Dos mal-amanhados

Malvestido, não sei se todos sabem, não é palavra composta. É assim: malvestido. E diz tudo de nós, os mal-amanhados,…

Malvestido, não sei se todos sabem, não é palavra composta. É assim: malvestido. E diz tudo de nós, os mal-amanhados, vítimas dos antolhos ferinos dessa gente chic do jet, intolerante com aqueles a quem o destino não concedeu a fortuna e o prêmio da elegância. E eles nem notam que a elegância há de ser inata, e culpam a pobreza. Os elegantes são elegantes, pronto. Mesmo os mais simples não ferem as regras, ao contrário dos feios e andrajosos que arrastam a sua feiura como se fosse um malassombro.

Nem por isso, malgrado a intolerância com que nos tratam, diria que lhe pesam sobre a alma a pecha de um jet-set que renegam. E não fomos nós, os malvestidos, os inventores dessa maldição. Vem de já antigos torneios sociais entre o pib e o jet, quando os novos ricos acusavam aqueles de um pedantismo sem riqueza. Seria primevo imaginá-los isto ou aquilo com as lentes fortes do dinheiro. Mais exato seria flagrá-los, uns e outros, no ridículo com que exercem a vida como se o milagre de viver fosse tão vulgar.

Pior, muito pior, seria a vida de nós, os mal-amanhados. No entanto, como é possível ser feliz com a felicidade possível, lá vai indo a nossa caravana com esses olhos medonhos que nos foi dado ter e usar ao longo do caminho. Não cometemos o pedantismo do desdém sobre os cães que ladram. Ao contrário, gostamos de ouvi-los. Assim, temos a noção perfeita da nossa própria insignificância e evitamos, se bem postos diante da luta, os sonhos enlouquecidos que se transformam em perigosos e desvairados devaneios.

Eles não acreditam, mas pior do que ser pobre e malvestido é ser um rico vulgar. O andrajoso fere as regras das aparências que são sempre muito mais cultivadas que a verdade. Tanto que Eça de Queiroz, o pobre homem de Póvoa de Varzim, mesmo genial e glorioso, não negou a nudez forte da verdade que foge por entre as réstias do manto diáfano da fantasia. Ele sabia que os véus da vida social encobrem os defeitos da carne facilmente, mas não escondem os vícios da alma mesmo quando calma e comedida.

Aliás, Senhor Redator, parece ser do feitio dessa gente do jet-set, até onde é possível observar, a veleidade de imaginar qualidades que não lhe são próprias para livrá-los do destino medonho de um jeito se ser superficial em tudo. Talvez pelos dons de uma dádiva que, se mereceram, também a perderam no atrito das olimpíadas a que se impõem na vida em sociedade. Raro, pois, é o gesto nascido da grandeza feito da glória vã do desinteresse, numa terra de heróis marotos, de jeitinho esperto e esperteza sonsa.

Talvez venha dos nossos índios essa tolice sempre explorada pelos senhores que nos oprimiram desde antanho, quando lutamos pelos cajus que avermelhavam e amarelavam nossas ridículas ambições. Quem sabe, nos faltou um pouco de Jacob Rabbi, aquele diabo do massacre quando os batavos aqui chegaram para construir nestas dunas uma Nova Amsterdã e até chamavam de Castelo de Kaulen a nossa Fortaleza da Barra do Rio Grande. Então ficamos assim, tolos. De uma tolice alvar que beira a idiotice.

ANOTEM

A Prefeitura empurra com a barriga o enfrentamento da bilhetagem eletrônica. Nisto acaba fazendo o jogo bruto dos empresários de ônibus. Pode acabar gerando um conflito que poderia ser melhor administrado.

MOSSORÓ

Ninguém se iluda: a vitória da oposição em Mossoró, caso a eleição suplementar venha a acontecer, pode se transformar num fato novo com uma festa popular para disparar um novo e forte processo de oposição.

CHAPA

De uma voz saída das entranhas políticas olhando o cenário: ‘Quando o nó é muito escancarado às vezes causa o nojo popular e o povo sabe desatá-lo. Reage em silêncio nos seus grandes comícios silenciosos’.

GRAVE

Gravíssima a acusação feita pela ex-governadora Wilma de Faria de superfaturamento no valor de R$ 30 milhões nos preços da Barragem de Oiticica. O Governo Rosalba Ciarlini deveria explicar ou protestar.

ESTILO

O governo que destaca R$ 6 milhões no RN Sustentável para a cultura é o mesmo que há dois anos não paga o Fundo Estadual de Cultura que criou com as próprias mãos, duas vezes mais que essa meia dúzia.

1964

É indispensável a leitura das quase seiscentas páginas do depoimento de Almino Afonso sobre a queda de Jango. O papel dos chefes militares brasileiros e a presença determinante dos Estados Unidos na trama.

DIÁLOGO

Começa hoje e vai até sexta-feira o II Seminário Internacional Diálogos com Paulo Freire em torno do tema ‘Ensinar, aprender: leitura do mundo e leitura da palavra’. Com reuniões no auditório do IFRN.

JOGO

Enquanto Natal faz festinhas turísticas internacionais na Semana Santa a Gol anuncia um vôo direto de Fortaleza para a Argentina. É que esses pequenos arranjos de promessas acabam flagrados. Facilmente.

CABRAL

A tese de Lenine Pinto sai dos seus domínios e está no livro de Tânia Maria da Fonseca Teixeira: ‘Arraial do Marco: nosso porto seguro’, lançado ontem, atestando a chegada de Pedro Álvares Cabral a Touros.

MEDO

É o tema da edição especial da revista Scientific American que no Brasil circula com o título de Mente e Cérebro. O dossiê reúne oitenta páginas e ouve os maiores pesquisadores em universidades do mundo.

DIREITA

Na edição de abril da ‘Caros Amigos’ o tema é ‘A direita sai do armário’. A revista tenta entender como nos cinquenta anos do Golpe Militar grupos radicais lançam suas faixas pedindo ‘Intervenção militar já’.

ELES

São oito, na Caros Amigos, os que defendem a volta dos miliares: Rachel Sheherazade, Marco Feliciano, Coronel Telhada, Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho, Jair Bolsonaro, Reinaldo Azevedo e Lobão.

SEVERO – I

O pesquisador Willian Pinheiro, concluinte do mestrado de História na UFRN, localizou na biblioteca da Universidade de Harvard um exemplar de Ícaro, o poema de Angelina Vidal dedicado a Augusto Severo.

DETALHES – II

O livro, com 92 páginas, foi editado em Portugal por A. M. D’Oliveira, 1902, em Alcobaça, e além de existir no acervo de Harvard há dois exemplares nas universidades de Nantes, na França, e em Portugal.

Compartilhar:
    Publicidade