El Mariachi da Frasqueira

Ele é um cinematográfico mexicano de fronteira, sabor tequila. Centroavante de verdade não tem rosto nem face nem piedade, tem…

Ele é um cinematográfico mexicano de fronteira, sabor tequila. Centroavante de verdade não tem rosto nem face nem piedade, tem cara de homem, tem jeitão Dênis Marques de ser. Desde sábado, assumiu o inquilinato da Arena das Dunas, chegou como quem chega do bar, deu dois tiros e foi bebericar sem sorrir.

O ABC venceu o América pela seca simplicidade do goleador Mariachi. Antônio Banderas – que nunca vai me ler portanto não ficará com raiva – de chuteiras guardadas tal metralhadoras no violão do artista galanteador e sangrento no filme meio trash, meio policial. Juntando os dois gêneros, dá mesmo é uma comédia.

Dênis Marques é o Mariachi da Frasqueira e não admite brincadeira. Com ele, é sério. Detonador da massa sepultada e renegada dentro de suas dores até explodir em duas jogadas pistoleiras do atacante de emboscada impiedosa, primeiro tomando a bola do beque Edson Rocha – pobre vilão do jogo e tocando por baixo do goleiro Fernando Henrique.

Imperativo, olhar puxado ao Narciso nem feio nem bonito, Dênis Marques subia a escada de acesso à torcida e abraçava o fanático delirante de rádio de pilha, figura atípica no palco sofisticado, transformando um estádio de primeiro mundo numa alegoria de avenida, de asfalto, de boteco, de pagode no fundo do mais bagunçado quintal.

Bola com Samuel, o zagueiro em arrancada bíblica. Sabedoria de um Paulo, o intelectual entre os apóstolos, esperou a hora do bote na defesa do América, evitou o impedimento, superou o sacrificado Edson Rocha e deu um passe milagroso. Parecia Marinho Apolônio, em 1983, dizendo, faz, amigo Silva.

Então, crescendo dois metros como um herói de películas exageradas, Dênis Marques esperou para finalizar, de canhota, matando o goleiro Fernando Henrique. Fez muito mais do que o segundo gol do ABC.

Reinventou um clássico acanhado pela supremacia de um sobre o outro, encerrada para que a vida siga normalmente até que as profecias e recomeços definam quem estará no comando a partir de agora até perder tempos depois, pois imortal somente será o ABC x América.

O ABC, da massa e do povão, nunca sobreviveu sem um ídolo, desde os primórdios dos rachões no campinho onde se ergue uma catedral. O futebol é uma basílica ecumênica de sentimentos e credos. Precisa de líderes.

O ABC estava sem Dênis Marques , Mariachi com cara de mau, de implacável, de fatal. Um chefe para ser respeitado e fazer com que todos respeitem uma camisa pintada de suor popular.

Amora

Daniel Amora tem apanhado muito. Passe Livre tem sido inclemente com o limitado volante do ABC que chegou a fazer partidas agradáveis pelo América. Mas é preciso ressaltar sua atuação no clássico. Daniel Amora outra vez não fez nada.

Se anulou para anular

Grudado como agente do serviço secreto, Daniel Amora não deixou Arthur Maia andar, se mexer, acenar para a torcida. Se anulou para anular o criativo. Prejuízo bem maior para os rubros. Não é o belo de se ver, mas o registro é indispensável.

Gilvan

Fez duas defesas fundamentais. Elásticas. Duas pancadas quando o América esboçava pressão em cima do ABC. Gilvan, quando foi exigido, salvou o ABC, demonstrando um estilo seguro e sóbrio.

Fernando Henrique

Embora sem falhar em nenhum dos dois gols sofridos, o goleiro Fernando Henrique, do América, procurou demonstrar plasticidade inútil e desperdiçar acrobacias. No primeiro tempo, fez uma defesa espetaculosa e desnecessária espalmando em voo um chute de Dênis Marques que teria defendido em pé e sem problemas.

Certezas

Dida parece não ter vez. Injustamente marcado pelo gol sofrido em 2013. Uma espécie de Barbosa potiguar. E Andrey, machucado, está nas orações americanas. É dono absoluto da camisa 1.

Dois meias

O técnico Zé Teodoro anunciou que escalará o ABC com dois meias, mas apenas quando o time acumular gordura, ou seja, ponto para queimar. Xuxa não entrou bem no sábado, precisa ganhar ritmo. Esperto foi Rogerinho, que preferiu se poupar e não se queimar num clássico devorador de carreiras. Júnior Timbó ainda é segredo. De Estado. Ninguém sabe quando e se volta.

Oliveira Canindé

O correto – e às vezes humilde demais – técnico Oliveira Canindé do América, errou ao mexer no que estava dando certo, mudando o esquema tático usado ao longo de todo o seu tempo no time. Quando quis consertar, era tarde. Mas perder faz parte e só um xiita para acreditar que um dia o América não teria sua invencibilidade quebrada.

Placa

Acho que o América não deveria ter feito uma placa para presentear o ABC como “visitante”, embora tivesse o mando de campo. Acho também, que se o América se deu ao trabalho, o ABC poderia ter recebido. Problema nenhum devolver a ironia com sutileza.

Palmatória

Mãos – as minhas também – para umas boas lapadas de palmatória. Ninguém, absolutamente ninguém, apostaria no ABC em segundo lugar na Série B e invicto na terceira rodada com o mesmo número de pontos do líder e perdendo apenas dois gols. Eis o feitiço pendular do futebol. Só nos seus mistérios e paixões, os mortos aparentes renascem.

Sem tempo

O América não tem tempo para ficar passando Merthiolate na ferida do clássico. Tem é que partir para cima do Náutico amanhã na Arena das Dunas, jogo difícil pela Copa do Brasil quando garantir boa vantagem na primeira partida é ponto decisivo para decidir mais tranquilo e fechado em Recife.

Vaias há 40 anos

O Brasil seguia sua tumultuada preparação para a Copa da Alemanha, a primeira sem Pelé desde 1958. Vaias monumentais ao time de Zagallo no ex-Maracanã pela vitória sofrida diante da Irlanda por 2×1, gols de Leivinha e Rivelino, com Mancini descontando para os visitantes.

Público

Naquela tarde de domingo, 5 de maio de 1974, 74.696 torcedores pagaram ingresso , público considerado mediano pela imprensa da época. Talvez na final de 2014 se chegue a algo semelhante. Se a seleção brasileira estiver na decisão.

Times

Brasil de Zagallo: Leão; Zé Maria; Luís Pereira, Marinho Peres e Marinho Chagas; Carbone, Rivelino e Leivinha; Jairzinho, César Maluco e Paulo Cézar Caju. Irlanda: Peter Thomas; Kinnear; Mulligan, Mancini e Holmes (Dunnis); Hand, Martin e Treacy (Daly); Conroy, Giles e Givens.

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