Dos feios

Tenho reparado, Senhor Redator, que passou definitivamente o tempo dos feios. E se a riqueza, na maioria das vezes, conseguia…

Tenho reparado, Senhor Redator, que passou definitivamente o tempo dos feios. E se a riqueza, na maioria das vezes, conseguia salvá-los, agora a própria riqueza passou a ser o único atributo social da beleza. Nem mais aquele perfume que os intelectuais tinham no passado. Ser pobre é imperdoável, de tão feio, e enfeia como nunca. Basta dizer que outro dia uma dessas dondocas, irritada por alguma razão não confessada, acusou a este cronista, sob um silêncio consagrador, de ser feio e mal vestido.

Não mentiu, devo reconhecer. A beleza fugiu de mim ainda menino, vencido o encanto mágico da primeira infância, e a pobreza vestiu meus ombros para sempre. Não deixou no espólio das minhas esperanças nem mesmo uma velha pelerine de família nobre e decadente para servir de fantasia. E se há um único mérito em ser é assumir a verdade. Melhor que inventar a andrajosa fantasia e cobrir com uma tola e falsa nobreza funcionária pública. A solução foi aceitar ser feliz com a felicidade possível.

Treinado para a sobrevivência, e já passado em anos, não tenho aflições. Nem lamento, como Machado de Assis, deixar às minhas filhas o legado da pobreza – o que certamente há de ser feio para as dondocas – nem a elas, muito menos, vendi o falso valor dos livros velhos e imprestáveis que forram as paredes destas salas. A minha herança, bem ao contrário, foi viver o milagre de merecê-las na alegria de viver. E se herdaram alguma coisa, foram o desejo e a graça de não terem medo do mundo.

Também não questionaria a beleza ou a feiura dos outros. Ora, se a riqueza é bonita e a pobreza feia, paciência. O que se há de fazer? No máximo, juntar os trapos da convivência com o mundo e não cortar os pés nas ostras. Já não tenho idade de enganar a mim e aos outros.

Chega um tempo, de duras descobertas, que ficam proibidos os exercícios de prestidigitação de quando a juventude inventava a festa e fugia da realidade. Agora, a verdade é a terrível madrasta da realidade e dorme no criado mudo.

Nem por isso, Senhor Redator, precisam ser pobres e feios os dias de uma vida sem riqueza. E mesmo que as dondocas não acreditem, atordoadas que vivem com o feio barulho de suas joias quando chacoalham no pescoço, ainda assim há uma alegria de viver. Até para divertir a alma ao vê-las nos seus ademanes e salamaleques. Afinal, as novas preciosas ridículas, como as velhas, aquelas que tanto fascinavam Molière nos salões do classicismo francês, divertem o espírito com a graça ferina da ironia.

Sim, a feiura mata a chance da conquista. Do alpinismo social que salva e consola. Nos feios – e são tantos! – não há, a não ser raramente, a sedução que atrai fortunas, mesmo pagando o preço da escravidão entre cristais. E se às vezes ostentam a liberdade, tão prazeroso é ser livre, nem assim ameaçam. Talvez, muito discretamente, deixem um pouco de inveja nas almas menos favorecidas pelo sentimento do belo. Mas nada que uma dondoca não possa facilmente afogar numa taça de champanhe.

 

ESTILO
A experiência do deputado Henrique Alves desautoriza sinceridade quando confessa ter sido equívoco admitir sua candidatura a governador. É, pode ser. E se Fernando Bezerra acreditou, então, tudo bem…

ANOTEM
O governo pode não iniciar as obras que estão previstas no RN Sustentável que desde a posse tem sido a sua grande terra prometida. Concorrência internacional pede quadros técnicos de alto nível. E não há.

FOLHA
O governo ainda parece enfrentar dificuldades para confirmar o pagamento da folha de pessoal antes do dia 10. O atraso continuaria, a não ser que a arrecadação tenha bons números neste mês de janeiro.

CONVITE
O desgaste da governadora Rosalba Ciarlini, segundo um representante do alto jet, pode ser medido pela escassez de convites de Jacumã. Segundo afirma, no jet os interesses reluzem acima das amizades.

HUMOR
Diálogo de um henriquista e um wilmista num grande alpendre de Jacumã: O henriquista: ‘Vamos e venhamos, dona Wilma não tem grana’. O wilmista: ‘Nem juízo. E quem duvidar que tente enganá-la’.

GRAVE – I
O governo pode enfrentar o último ano de mandato bem diferente do que imaginou com R$ 25 milhões para gastar no marketing de promoção: crise jurídica, seca, folha atrasada e inelegibilidade. É trágico.

PIOR – II
O governo demostra sinais de que sofre da mais grave das reações populares, exatamente a mesma que degradou a imagem da prefeita Micarla de Souza nos últimos meses de gestão: a indiferença popular.

LUTA – I
O cônego José Mário Medeiros ainda não mereceu da Arquidiocese, segundo algumas de suas línguas curiais, como postulador da causa dos santos, o acesso aos recursos financeiros para as suas pesquisas.

MAIS – II
Sem os recursos, sua atuação fica limitada na contratação de pesquisadores junto a arquivos distantes e de depoimentos históricos. E ninguém sabe se falta prestígio só a ele ou também ao padre João Maria.

SHOPPING
Pode ser a construção de um shopping o destino de toda aquela do Colégio Sagrada Família, cobrindo um setor da cidade ainda sem esse tipo de equipamento comercial. E a decisão é demolir até a capela.

IMORTAL – I
Leide Câmara, a nossa pesquisadora da história da MPB no Rio Grande do Norte, a grande biógrafa de Hianto de Almeida, está em campanha para a cadeira 31 da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.

VAGA – II
Leide também é autora do Dicionário da Música no RN e, eleita, assumirá a cadeira que foi ocupada pelo professor Pedro Vicente Costa Sobrinho e como seu patrono o padre Francisco de Brito Guerra.

ATENÇÃO – I
No ‘Jornal Zona Sul’ o professor Manuel de Azevedo revela no seu ensaio ‘Sertão de Espinho, de Flor e de Música’ a presença da música na bela poesia de ‘Sertão de Espinho e Flor’, de Othoniel Menezes.

DETALHE – II
A edição original de ‘Sertão de Espinho e Flor’ – Imprensa Oficial, Natal, 1952 – é rara e esgotada, mas está na Obra Reunida anotada e lançada em 2011, bela iniciativa do seu filho Laélio Ferreira de Melo.

Compartilhar: