Dois heróis nacionais

Por Mário Sergio Conti Pelé estava na semana passada do outro lado do mundo, na cidade de Dubai. Tinha um…

Por Mário Sergio Conti

Pelé estava na semana passada do outro lado do mundo, na cidade de Dubai. Tinha um compromisso de negócios, o anúncio do contrato que assinara para ser garoto-propaganda de uma empresa de aviação. Garoto? Com 73 anos, apesar dos cabelos mais negros que a asa do abutre, dos retoques com botox e bisturi, o certo seria chamá-lo de avozinho-propaganda.

Em ambos os casos, a ênfase deve ser posta na segunda palavra da expressão: propaganda é só o que Pelé faz há 40 anos. Desde que saiu do Santos, ele ganhou centenas de milhões de dólares em publicidade, atividade à qual já se dedicava antes de parar de jogar. Seria como se Gisele Bündchen abandonasse o batente e, nas quatro décadas seguintes, ganhasse milhares de vezes mais que nas passarelas.

O ano é de Copa, e ainda por cima no Brasil, e o avozinho-propaganda está a mil. Anuncia xampu anticaspa, supermercado, café, escova de dente, banco, aparelho de barba, automóvel, relógio de pulso, operadora de telefones, sanduíches de fast-food, quinquilharias esportivas, a Confederação de Agricultura e Pecuária e até o governo, que o nomeou embaixador honorário do Brasil na Copa.

Só a função de embaixador não é remunerada. Pelas outras, a empresa de publicidade globalizada que o representa, a Legends 10, cobra na forma da lei. Pelé, cuja marca foi avaliada em mais de R$ 600 milhões, cobra mais de R$ 2 milhões de reais por campanhas no Brasil. No exterior, o preço dobra. A chave da sua permanência no negócio é a propaganda de si mesmo.

Toda vez que abre a boca em público, ele se autoelogia. É sócio de uma revista em quadrinhos chamada “Pelezinho”. Há um aplicativo com seu nome e apodo, Rei do Futebol. Arrecada verbas mundo afora para produzir um filme que contará a sua infância. Divulga um livro de luxo com fotografias de sua vida que custa R$ 3.600.

A gente ri do seu cacoete esquizofrênico de referir-se a si mesmo como duas pessoas, Edson e Pelé. Mas é isso mesmo, entende? Edson é o homem de negócios frio que, no ano passado, se irritou com os protestos de rua e disse que os manifestantes deveriam tão somente aplaudir a seleção.

Pegou mal. Na pequenina Três Corações, onde nasceu, a sua estátua na praça central foi amordaçada. Puseram-lhe um cartaz no pescoço com a inscrição “Pelé não me representa”. Os marqueteiros de Pelé perceberam que o ânimo nacional era bem outro e Edson se desdisse no dia seguinte: “Sou 100% a favor desse movimento pela justiça”.

Para dar credibilidade à reviravolta retórica, revelou que boicotara a Copa de 1974 para protestar contra a ditadura. O segredo estava tão bem guardado que nem a ditadura soubera do boicote. Passaram-se alguns meses e ele se desdisse outra vez: “protestos políticos não deveriam ser permitidos de novo” na Copa.

Apesar de o contrato de Edson com a Talents ir até 2040 (ele é um otimista: estará com 100 anos), o grosso da rentabilidade da sua marca terá de ser auferido no máximo até as Olimpíadas. Depois disso, a previsão é que Pelé e Edson venham a se aproximar cada vez mais, entende?

Edson vive hoje da imagem de Pelé, dos seus gols e dribles que podem ser vistos a qualquer hora na internet. O apelo dessas imagens, porém, tem limites. Outros craques surgiram e outros virão. O novo atrai mais que o antigo. Daí, talvez, o afã de Edson de botar Pelé em todas.

Além do quê, o avozinho-propaganda precisa urgentemente de dinheiro. No mês passado, a Justiça ordenou que pagasse uma pensão de sete salários mínimos para dois de seus netos. Serão R$ 5.000 para cada garoto, uma fábula. Eles são filhos de Sandra Felinto, a filha “ilegítima” do jogador que morreu em 2006.

Em “Galileu”, Brecht escreveu: “Pobre do povo que não tem herói”. O Brasil tem dois, Pelé e Edson. (MSC, na Folha)

 

Recurso
A defesa da governadora Rosalba Ciarlini varou a madrugada na expectativa de um mandado de segurança no TSE, em Brasília. O recesso significa que a querela será julgada no sorteio do plantão, e também significa que não mais será Laurita Vaz.

No cafezinho
O vice-governador Robinson Faria estava na loja Kopenhagen, da rua Trairí, em Petrópolis, quando recebeu a mensagem via WhatsApp do julgamento no TRE. Saiu discretamente e foi para a casa no condomínio Porto Brasil, onde passa o verão.

Provocação
O deputado estadual Fernando Mineiro (PT) usou a rede do Twitter para tripudiar com o DEM, cobrando uma declaração do senador José Agripino sobre a cassação de Rosalba. Chamou-o de “pavão no plano federal” e “avestruz no plano estadual”.

Encontro
Será que o deputado Henrique Alves irá informar oficialmente hoje, ao presidente do PT, Rui Falcão, de que o PMDB potiguar não quer formar chapa com Fátima Bezerra de senadora? Ou o petista trouxe algum recado de Lula que mudará o azimute bacurau?

Fernando
Mesmo com o nome de Henrique subindo nas apostas e na esperança das bases do PMDB como o melhor nome para disputar o governo, o parlamentar parece mesmo decidido a decretar que o empresário Fernando Bezerra será o candidato.

E se…?
Um importante amigo dos Alves teria tido o seguinte diálogo com Garibaldi Filho: “E se Fernando Bezerra não se viabilizar, mesmo assim você e Henrique não topam a candidatura?”. Resposta: “Não. Se isso acontecer, vamos tentar trazer Robinson”.

Os Alves
Um livro fora do circuito comercial das livrarias provoca barulhentas conversas na cidade. É “A Botija – A Bolsa da Família Alves”, escrito a quatro mãos pelos jornalistas Paulo Augusto e João Eudes. Na capa, Alfred Neuman fantasiado de Garibaldi Filho.

Rinaldo Reis
O Procurador-Geral de Justiça do RN concedeu entrevista de 50 minutos, ontem à noite, ao Portal No Ar, sem esquivar-se de nenhum tema que normalmente tem irritado alguns promotores públicos. Rinaldo estava acompanhado do jornalista Edilson Braga.

Rodada dupla
Evidente que os jogos América x Confiança e ABC x Alecrim não valem o preço de ingresso dos grandes shows musicais que está sendo cobrado. Quem for à Arena das Dunas, estará pagando caro pela novidade e pelo conforto do novo estádio de Natal.

Escândalo
O esquema de lavagem de dinheiro na compra de Neymar provocou ontem a renúncia do presidente do Barcelona, Sandro Rosell, que já fez as malas para os EUA. O pai do jogador poderá entrar na mira da Receita Federal e da Justiça espanholas.

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