Don DeLillo tem sua primeira compilação de histórias lançada no Brasil

"O anjo esmeralda" traz nove narrativas cujas obsessões por imagens e episódios aparentemente casuais atordoam o leitor

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Don DeLillo forma com Philip Roth e Saul Below uma espécie de Santa Trindade da literatura contemporânea norte-americana. Se estes liberam influências judaicas em seus escritos, aquele vem de uma tradição católica, como bom descendente de italiano. Autor de 16 romances, DeLillo teve sua primeira compilação de contos lançada no Brasil. “O Anjo Esmeralda” reúne nove histórias, cujas obsessões por imagens e episódios aparentemente casuais atordoam o leitor – para em seguida, às vezes, dias depois, revelarem percepções sobre dor, fé, preconceito, paranoia, humor, casamento e por aí vai.

Em “Criação”, um casal de turistas está desesperado com a impossibilidade de ir embora da paradisíaca ilha de Barbados, no Caribe, onde passaram dias de sombra e água fresca. A relação esfriou e os voos lotados, funcionários impassíveis no aeroporto e gastos excessivos de táxi para sair do hotel distante, situações descritas de tal forma que requer precauções para leitores claustrofóbicos, reforçam a peleja conjugal. Outra turista, no mesmo aperreio, contribuirá para o desfecho inesperado. Já em “Momentos Calorosos na Terceira Guerra Mundial”, dois astronautas divagam no espaço, enquanto ouvem um rádio que emite vozes de cinquenta anos atrás e observam a vista, “[…} fonte inesgotável de gratificação”.

Escritos entre 1979 e 2011, os contos são divididos em três partes, que obedecem a uma ordem cronológica. A segunda é aberta por “O corredor”. Foi um dos que mais gostei, por tratar de nossa incapacidade de precisar acontecimentos que acabamos de vivenciar. Um homem corre em um parque, quando um carro em alta velocidade sobe num gramado e ejeta um semelhante, que rapidamente pega uma criança que brincava com a mãe. A polícia chega, testemunhas apresentam versões e o atleta amador fica na dúvida sobre os fatos descritos. O mesmo ocorre com Kyle, estrangeira aterrorizada com um terremoto que alertou Atenas, na Grécia. O medo do próximo tremor conduzirá os dias subsequentes.

Aí chega o conto que intitula o livro. A religiosidade e benevolência de duas freiras no coração do Bronx serão provocadas por uma menina que, supostamente, vive nas ruas do bairro nova-iorquino famoso por sua violência. Uma parede grafitada com desenhos de anjos registra as vítimas da chaga urbana. Ambas querem evitar que a alma perdida vire um novo retrato em tinta naquela parede nefasta. “As imagens mentem”, diz Gracie, a mais nova. Mentiras e omissões também predominam em “Baader-Meinhof”, primeiro e incomum encontro de um par em meio a fotografias de integrantes do icônico grupo terrorista alemão. Ele quer bater papo (ou algo mais) na hora do almoço e ela está concentrada nas peças expostas na galeria.

“Meia-noite em Dostoiévski” (2009), “Foice e martelo” (2010) e “A Famélica” (2011) são os contos mais recentes de DeLillo e completam a lista deste “O Anjo Esmeralda”. Achei o primeiro deles o melhor, com dois colegas de faculdade competindo em erudição inútil e admiração por um professor lituano de lógica. Eles expandem a rivalidade intelectual em busca da verdade sobre um homem sombrio, encapuzado com um sobretudo, que cruzam constantemente na rua – para os iniciados no autor russo, o clima é de São Petersburgo. Aos 76 anos, Don DeLillo mostra polivalência, ao escrever pequenas histórias – ele é responsável por grandes momentos da literatura nas últimas décadas, como os romances “Homem em Queda” e, sobretudo, “Submundo” e “Ruído Branco”. O caldeirão de personagens e a originalidade de sua escrita confirmam o barulho que seus lançamentos fazem no mercado.

 

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