Doze dias, 120 mil turistas, um protesto e quatro jogos. Copa do Mundo acaba em Natal

Jogo Itália x Uruguai no Arena das Dunas marca o final da participação da capital potiguar no Mundial

Viaduto-da-BR-JA

Carolina Souza

acw.souza@gmail.com

O sonho virou realidade, mas chegou ao fim. Nesta terça-feira (24), Natal, escolhida pela FIFA como uma das 12 cidades-sede da Copa do Mundo do Brasil, encerra sua participação em uma das competições esportivas mais importantes do planeta. A última partida no estádio Arena das Dunas, realizada entre as seleções da Itália e do Uruguai, marca o final de um grande momento que a capital potiguar vivenciou, em meio à presença de milhares de turistas e autoridades do Brasil e do mundo.

O último jogo do Arena das Dunas teve todos os ingressos esgotados há semanas. O caráter decisivo da partida para ambas as seleções não envolveu apenas os jogadores, comissões técnicas e torcedores dos times, mas também milhares de potiguares, que se colocaram de plantão no site da FIFA diariamente na busca de uma oportunidade para acompanhar o jogo presencialmente. Quem também fez questão de marcar presença no estádio nesta terça-feira foi presidente da FIFA, Joseph Blatter.

Até os turistas mexicanos, que estiveram em peso em Natal no dia 13 de junho para prestigiar a seleção do México contra a de Camarões, decidiram voltar para a cidade, aumentando o público diversificado do estádio para o jogo da Itália e Uruguai. De acordo com informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), 75 ônibus foram escoltados de Recife até a capital potiguar na manhã de hoje, trazendo cerca de dois mil mexicanos.

A PRF é a responsável pela escolta dos ônibus no trajeto de Recife – Natal – Recife, situação pensada para garantir a segurança dos turistas mexicanos e evitar possíveis transtornos na rodovia entre as duas cidades. Após a realização do último jogo no estádio Arena das Dunas, os ônibus retornam para Recife com os mexicanos.

De acordo com informações do Ministério do Turismo (MTur), a capital potiguar chegou a receber uma média de 170 mil turistas durante esse período da Copa do Mundo, considerando o turismo internacional, nacional e regional. Só no jogo dos Estados Unidos em Natal, a capital do Rio Grande do Norte recebeu 20 mil americanos com ingressos em mãos de forma antecipada.

Novo estádio e aeroporto

Para que a capital potiguar se tornasse uma das 12 sedes da Copa do Mundo da FIFA, era necessário um estádio com estrutura maior e mais moderna daquela que existia no estádio João Cláudio de Vasconcelos Machado, o Machadão. A solução encontrada foi demolir completamente tanto o Machadão quanto o ginásio anexo Humberto Nesi, conhecido como Machadinho.

O resultado é o projeto do Estádio Arena das Dunas, com capacidade para aproximadamente 40 mil espectadores. Para a construção do estádio, o Governo do RN investiu R$ 400 milhões de reais, financiados pelo BNDES. A obra foi iniciada em outubro e finalizada em janeiro deste ano.

Além da construção do estádio, o Rio Grande do Norte recebeu investimentos de R$ 480 milhões do Governo Federal para a construção do novo terminal de passageiros da região metropolitana de Natal, o Aeroporto Internacional Aluizio Alves, em São Gonçalo do Amarante.

O terminal, construído com o objetivo de funcionar durante a Copa do Mundo, é o primeiro a operar no Brasil sob a administração da iniciativa privada. Ele entrou em operação no dia 31 de maio, desativando, automaticamente, o Aeroporto Augusto Severo, em Parnamirim. Nesta Copa, o Augusto Severo serviu de base apenas para as seleções e comissões técnicas dos países que jogaram em Natal.

Copa impulsiona a economia potiguar

O Ministério do Turismo reuniu as principais projeções para o setor durante o Mundial. Segundo os dados, cerca de 3,7 milhões de turistas devem movimentar a economia do país até o final da Copa do Mundo, mobilizando cerca de 200 mil trabalhadores temporários e acrescentando R$ 6,7 bilhões à economia do país. Para Natal, foi estimado que os turistas gastassem, ao todo, R$ 311, 5 milhões, considerando transporte, hospedagem, alimentação e gastos extras como, por exemplo, com o artesanato.

As fortes chuvas que caíram em Natal desde o início deste mês podem ter prejudicado as atividades dos setores de turismo e de serviços da cidade. De acordo com Max Fonseca, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-RN), muitos turistas se sentiram ‘anulados’ diante das chuvas. “Conversei com pessoas que vieram à Natal exclusivamente para este período da Copa e passaram mais de quatro dias sem ver o sol da nossa cidade. Muitos nem chegaram a perceber a realização do Mundial”, disse.

Apesar de o clima ter prejudicado algumas atividades, Max avalia que o “encantamento dos turistas pela cidade é o maior legado da Copa para o turismo”. “Apesar desse clima chuvoso, nossa cidade não deixou de ser apreciada. O encantamento dos turistas é visível e isso é muito positivo para nós. Se houve queda no faturamento previsto em bares e restaurantes, isso é irrelevante. O importante é que a boa apreciação de nossa cidade poderá repercutir pelos próximos 15 ou 20 anos”, destacou Fonseca.

Terceiro deslizamento de terra em mãe luiza

Em meio aos festejos movidos pela contagiante energia do futebol, Natal viveu uma madrugada de mais transtornos nesta segunda-feira (23), provocados por fortes chuvas, que levaram a um novo deslizamento de terra, no bairro de Mãe Luíza, na zona leste da cidade. Esse foi o terceiro grande deslizamento de terra ocorrido na última semana na capital potiguar.

Anteriormente, dezenas de casas desmoronaram e cerca de dez carros que estavam trafegando pela Avenida Governador Sílvio Pedroza, no bairro de Areia Preta, ficaram soterrados. Um desses carros estava sendo conduzido por turistas chilenos que passavam uma temporada em Natal. Eles foram retirados pelas janelas do veículo e escaparam ilesos do problema.

De acordo com os dados da Semtas (Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social), até o momento foram cadastradas e atendidas 475 famílias em toda a Natal. Somente em Mãe Luiza, foram cadastradas 336 famílias sendo que cerca de 80 delas tiveram as suas casas derrubadas ou comprometidas

No bairro de Areia Preta, dois prédios de luxo, localizados na Avenida Governador Sílvio Pedroza, foram desocupados desde a semana passada. Todo transtorno nessa avenida ocorre porque as areias do desmoronamento seguem para o trecho, que fica localizado à beira-mar. Essa via, até o momento interditada, é um dos principais acessos que o público do FIFA Fan Fest utilizaria para participar dos festejos da Copa do Mundo.

Mobilidade urbana beneficiada com obras

Diferente do que muitas pessoas acreditavam, a maioria das obras de mobilidade urbana de Natal iniciadas em prol da realização da Copa do Mundo ficou pronta antes da abertura do mundial. De acordo com a Secretaria Municipal de Obras Públicas e Infraestruruta (Semopi), ficou faltando apenas a finalização de dois túneis (um na Avenida Capitão-Mor Gouveia e outro na Avenida Raimundo Chaves) e do viaduto na marginal da BR-101.

“Iniciamos a Copa com boa parte das obras de mobilidade entregue à população e aos turistas que estão nos visitando. Foram três túneis inaugurados e um viaduto na Avenida Prudente de Morais, beneficiando o fluxo de pessoas e veículos no entorno do estádio Arena das Dunas. Sem a realização da Copa do Mundo, dificilmente essas obras seriam entregues tão rapidamente”, disse Tomaz Neto, secretário da Semopi.

De acordo com o titular da secretaria, as obras que não foram concluídas deverão ser entregues até o dia 10 de julho. “Não conseguimos avançar nessas outras obras por causa da realização dos jogos em Natal, da incidência de chuvas e da greve dos ônibus na cidade, que acabou diminuindo o nosso efetivo”, explicou.

Copa sem luta no RN

Aqui, os protestos idealizados por movimentos sociais não conseguiram boa repercussão. O “Na Copa vai ter luta”, com mobilização nacional, reuniu cerca de 200 pessoas no dia 16 de junho em um ato pacífico e de pequena duração. O protesto começou por volta das 16h, três horas antes da partida envolvendo as seleções de Gana e EUA, na Arena das Dunas. Diante do aparato de segurança nas proximidades do estádio, os manifestantes se dispersaram por volta das 17h40. O protesto pretendia levantar a bandeira dos gastos para a realização da Copa no Brasil e em Natal.

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