É a natureza – Rubens Lemos

Bem antes da construção da Ponte Newton Navarro, o otário do escritório de contabilidade foi avisado pelo colega por volta…

Bem antes da construção da Ponte Newton Navarro, o otário do escritório de contabilidade foi avisado pelo colega por volta das 10 da manhã: “Corre pra balsa que a tua mulher está com outro cara dentro de casa na Redinha.”

A balsa, todo mundo lembra, ficava na vizinhança entre a Rampa e o Iate Clube no bairro de Santos Reis em Natal. Ligava a cidade à praia da Redinha pelo Rio Potengi. Belo passeio. Ruim era quando entravam assaltantes. Pior era quando a polícia prendia e aparecia um espadachim libertário para soltar.

O otário do escritório saiu ligeiro de sua mesa onde datilografava um memorando (ele odiava computador), pegou o ônibus lotado na Avenida Rio Branco, Centro, desceu no Mercado das Rocas e caminhou, suado e ofegante, imaginando as gozações que já estaria recebendo dos salafrários do serviço ao qual se dedicava com lealdade sacristã.

Passou pela cerca de arame farpado que protegia o terreno e, ao se dirigir ao guichê para comprar a senha da viagem de ida, parou e pensou: “Mas peraí, eu não lembro de ter casado. Eu não sou casado! E o que é que eu vou fazer na Redinha se eu não moro lá?”

A pé, em penitência, voltou pela Ribeira, subiu a Junqueira Aires, tomou a Ulisses Caldas, girou à direita e subiu as escadas sombrias do pequeno prédio onde dava expediente.

Cabisbaixo, aguardou a gargalhada dos outros. Encontrou todos concentrados em planilhas, balancetes, checagens de declarações de Imposto de Renda, expressões contraídas e compenetradas. Nenhuma piada ou sacanagem, ninguém tripudiou.

Coragem dos centuriões de ocasião, o infeliz pigarreou alto, os outros protestaram pela interrupção da jornada e ele agradeceu, comovido, pelo “respeito” e por não ter sido metralhado de zombarias do nível mais escroque. O pior dos cínicos, o autor do aviso que fez o rapazola de palhaço, respondeu com tédio cirúrgico:

– Você acha que nós perderíamos tempo rindo de você? Mermão, você é um otário, outro dia acreditou que Barrichello era piloto, que música sertaneja é música e que Evair do Palmeiras merecia o lugar de Romário na seleção. Você não tem que agradecer, mas se conformar. Rir de você pra quê? um otário pela própria natureza.

O otário chorou muito, pediu demissão, não aceitou acordo oferecido pelo chefe para receber indenização pelos longos anos de casa, ganhou uma miséria e meses atrás apostou a casa da mãe com quem nunca deixou de morar numa lábia de pirâmide financeira. Estão vivendo de favor na casa de uma tia solteirona e malcriada. Ele lava roupas e pratos. Feliz.

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Otários. Somos muitos, mas não somos todos. É preciso ser um ingênuo, sem parecer agressivo, para se indignar com a declaração da neta de João Havelange, filha de Ricardo Teixeira, a inabordável Joana Havelange.

Ela, que entende de futebol tanto quanto eu de paraíso fiscal, é a presidente do Comitê Local da Copa do Mundo. Tutto in famiglia, sem nenhuma conotação cosanostresca. Joana transmite – observem a foto – uma simpatia de quem adota três pobres por semana.

Joana Havelange, dona do poder de circular entre as pessoas e torná-las invisíveis, pelo hábito de não cumprimentá-las ou nem grunhir um sorriso cerimonial, defendeu a Copa do Mundo dizendo que não adianta protesto porque “o que tinha de ser roubado já foi”. O que tem de extraordinário no que falou a Havelange herdeira?

Protesto não adianta, é preciso deixar a Copa do Mundo acontecer, o tempo de reclamar do evento já passou e agora é ver a bola rolando no gramado. Incendiar ônibus e fazer baderna é pra marginal, não para quem reivindica melhoria de vida.

Os escândalos, que sejam apurados nos rigores da lei e os culpados sejam punidos, o que no Brasil seria uma miragem tão surreal quanto a arquitetura das arenas milionárias.

O Brasil destruiu patrimônios e desviou prioridades. Quem trouxe a Copa do Mundo sabia que estava entregando a chave do país para o intendente Jerôme Valcke, da Fifa, investido bedel do Rio Grande do Norte dando sermões públicos em autoridades eleitas.

O intendente Valcke vociferou por escrito nas redes sociais sobre obras atrasadas e prazos que ele exige cumpridos até o dia 13 de junho, quando aqui haverá o superclássico México versus Camarões, tradicionalíssimas escolas do futebol mundial.

Joana Havelange se arrependeu depois, olhando por cima do ombro e alegou “desatenção” ao proferir a frase que estarrece os crédulos e bons. Do contracheque mensal de R$ 120 mil nunca se teve notícia de esquecimento no saque.

Patriotas: Joana Havelange é a própria frase. É uma Cinderela de sapatinhos luxuosos e sobrevoando de carruagem 4×4 diante de um país de defesa moral escancarada.

Ela é, bem remunerada e mal humorada, a versão viva da grã-fina criada pelo fantasma Nelson Rodrigues, que perguntou, histérica, ao chegar ao ex-Maracanã superlotado no Fla x Flu: “Quem é a bola?” É a natureza. Havelange.

Sexta-feira santa

Depois de uma terça de ressaca, a sexta-feira de bençãos para alvinegros e americanos é vital para uma trégua sossegada na Série B. O ABC está em quinto e pega um Avaí embalado por vencer o Náutico em Recife. Dureza.

América

Em casa, só um caminho para o América diante do Luverdense: três pontos e aproximação do G-4. É preciso reaprender a ganhar em casa.

Camarão estragado

Suportei 12 minutos de Camarões 1×2 Paraguai, amistoso preparatório dos africanos para a Copa do Mundo. Eles estão no grupo do Brasil. Invoquei entidades possíveis para recordar um timaço comunitário estilo Continental do Carrasco ou Olimpiakos da Guarita de pior qualidade. Não lembrei mais fraco.

Força e Luz

O sepultado Força e Luz viveu bons tempos no início da década de 1970, quando o Governo do Estado investiu na montagem de bons times. No dia 30 de maio de 1973, o ABC bateu no “clube elétrico”por 3×1 no Castelão (Machadão), dois de Alberi e um de Libânio, com Valdecy Santana descontando.

Times

ABC: Erivan; Sabará, Edson, Quelé e Anchieta; Maranhão, Danilo Menezes (Soares) e Alberi; Libânio, Jorge Demolidor e Moraes. Força e Luz: Bastos; Nilton, Babau, Tito e Jerônimo; Edmundo, Valdecy Santana (Café) e Rocha; Izulamar, Ribeiro e Chiquinho.

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