clássico Potiba de amanhã. É bom ver Mossoró renascida no futebol.
motivação
Potiguar e Baraúnas receberam apoio da prefeita Cláudia Regina e estão motivados. Pena que o Estádio Nogueirão não possa receber o público merecido. Apenas 4.500 ingressos serão vendidos por medida de segurança.
caiu
Ricardo Moraes, ex-superintendente do ABC com poderes de generaleco de republiqueta, não é mais técnico da Inter de Limeira, da Série A3 do Paulistão. Deixou o time na Zona de Rebaixamento(nenhum ponto). Substituído por Catanoce, ex-jogador do Juventus(SP) e Corinthians(SP). É letal a Lei do Retorno. Fez aqui, paga aqui.


