Duas vezes é demais

Ele tem um cacoete, o Chagas “Duas Vezes”. Duas vezes pelo motivo a seguir decifrado. Ele vem e dirige-se a…

Ele tem um cacoete, o Chagas “Duas Vezes”. Duas vezes pelo motivo a seguir decifrado. Ele vem e dirige-se a você: “Alguma novidade, alguma novidade?”. Ou, então, surpreende no telefonema pela madrugada, ligação assombrosa e inconveniente: “Sabe quem morreu, sabe quem morreu?”. Antes que você, bafejando o hálito do sono, responda, ele metralha. “Foi Antônio Preá, Antônio Preá, baleado, baleado”.

Está explicada então, a razão do Chagas “Duas Vezes”. Ele é um repetitivo de cacoete. Vitimado por agitação placentária. Chagas “Duas Vezes” é um agente de saúde que não joga vasos sanitários na cabeça dos outros.

Da lama do sádico preso esta semana em Monte das Gameleiras, Rio Grande do Norte, por envolvimento na morte de outro integrante de torcida organizada em Recife.

De forma alguma, Chagas “Duas Vezes” parece com arruaceiro. Trata-se de um trabalhador. Brusco, é verdade. Acelerado. É filho interiorano de primo casado com prima e dizem, sem base científica, que em alguns casos o resultado é a prole um tanto desmiolada.

Chagas “Duas Vezes”, hoje na faixa dos 60 anos e já avô, foi um aceitável jogador de futebol de salão. Sempre apressado. Driblava curto e finalizava logo após o primeiro corte no marcador. Sem pensar.

Chutava de primeira, quando o certo era passar para o companheiro melhor colocado: “Puta merda, puta merda, foi pra fora, foi pra fora!”, se prevenindo dos xingamentos dos colegas de time.

A semana que passou foi de enquete nacional. Ouviram de presidente a vereador de Regomoleiro, de dentista a açougueiro, opiniões sobre a convocação de Felipão para a Copa do Mundo. Chagas “Duas Vezes”, injuriado, gostaria de ter sido entrevistado. “Nunca me ouviram, nunca me ouviram, tenho direito, tenho direito”.

Ele esteve comigo na esquina da Rua Princesa Isabel, eu a caminho do calçadão da Rua João Pessoa em busca de um carregador para celular. Chagas “Duas Vezes” comia um pastel oleoso, reluzente, igual a halterofilista, candidato a Míster Varandão do Samba do Soledade 28, casa de bambas de sapato branco e mais categóricos – muito – do que a Velha Guarda da Portela.

Tremulava corroído de fome, enjoei na hora. Chagas “Duas Vezes”, parecia um infante sem alimentação 12 dias após combate em Fallujah, ele pelos Seals contra o Exército do Iraque. Acho que o suor dele envenenou Saddam Hussein. Asfixia.

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Para o aloprado (sem mensalão), faltaram dois jogadores. Em sua postura de lateral-direito de repetição maníaca, o meia-esquerda americano Arthur Maia é muito mais jogador, por exemplo, do que Willian, o cabeludinho do Chelsea. “Arthur Maia dribla, Arthur Maia dribla, William cisca, Willian cisca.” Faz sentido, sim. Arthur Maia, o habilidoso canhoto camisa 10 do América de Natal pensa, Willian corre.

Antes que eu lhe perguntasse sobre a outra ausência, ele disparou gaguejando, o que é um perigo para o ouvinte. “Dê-Dê-nis Marques, Dê-Dênis Marques tem muito mais cancha para enfrentar alemão do que Jô, do que Jô, muito ruim, muito ruim”.

Para Chagas “Duas Vezes”, o centroavante rastafári do ABC estampa o porte físico ideal para encarar zagueiros alemães e croatas, africanos e italianos.

Faz sentido. Dênis Marques finaliza. Jô, depois dos remanescentes gols da Copa das Confederações, é o que se pode chamar de espanador da lua, centroavante paradão, lento e irritante, dormindo entre zagueiros. Jô que desminta o Brasil, mas parece fadado à prova cabal de pobreza técnica nos gramados nacionais.

Chagas “Duas Vezes” é enciclopédico. Se acha melhor estatístico e entendido do que o jornalista Paulo Vinicius Coelho, do Canal ESPN Brasil. PVC sabe, em 2 segundos, o resultado de Riachuelo x Ferroviário.

O jogo do dia 23 de março 1967, uma quarta-feira chuvosa no Estádio Juvenal Lamartine, com 872 pessoas, escalações, atuações de cada jogador e as variações táticas dos técnicos Garrincha e Joãozinho Paiva. Sem falar na esculhambação do lateral Jácio, do Ferrim, no árbitro Luiz Meireles, o Cobra Preta.

Para Chagas, óbvio, duas vezes, Copas do Mundo passaram a valer depois de 1950. Em 1930, 34 e 38, a opinião é dele, os caras jogavam de fraque e sapato e na segunda Copa, o Brasil viajou para a Itália de navio com jogadores educadíssimos e opacos. Dois deles: o goleiro Pedrosa e o zagueiro Octacílio. Uma travessia oceânica para um jogo só e derrota para a Espanha.

“Fomos eliminados, eliminados só uma vez, só uma vez na primeira fase que foi em 1966 com Eusébio, com Eusébio matando a pau, pau. Nas oitavas, também, com aquele time horroroso, horroroso, de Lazaroni, Lazaroni, o Lazarento, Lazarento, em noventa, noventa”, cornetou.

Fatalista, pessimista, imaginando os passes imperfeitos de meio-campo, ele projetou a dupla possibilidade de fracasso. “Pode ser a segunda vez nas oitavas, nas oitavas, se a gente pegar a Holanda, se pegar a Holanda, a Espanha está velha, velha, e pode ser a segunda vez na final, na final, aí pode ser contra qualquer um, qualquer um.”

Perguntei se seria o Maracanazzo, parte dois. “Não, de jeito nenhum, Será o Maracatu, que é o padrão do time de Felipão”. Incrível. Chagas nem gaguejou nem repetiu. Uma vez sequer.

 

Sério

Colecionadores já podem dispor do livro Maracanã, a Comemoração Antecipada, do escritor seridoense Marcelo Rocha Coelho, esgrimista das palavras. Bela e triste revisita à dor de 1950. Passeia também por outros Mundiais.

Falando besteira

Thiago Silva é bom zagueiro. Falta a ele autoridade generalesca de Bellini, Carlos Alberto Torres. Dizer que tem o “grupo da seleção na mão” é conversa de menino bobo. Pelé, quieto, tinha o mundo aos seus pés.

ABC em Campinas

ABC pega a Ponte Preta com todas as expectativas para a esperada estreia do meia Rogerinho, que veio do Ceará. Fora Dênis Marques, é a contratação mais badalada do alvinegro para a Série B para suprir uma ausência antiga: a da criatividade.

Arthur Maia

Confirmada ausência de Arthur Maia, América tem de começar a se acostumar com sua falta. Ele vinha sendo referência, o cara que recebe a bola para fazer diferente. Bola pra frente com o time que está aí.

Pesquisa

Depois que o Datafolha publicou a tendência de segundo turno para presidente, reações intolerantes reforçaram a histórica mania: pesquisa só merece confiança quando meu candidato vence.

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