Dose de romantismo

O pique dos 17, 18 anos. Que pegara voo de ida há bom tempo, voltou (por segundos) na hora em…

O pique dos 17, 18 anos. Que pegara voo de ida há bom tempo, voltou (por segundos) na hora em que passei os olhos no comercial de bebida da revista Manchete, antiga, de 1990. Volúpia, desejo de quizumba, apego matreiro ao fuzuê. Faz quase três décadas e a criatura ainda parece estar a dois metros de distância, borrada de batom, suada como um centroavante rompedor, sensualidade de um miliciano.

Dançara, durante horas, no rebolado tosco e feiticeiro das legítimas, das mariposas odaliscas no meu currículo soturno e libidinoso. Chegava até a mesa, estirava uma das pernas em vida real, varizes de eletrocardiograma, sem o disfarce do jogo de luzes e arrematava, rainha:

– Meu benhê, me paga uma dose?

Vitórias e derrotas do ABC (empates também), eram debatidos e algumas prorrogações calientes encerravam o domingo de minha turma na, digamos, boate que nem existe mais.

Funcionava na Avenida Airton Senna, Zona Sul de Natal, que não se chamava Senna porque ele ainda vivia e muito bem, ganhando campeonatos e colecionando personalidades impolutas do naipe de uma ex-modelo e apresentadora de TV.

É o máximo que posso dizer, hoje, envelhecido, do alto de minha fidelidade incorruptível. A lei dos jovens rameiros, dos iniciados na zona pelos pais ou colegas mais velhos, sempre foi a da cumplicidade extrema.

Da solidariedade radical. Desconfie, pois, de qualquer sujeito capaz de dedurar alguém que prevaricou pulando da cama oficial para a subversiva. O delator merece a pior das masmorras, seja ele de qualquer espécie.

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Por discriminação cretina, alguns radicais comparavam com as trancas de celas de castigo de presídio,os portões de ferro daquele paraíso aromatizado por cigarros que formavam névoas asfixiantes e perfumes delicados ao padrão Tropa de Choque.

Despeito. Ali era uma maravilha. Fedorenta. Bebíamos até com velhos agentes da Delegacia de Menores, que saíam para cumprir a lei dos homens e nos impedir de viver a delícia dos mandamentos da carne. Fraca, admito.

Santos homens, aqueles veteranos protetores. Compartilhavam de nossa mesa, não pediam as carteiras de identidade e, de tão gentis e prestativos, concordavam com nossos apelos para não dividir a conta e aceitavam sorrindo como adoráveis tios, cédulas de 20 ou 50 cruzeiros, postas no bolso para ajudar na consumação da noitada deles. De quem elas, as musas, não cobravam nada.

Francineide Ursa , Tercilene Dy, Beth Boca de Coturno, Naide Patamo, Maria Couro Grosso, Joyce Faca nos Dentes, Zu Batalhão, Kelly Sete Bogas, Neidinha Sua Flor, Chica Arrebite, Tonheira Focinheira. Barcelona de sertrosas. Leitoras da Revista Contigo, sabiam todos os detalhes das novelas e formavam um coral agudo e desafinafo quando perguntávamos, bêbados, o ator preferido:

– Fábio Júino!

O (mau) cantor e (péssimo) ator Fábio Júnior fazia o papel de um taxista numa novela de estilo mexicano adaptada pelo canal de TV pertencente a Sílvio Santos. Taxistas não faltavam por lá e estabeleciam uma sólida parceria comercial com as meninas, dispensando as viagens para atividades salutares externas em permuta com horas extras sem o taxímetro rodando.

O ambiente de penumbra e o ímpeto natural da idade levava a turma a esticar a noite para tormento de nossas mães. Mal sabiam elas, coitadinhas, que estávamos protegidos por instintos maternos, porém caríssimos aos nossos magros bolsos sustentados por empregos merrecas ou por extensa e paciente poupança de gorjetas repugnantes de familiares.

Entristecia-me passar por aquele lugar logo quando foi demolido. Claro, já não tinha direito de demonstrar. Sou um saudosista afinal, e ver entulhos ocupando o terrenos dos sonhos movidos por bagulhos, sempre doeu no nervo da alma. Pensava no que teria sido feito das nossas salvadoras.

Sempre autênticas, carimbadas, pareciam trazer na testa, em neon, a designação aterrorizante para os hipócritas e puritanos: puara. Encontrei vários desses dissimulados por lá, escondidos e fazia questão de gritar seus nomes. Entravam em seus carros e fugiam em disparada para casa.

A modernização funcional, causada pela crise que atingiu de morte a chamada classe media, gerou concorrência desleal. As mundanas berrantes foram expulsas para longe, algumas jogadas à mendicância. Jovens santificadas, charmosas e bem cuidadas, tomaram a profissão com avidez, algumas pagando estudo particular com o apurado das refregas.

Aprendizado indispensável. No passado. Todo homem era obrigado a cumprir o ritual se não quisesse ser um mimado, um frangote, um rejeitado pela maloca. Estava no sangue boêmio. Sangue rosado, da cor do pecado engarrafado no símbolo maior das esquecidas pelos ingratos de minha geração: O Campari.

Olhe para uma garrafa de Campari, bebida adequada à atmosfera da zona degradante. Parece sair de dentro aquela voz pastosa, cansada, fio de resistência na batalha renhida da luxúria decadente:

– Meu Benhê, me pague uma dose.

 

Contratações

O ABC traz quatro novos jogadores. O goleiro Gilvan parece a melhor contratação. É ágil e voador, lembra o estilo arrojado de Andrey, hoje no América. O volante Liel é um cabeça-de-área e cabeças-de-áreas nasceram sem tempero.

Passe e novos atacantes

Correm atrás dos outros, são destruidores. Bom era o tempo dos volantes, dos homens de passe, de construção. O atacante João Henrique está merecendo críticas injustas da torcida pelo currículo tímido. Mas ainda não jogou para ser avaliado e Dênis Marques, caso queira, pode ser o que Lúcio Curió não foi.

Decisão

Sem nenhum menosprezo, o objetivo do Globo parece ter sido alcançado: a Série D do Campeonato Brasileiro, que será vitrine (modesta) para seus jogadores. O América só perde o Campeonato Estadual se houver uma hecatombe. Se exagerar no rebolado.

Exemplo

É preciso ter cuidado porque o exemplo do ano passado está vivo. O Potiguar comeu pelas beiradas e destruiu o América, contaminado pela soberba. O time rubro estaria a um passo do tri, não fosse a bobeira de 2013.

Datas

Os jogos entre América e Globo serão na próxima quarta-feira (dia 16) e no dia 30.

Bruno e a liberdade

O goleiro Bruno, preso pelo assassinato da namorada Eliza Samúdio, devorada por cães, segundo a polícia quer a liberdade para jogar por um time mineiro. Se diz arrependido. Eliza não teve direito sequer a um túmulo.

Randolfe

Concordo com o senador Randolfe Rodrigues, mesmo ele sendo do PSOL. É vergonhosa a subserviência do Brasil diante da Fifa.

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