Dock Street Walker, a cerveja produzida com cérebro de cabra

Inspirada em "The Walking Dead", cerveja foi lançada no domingo. Viciado na série, criador afirmou que "adoraria" usar cérebros humanos na produção, mas diz que "passaria um pouco dos limites"

Coloração avermelhada é para lembrar sangue. Foto: Divulgação
Coloração avermelhada é para lembrar sangue. Foto: Divulgação

Dizem que o temido (e idolatrado) apocalipse zumbi vai se espalhar pelo planeta de forma exponencial em uma velocidade inimaginável. Se a infestação dos mortos-vivos realmente vai acontecer, não há como saber. Por outro lado, é impossível negar a febre em torno do tema, algo em grande parte causado pelo sucesso da série “The Walking Dead”.

Assim, não demorou para se tornar viral a notícia de que uma cervejaria norte-americana estava para lançar uma bebida inspirada na série, e produzida com um macabro ingrediente: cérebros de cabra. A novidade instigou amantes de cerveja, da série e, curiosamente, precisou rodar o mundo e passar pelo Brasil antes de chegar até este jornalista, que mora a quatro quadras da Dock Street Brewery, na região oeste da Filadélfia, nos Estados Unidos.

Aceitei o “desafio” de ir até lá no último domingo, data do lançamento da Walker e do último capítulo da 4ª temporada de “The Walking Dead”.

Uma chuva moderada, porém, incessante desde as primeiras horas do dia anterior normalmente é a água no chope de qualquer evento, mas, neste caso, até contribuiu para o clima do lançamento da cerveja. Como quem se abriga do perigo dos mortos-vivos, cervejeiros declarados se aglomeravam no pub da Dock Street, instalada em um casarão de arquitetura vitoriana, antiga estação do corpo de bombeiros de West Philly.

O lugar nem precisou de uma decoração especial. Totalmente rústico, com pé-direito alto, balcão e mesas simples, o pub mantém os azulejos brancos – já amarelados pelo tempo – da época da estação de bombeiros, enquanto grande parte da iluminação vem do fogo do forno a lenha, onde são preparadas pizzas tão aclamadas quanto as cervejas. Não é difícil imaginar o local como um abatedouro ou com sangue espalhado pelas paredes após uma onda de ataque zumbi, o que, de forma alguma, é um aspecto negativo.

Depois de saborear uma IPA de centeio, especialidade premiada da casa e minha preferida, parti para a estrela da noite. Sou um cara de gostos simples, nem sempre disposto a me arriscar com o paladar. E apesar de não ser algo digno de um programa de Bear Grylls ou de uma prova de reality show mediada por Zeca Camargo, confesso ter sentido certa apreensão ao ver o copo sendo preenchido pelo líquido escuro, levemente avermelhado.

Também não sou um especialista em cervejas artesanais. Sou um pouco avesso às intermináveis discussões de botecos sobre a madeira dos barris ou se a cevada é colhida desta ou de outra forma. Mas gosto da bebida o bastante para estar levemente por dentro dessas sutilezas e, desde que me mudei para a Filadélfia, raramente opto por algo que não é produzido por microcervejarias da região. Portanto, farei o meu melhor para tentar relatar a experiência, sob o risco de cometer alguns deslizes técnicos. Por outro lado, não é preciso diploma para tomar cerveja, então creio que a análise seja válida.

Stouts raramente são minha escolha no balcão do bar. Apesar de ser apaixonado pelas cervejas mais amargas, não vou até o gosto torrado de algumas representantes deste estilo. Talvez por isso tenha me dado bem com a Walker – que rapidamente ganhou o apelido de “Brain Beer” entre os frequentadores e teve seu nome de batismo levemente deixado em segundo plano.

Como é a cerveja co cérebro de cabra?

A cerveja não tem cheiro, obviamente, de sangue ou esterco – principais odores que vêm à cabeça quando se menciona cérebro de cabra –, mas é indiscutível a presença de um tom defumado e inconfundivelmente orgânico já no primeiro gole. De acordo com a Dock Street, o crédito dessa característica vai totalmente para os miolos dos animais, que foram assados e defumados no forno a lenha da cervejaria antes de serem inseridos no processo.

O teor alcoólico de 7,8% não impressiona perto de outras Stouts, mas a Walker é uma cerveja de apreciação lenta. Embora seja servida em um copo menor que o pint da Rye IPA, levei quase o dobro do tempo para consumir a novidade. O trigo, aveia e cevada selecionados deram uma textura cremosa à cerveja, e a Dock Street adicionou cranberries para dar a coloração avermelhada, quase como sangue. Mas, ao terminar o copo, é o gosto esfumaçado que permanece por bons minutos no paladar.

Não tenho como julgar, dar nota. O que posso dizer é que não resisti e precisei repetir, e escolheria a Walker novamente se estivesse na limitada lista de seis opções do tap do pub. O que não deve acontecer devido à limitada produção de 16 barris e ao seu sucesso entre os presentes ao lançamento.

Operação “undercover”

Em eventos como esse, normalmente há dois caminhos para nós, jornalistas. Entrar em contato com antecedência e combinar entrevistas com os responsáveis no local, ou ir na raça e se virar com o que render. Fui no modo “undercover”, infiltrado e misturado ao público, para não “contaminar” a experiência com os proprietários e seus discursos de “press release” ou receber um tratamento diferenciado.

O que mais gosto dos bares norte-americanos é que os ambientes são convidativos para os que andam desacompanhados. O balcão é sempre a peça principal no ambiente e evita o constrangimento de sentar-se sozinho em uma mesa para quatro pessoas. Além disso, é uma janela ao infinito: nunca se sabe quem estará ao seu lado.

Fiquei lá por cerca de três horas, sempre atento ao movimento para tentar identificar os “cabeças” por trás da ideia da cerveja de cérebro. O site da cervejaria indicava apenas dois nomes como responsáveis pelo projeto: o mestre-cervejeiro Justin Low e Sasha Certo-Ware, representante da empresa.

Para minha decepção, Sasha é, na verdade, um cara, que não estava por ali, ocupado com afazeres do evento. Perguntei então por Justin. Estive a noite toda tentando identificá-lo em meio a dezenas de hipsters, quase todos com potencial para ser mestre-cervejeiro, a julgar pelas barbas e o ar de superioridade. “Olhe para meu dedo”, disse Chris, o bartender, enquanto apontava o indicador para a minha direita.

O “cabeça” por trás de Walker

O mestre-cervejeiro da Dock Street Brewery estava o tempo todo sentado praticamente ao meu lado, apenas com sua noiva entre nós. Eu já havia percebido que o casal era, no mínimo, frequentador assíduo do local, pois conhecia pelo nome as pessoas que nos serviam. Com um baralho em mãos, eles jogavam rouba-montes no balcão, outra pista que me fez ver que algum tipo de privilégio eles tinham.

Aos 29 anos, Low é o norte-americano mais comum que você poderia imaginar. Nada de cabeleira, barbas de 30 centímetros, óculos e roupas de avô ou barriga de chope. Formado em engenharia, ele esperou dois anos por uma vaga para estudar a produção de cerveja no câmpus de Davis da Universidade da Califórnia.

Ele também não parecia muito interessado em “fazer social” e sair colhendo os louros pelo lançamento da cerveja. Não saiu nenhuma vez de sua banqueta para abraçar clientes ou posar para fotos, nem era abordado por pessoas dispostas a parabenizá-lo. Mesmo assim, não hesitou ao trocar de lugar com a noiva para conversarmos depois que me apresentei como jornalista brasileiro. Mais tarde, Low explicou que também estava em uma espécie de “missão undercover”, e que gosta apenas de observar e ouvir a reação dos fregueses com relação à cerveja.

Low é maluco por “The Walking Dead”. Calma, você não entendeu: viciado. O mestre-cervejeiro comentou que tem o hábito de ver a série e depois sair para jogar boliche com a noiva e amigos, e daí surgiu, em uma conversa informal, a ideia de usar cérebros em uma cerveja temática da atração.

Miolos humanos

Com um olhar empolgado, ele contou que adoraria usar miolos humanos no processo, e acredita que até seria possível por meio de doações, mas confessou que “passaria um pouco dos limites”. Em seguida, cogitou usar órgãos bovinos, algo imediatamente descartado por causa do risco da doença da vaca louca. “A próxima opção eram ovelhas, mas minha noiva ama ovelhas, então passamos para as cabras.”

Low estava totalmente empolgado com a repercussão a Walker. Algumas amostras foram enviadas para veículos especializados na última quarta-feira, e foi suficiente para dar início à “pandemia”. Admiradores da Suécia, Índia e grandes mercados cervejeiros como Bélgica e Alemanha passaram a entrar em contato, tentando descobrir como colocar as mãos no produto. E o interesse brasileiro na novidade acabava de entrar para sua lista global.

Igualmente rápida foi a resposta de grupos defensores de animais, que passaram a protestar contra a ideia pelo fato de ser uma suposta crueldade com as cabras. Justin defende-se dizendo que o consumo de caprinos é uma iguaria em diversos países, apenas uma diferença cultural nem sempre compreendida pelo público americano.

A Walker passou por um minucioso processo de análise e levou três meses e meio para ser aprovada pelos órgãos americanos responsáveis. Segundo Low, a ideia era lançar no início da 4ª temporada da série, junto com a “safra” de cervejas sazonais, mas a burocracia atrasou o processo.

Os cérebros foram adquiridos de um produtor local de cabras. O mestre-cervejeiro revelou que foi preciso comprar cabeças inteiras descartadas pelo açougue, portanto, nenhum animal foi abatido apenas para a produção da cerveja. Foram oito, ao todo, com meio cérebro para cada barril.

Mas as críticas não chegaram a afetar o humor de Justin Low, principalmente porque roteiristas de “The Walking Dead” também entraram em contato, querendo saber de sua criação. Algo que, para ele, talvez signifique mais do que o reconhecimento da mídia especializada.

Fonte: IG

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