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Dos egos flamejantes

Data: 18 janeiro 2013 - Hora: 18:00 - Por: Vicente Serejo

Nada, Senhor Redator, como um bom conhaque e um bom charuto para tanger as horas mortas dos dias e das noites. Mesmo quando a conversa descamba, como numa tarde dessas, para o choque de egos. Longe, num sítio derramado às margens de uma lagoa, cuidávamos de cultivar nossos medos da inveja de intelectuais conterrâneos. É bem mais seguro e melhor ser um tipo comum, mais ou menos em tudo, do que desafiar a vaidade dos que se julgam ungidos pelos deuses e soprados pelos orixás.

Foi então que citei, de memória, a existência de uma carta de Mário de Andrade desancando a figura de Villa-Lobos. Posto em dúvida diante das expressões que ainda lembrava, no dia seguinte fui à estante dos modernistas. Encontrei: está mesmo transcrita no livro ‘O Canto do Pajé – Villa-Lobos e a música popular brasileira’, de Hermínio Bello de Carvalho, Espaço e Tempo, Rio, 1988. É muito longa. É impossível transcrevê-la, mas alguns trechos contundentes já revelam os egos flamejantes.

A carta de Mário de Andrade, datada de São Paulo, 20 de janeiro de 1933, há exatos 80 anos, é dirigida a Prudente de Morais Netto que nos artigos usava o pseudônimo Pedro Dantas. E tudo começa com uma pergunta que faz a Mário sobre o Quarteto Brasileiro n. 5, de Villa-Lobos. Logo na segunda linha, Mário cita o grande compositor e maestro com um ‘já não me é penoso falar nesse cachorro’ para acrescentar, como um bom esteta, um declarado elogio ao que chama de ‘quarteto bem brasileiro’.

Decepcionado desde antes, Mário afirma no segundo parágrafo: ‘Pouco antes da Revolução de 30, o Villa-Lobos que, aliás, com certa discrição, já lambera o cu de Carlos de Campos, dedicava um concerto a Júlio Prestes. Nem bem a revolução venceu, esse indivíduo publicou uma entrevista de insulto aos vencidos, dizendo que fora revolucionário desde 1500 e até compusera um hino da revolução que a polícia carioca proibira’. Para logo a seguir chamá-lo de amoral, canalha e nojento.

Ora, Senhor Redator, não é uma discussão entre idiotas vaidosos. Mário de Andrade desanca Villa-Lobos numa carta a Prudente de Morais Netto, dois grandes ícones a um dos mais importantes jornalistas e críticos do modernismo. Carta que foi localizada pela professora Flávia Camargo Toni e cedida a Hermínio Bello de Carvalho que transcreve na íntegra no capítulo sobre as relações de Mário e Villa-Lobos, lamentando o duro silêncio entre os dois até a morte de Mário, em fevereiro de 1945.

Não são menores, desastradamente, os conflitos de egos nos dias de hoje. Aqui ou Paris, Dubai ou Adis Abeba, em toda parte eles são sempre assim. Intelectual gosta de exercer cargos nos governos. Precise ou não. É, para seu ego flamejante, a rara consagração. Só uma coisa ele consegue curtir mais: fechar a porta a quem não gosta. Com ar triunfal e rancoroso, salivando pelos caninos. Nada satisfaz mais um ego intelectual do que a vingança. E quando bem urdida, é de um intenso e sombrio prazer.

 

ALAMOA
Câmara Cascudo é citado na matéria sobre as lendas da ilha de Fernando de Noronha. No caso, a lenda da “Alamoa’. Mas, a revista Continente não esquece da sua fonte mais antiga que é Pereira da Costa.

ALIÁS
Os Clowns de Shakespeare também estão na Continente de janeiro com destaque para Ricardo III e agora o Hamlet, nova estreia nacional. São cinco páginas ilustradas e a consagração em grande estilo.

MODOS – I
Caixa Econômica Federal recomenda a turistas brasileiros nos Estados Unidos: ‘Manter roupas limpas – seus sapatos idem – e 33 centímetros de distância sempre que conversar com um norte-americano’.

ONDE – II
As dicas – um retrato perfeito da alienação idiota dos brasileiros – estão na página da Caixa Econômica na Internet. O manual, tal é sua cretinice, também recomenda não esquecer ‘com licença’ e ‘obrigado’.

GARANTIA
Temendo ser a acusada pelos leitores de vender gato por gata, a Playboy exigiu de Ingrid Migliorini, a moça que leiloou sua virgindade, um atestado internacional de sua pureza. E publicou um fac-símile.

RUÍDO
‘Os uso e abusos que as redes sociais fazem daquilo que se chama de literatura’, é o tema de capa do suplemento cultural do Diário Oficial de Pernambuco. A entrevista da edição é com Marcelino Freire.

POESIA
Da poetisa Nassary Lee que ainda este ano lança seu primeiro livro de poemas depois de vencer vários concursos poéticos: ‘E os barcos, nos medos, viram como o renhir do não das virgens quando gozam’.

PÓ? – I
Das duas uma: ou a decadência da bacia leiteira do Estado começa a acontecer; ou, é pior: o governo erra ao autorizar a compra de leite em pó ao invés de incentivar a compra do leite direto ao produtor.

CAOS – II
Pior do que ser despejada por falta de pagamento, como no caso da Secretaria de Turismo do governo, é uma secretaria de turismo ocupar o Centro de Convenções, único espaço dos grandes investimentos.

SIM – III
Tem, sim, coisa mais grave: a Divisão de Polícia do Oeste foi despejada na terra da governadora por falta de pagamento do aluguel. A agenda negativa do governo é o deputado de oposição mais atuante.

OU – IV
Talvez não tenha nada mais grave do  que matar vidas humanas. A não ser gastar tempo e dinheiro para reservar previsão orçamentária de 220 mil reais para flores. Mesmo que não venha a gastar isso tudo.

ALIÁS – V
É fácil medir a ineficácia dos nossos gestores públicos: é só reunir entrevistas, fotos, vídeos, pareceres técnicos e laudos sobre o calçadão de Ponta Negra desde o primeiro dia do longo e inútil blá-blá-blá.

AVISO
Começa o assembleísmo com instalação do Fórum Permanente da Dengue. Como se dengue precisasse ser discutida e não enfrentada. Tomara que não seja um ranço petista. Palavras não matam mosquitos.

PAUTA
Por falar em palavras, o governo pode deixar para ano que vem o fortalecimento dos laços econômicos e culturais que prometeu à simpática embaixadora americana. Há urgências mais graves perto de nós.

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