Doces nanicos – Rubens Lemos

Cinquentões e coroas saradas da cidade ensolarada: como era bom ver nossos doces pequenos em suas guerrilhas inúteis e românticas…

Cinquentões e coroas saradas da cidade ensolarada: como era bom ver nossos doces pequenos em suas guerrilhas inúteis e românticas nas preliminares da vida aldeota dos anos 1970. Fanático chegava ao estádio pouco depois da boia encontrar refúgio no estômago, sol impiedoso. Veteranos recorrentes e peladeiros boçais se misturavam em bailado pobre de estética e telúrico pela persistência.

ABC e América brigavam na disputa invariável no topo, o Alecrim na conformação do terceiro da varanda e no subsolo, um quadrangular de Vuco-Vuco, antigo reduto de quinquilharias da cidade permitida a todos.

Eram Riachuelo, o time da Marinha, o Ferroviário, da Refesa, o Força e Luz, da empresa estatal de energia elétrica e o Atlético, rubro-negro como um Flamengo do proletariado, mantido por um mecenas, Adelino Marques, e chamado de Moleque Travesso pelas bicadas ocasionais nos grandes.

Depois de mais uma rodada tenebrosa com ABC e América frustrando suas torcidas na Série B, decido me recolher, me consolar no passado guardado no meu baú. Tesouro sem cadeado e acesso permitido apenas ao dono. Papel velho que não guarda pecado nunca gera cobiça. Ninguém se interessa pelo que tenho de mais precioso: meu tempo. O tempo que agora, depois dos 44 e o corpo cobrando a fatura, desejo de volta nem que seja em sonho.

Ponho máscara de pano para evitar alergia, vou buscando folhas mortas. Parando a cada uma e lembrando seus personagens, aqueles que foram manchete, escreveram as notícias e estão mortos, me deixando no imenso barco obsoleto, barco sem mar para navegar.

Encontro uma ficha técnica deliciosa de saudade. De história. De lembranças do meu pai, que vivia aquele dia 1o de setembro de 1974. Só três anos depois seria apresentado à atmosfera sedutora do futebol.

Campeão com o Vasco em 1977, quando o Vasco honrava o nome e vice com o ABC, América de Marinho Apolônio destruindo o time do mito Danilo Menezes, menino segurando o choro para não fazer vergonha na frente de um bando de homens irreverentes numa cabine de rádio.

Menino vendo um sururu campal, ABC querendo descontar no braço ou nos golpes de karatê do zagueirão Pradera, o futebol que lhe faltara para fazer a Frasqueira feliz. Uma briga tristemente memorável que pôs o Estado pela primeira vez no Fantástico.

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Estou lendo a súmula de Força e Luz 2×1 Riachuelo, há 40 anos. Jogo isolado no gigante da Lagoa Nova, no Castelão (Machadão) que me foi arrancado à força dos olhos e do coração. Estádio com 110 testemunhas. O Castelão tinha capacidade oficial para 55 mil pessoas quando efervescia a geral ecumênica.

Imagino o vazio de uma imensa basílica ocupada por apenas um homem de fé em oração penosa. Foram 110 fanáticos ou desenganados espalhados pelos compartimentos do templo, mais os 22 obstinados em campo, o trio de arbitragem, o delegado da partida, o árbitro reserva, dois ou três policiais, um vendedor de picolé, no máximo dois bares funcionando no prejuízo.

O Força e Luz havia montado um bom time, dinheiro injetado pelo Governo do Estado numa ação de propaganda e de aproximação popular pelo futebol. A Ditadura rugia feroz naqueles tempos.

O goleiro do “Time Elétrico”, segundo o padrão radiofônico do jornalismo, era Erivan, legenda do ABC. Vinham Gena, Oscar, Emídio e Olímpio, miolo de zaga e lateral-esquerdo contratados depois pelo América, para onde foi o aguerrido volante Zeca, autor do primeiro gol aos 26 minutos do primeiro tempo. Ademir e Modesto completavam o meio-campo;

Almir era o ponta-direita e dois famosos fechavam o ataque: Edivaldo Araújo, que veio para o ABC em 1970 jogar com Alberi e Marinho Chagas e voltaria em 1975 para ser artilheiro e o ponta-esquerda Ivanildo Arara, falecido este ano em Recife, o melhor que vi jogar em Natal. Pelo América.

O Força e Luz era mais time naquela quarta-feira sombria e com o povo em casa vendo a novela Fogo Sobre Terra, escrita por Janete Clair com Regina Duarte ainda namorando o Brasil inteiro.

O Força e Luz fez 2×0 aos 30 minutos do segundo tempo com o meia Élson, que substituiu Ademir. Elson jogou no ABC e no Alecrim, campeão nos dois, no abandonado patrimônio cultural Juvenal Lamartine, teatrinho de arena da bola semiamadora. O Riachuelo, imitando os bravos guerreiros da batalha inspiradora, lutou, fez gol com Nilo, mas perdeu de 2×1.

O time azul berrante mantido pela Marinha veio com Valcir; Preta, o simplório e batedor lateral do ABC do Tetra/1973, Manuel, Josemar (veterano alvinegro do timaço de 1970) e Santana, substituído pelo ex-americano Pimentel; Francisquinho, Gonzaga e Jaime, que saiu para Marreco, uma espécie de protótipo torto do padrão de jogador de preliminar. Elmer, Nilo e Juritinga fecharam o ataque.

Saudade dos nosso quarteto brioso, que apanhava sem reclamar nem apelar para a violência. Um foi morrendo e puxando o outro, numa sequência triste e fluvial. Na política, nanico é perda de tempo e gambiarra democrática. No futebol, nanico é lembrança. Doce como um caldo de cana tomado no intervalo da pelada.

Pimpão agredido

Pimpão é o personagem da semana. Pimpão faz gols e é franzino. Foi agredido pelo companheiro de ataque, Max, uma Pedra Humana que caiu no conceito de Passe Livre. Max sofreu tanto na vida que ficou viciado em punição. Dupla atacante sempre foi sinônimo de parceria, de cumplicidade, de complemento um do outro.

Punição exemplar

Exemplar o América na punição ao atacante Max.

Agonia

Preocupados com a Copa do Brasil, onde o bicho é alto, jogadores de ABC e América vão torturar seus torcedores outra vez, para escapar do rebaixamento.

Horrível

Por pior que tenha sido, o Força e Luz 2×1 Riachuelo mencionado no texto de abertura terá sido muito melhor que Bragantino 1×0 ABC. Nada contra Somália. Mas a camisa 10 não combina com ele. Fica estranha a moganga.

Quem vestiu

A 10 do ABC vestiu Jorginho, Danilo Menezes, Alberi, Marinho Apolônio, Zezinho Pelé, Sérgio China, Sérgio Alves, Geovani, Geraldo, Nildo e Cascata. Dá pra comparar? Dez vezes, não.

Não existe 10

No ABC, nem Xuxa, nem Rogerinho ou Júnior Timbó, pelo que está jogando, merecem usar a camisa 10. O segundo turno vai impor tranquilizantes.

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