Dos cromossomos

Revisados os autos e proclamas da história, tal como foi nesses últimos cem anos, e em que pese a justa…

Revisados os autos e proclamas da história, tal como foi nesses últimos cem anos, e em que pese a justa boa vontade, constata-se, e para grande infortúnio deste povo que é nosso, não mais haver espermatozoides e óvulos que possam, juntos, gerar um líder moderno entre nós. Aqui, no alto destas dunas, no beiço deste rio e deste mar. Casem Tomé e Bebé e sejam eles quais sejam – o rebento não será menos antigo do que todos foram até hoje, por isto estamos condenados à penúria da mesmice.

Basta dizer que as duas ou três máquinas familiares que brincam com o nosso futuro discutem até hoje quais deles serão os senadores, os deputados e que tais, enquanto o povo, neste pobre arraial de quase um milhão de almas, se arrancha nas vilas e povoados entre o rio, o mar e os morros, a espera de quem possa retirá-los desse destino atroz a que foram submetidos quando, todos juntos, convictos e poderosos, gritavam nas ruas que tudo seria reconstruído para o avanço desta nova Cartago em ruínas.

Nunca fomos uma potência, como a Cartago antiga. Nem dominamos o Mediterrâneo, por onde navegavam todas as ambições e as riquezas do velho mundo. Nem aqui chorou de tristeza um general romano ao vê-la destruída. Choramos nós, os nativos, há quatrocentos anos, desde que os Reis Magos por aqui passaram seguindo a estrela de Belém, levando ouro, incenso e mirra. Foi a nossa primeira e única fortuna dada por mãos livres da ambição e sem as lâminas terríveis da cobiça que viriam depois.

De lá pra cá, creia Senhor Redator, a vida nesta aldeia tem sido de promessas tão vis que quase sempre se transformam em blasfêmias. Se merecemos a chegada nas águas do rio da imagem de Nossa Senhora da Apresentação avisando que nada de mal nos aconteceria, hoje, pobre e podre, esse mesmo rio escorre como um fio de merda, mas cumprindo seu destino glorioso de se abrir em delta, e abraçar o mar. Ali, na ilharga da estrela de pedra e cal da Fortaleza, no encontro das águas doces e salgadas.

Nossa glória, pois, ficou no passado, de perto ou de longe. Se antes resistimos aos portugueses, franceses e holandeses, e se não dos amesquinhamos diante de Jacob Rabi, aquele diabo louco, e tantas foram as lutas, agora veio o desânimo a corroer nossas almas antes cheias de destemor. De tudo, nada restou além de um camarão no nome. Só a pobreza de um povo que tem dor sem ter quem cuide das feridas; que sente medo, sem que lhe apascentem a carne; que sofre sem ter quem lhe fale ao coração.

E posto que Mateus proclamou, desde a Biblia, há mais de dois mil anos, que a carne é fraca, mas o espírito está sempre preparado, eis a nossa miséria: não há mais esperança a nascer aqui, entre cajueiros, mangueiras e mangabeiras, mesmo entre manguezais. Um filho pródigo que imune ao brilho do níquel e limpo do azinhavre das burras oficiais, venha para erguer o grito de luta em defesa do seu povo, hoje decaído na orfandade dos próprios gemidos. Como se a rendição fosse seu único destino.

 

GRANA – I
Fica provado que não falta dinheiro na Prefeitura de Natal para suprir de insulina todos os seus postos de saúde: no carnaval será gasto R$ 1,2 milhão com frevos e furdunços, bandas, blocos e papangus.

ORA, – II
Se o SUS falha há cinco meses e se há diabetes, principalmente em crianças que já nascem condenadas pela doença, é hora então de mandar comprar insulina com base no decreto de calamidade do prefeito.

ALIÁS – III
O secretário Cipriano Maia, da saúde, especialista em Sistema Único de Saúde, é remunerado como servidor graduado para cuidar da vida e não para inventar justificativas ou tentar explicar o inadiável.

PANTIM – I
Convenhamos: é sonsa a dúvida exposta pela deputada Márcia Maia quanto ao lugar do PSB na chapa majoritária. Sabe. Só quer com o PMDB; só serve a vaga do Senado e para a sua mãe, Wilma de Faria.

ALIÁS – II
Foi também assim há pouco mais de um ano quando esta coluna informou em primeira mão que o PSB indicaria a ex-governadora Wilma de Faria para vice de Carlos Eduardo Alves. E não deu outra coisa.

TÁTICA
Pode ser um erro da deputada Fátima Bezerra nacionalizar a decisão da aliança do PT com o PMDB. Impõe um cabresto vertical que não funciona. É o coronelismo político com o nome de entendimento.

JAIME
Já está nas livrarias de Natal o livro de Thaisa Mendonça – ‘Jaime Hipólito Dantas, um mossoroense de fora’. O menino de Caicó, promotor, estudante no País de Gales e o contista premiado nacionalmente.

DATA
Em maio deste 2014 o jornalista Djair Dantas Pereira de Macedo faria 70 anos. Ele foi, no seu tempo, o talento que minha geração perdeu precocemente e a quem dediquei meu primeiro livreco de crônicas.

PEIXE
De Patrícia Abravanel respondendo ao seu pai, Silvio Santos, como foi arranjar um namorado político:
‘Caiu na minha rede e eu pesquei’. O deputado Fábio Faria mostra, como peixe, que é bom fisgá-lo.

FRASE – I
Um leitor desta coluna, de olhar sábio e certeiro, notou que a frase transcrita aqui e citada pelo cônego José Mário de Medeiros não estava acompanhada do seu autor original. E registrou a omissão injusta.

AUTOR – II
Na verdade, o cônego por ter citado o autor, empresário norte-americano Harvey Mackay, e o cronista não ouviu. Informa ainda a fonte, que é o autor do livro ‘Nadar com os tubarões sem ser comido vivo’.

ALÉM – III
Do reparo elegante, o leitor acrescenta que a frase é muito citada pelo padre Roque Schneider, jesuíta gaúcho editor da revista Mensageiro do Coração de Jesus no programa de TV ‘Momentos de reflexão’.

PERGUNTA
Qual é a homenagem que será prestada à memória de João Machado nos cem anos do seu nascimento, neste 2014, se derrubaram o Machadão que tinha seu nome, sepultando sua presença viva no esporte?

POESIA
De Gregório Duvivier em ‘Palavras Úmidas’, do seu livro ‘A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora: ‘Cuidado, meu afeto quando / bêbado transborda / o limite das mãos / e do braço e jorra em palavras / úmidas e beijos na boca / e ao rés da nuca’.

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