Ela tem 13 tatuagens e virou popular no underground da capital potiguar

Katlyn Caicy é uma administradora de empresas que reforça o caixa com o trabalho de modelo

Aos 27 anos, fã de Johnny Cash, Al Pacino e Shakespeare, Katlyn reserva os braços para tatuar homenagem aos futuros filhos. Foto: Divulgação
Aos 27 anos, fã de Johnny Cash, Al Pacino e Shakespeare, Katlyn reserva os braços para tatuar homenagem aos futuros filhos. Foto: Divulgação

Conrado Carlos

Editor de Cultura

 

Katlyn tinha fechado contrato para trabalhar como promotora de vendas durante um lançamento automobilístico e nem desconfiava que o proprietário planejava algo diferente para aquela noite. Encerrado o evento, veio a infâmia através de um convite para o serviço ser prolongado em outro lugar. A aparência da jovem modelo despertou o instinto primal masculino e suprimiu qualquer precaução do empresário metido a galanteador. Em uma cidade nordestina, portanto, cristã e conservadora, ser uma mulher com treze tatuagens tem um preço. Um deles é ser alvo de olhares enviesados, que dispensam legenda. Mas convites dessa natureza, para a modelo de 27 anos, eram inéditos. “Ele foi o mais aberto até hoje”. A recusa educada foi o acerto de quem optou por ter um visual alheio ao padrão vigente.

Corria o ano de 2000, Katlyn Caicy Gomes Costa Davi era uma adolescente de 13 anos que perambulava por points do underground natalense, como a praça Vermelha (então tradicional reduto da galera hardcore), no Centro, e via conhecidos com a epiderme ilustrada com desenhos multicoloridos. O que para muitos era novidade, para ela fazia parte do cotidiano. “Sempre fui fascinada por tatuagens. Aquele universo me despertava curiosidade, também por que eu tenho alguns tios tatuados e um primo que fazia body piercing. E então, nessa época, eu tinha um namorado que começou a se tatuar e eu fui com ele”. A omissão do nome do estúdio tem uma razão: a arte corpórea só pode ser feita a partir dos 16 anos, com autorização dos pais. O pequeno Alien no quadril seria o começo dessa paixão.

Os pais nem desconfiaram. Por dois anos, Katlyn escondeu o desenho macabro, com medo de represálias. O casal de empresários do ramo de transportes sempre foi tranquilo quanto aos ‘excessos’ da filha mais velha (ela tem um irmão um ano mais novo, prestes a fazer a quarta tatuagem). A contestação parental veio apenas na terceira imagem – esta impressa em suas costas, já com 17 anos. Flores de lótus, que para os povos orientais significam purificação do corpo e da mente, remodelaram o dorso de quem pintava como uma rebelde juvenil. A amenizada veio com a inserção dos nomes dos progenitores. “Eu cheguei com a Bepantol [tomada cicatrizante] e pedi para minha mãe passar nas costas. Ela nem desconfiou, pensava que era algum ferimento. Quando viu, ficou chocada. Dizia: ‘As costas que eu passava talquinho’. Mas meu pai não falou nada. Ficou neutro”.

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E a coisa progrediu. Ao contrário de muita gente que simpatiza, ainda que refugue, por valores morais ou medo da dor, na hora em que vê uma agulha, Katlyn sustenta a postura de que o preconceito tem diminuído – em seu caso, decorrente do comportamento recatado, de poucas incursões pela noite, depois do período ‘farrista’ na adolescência. “Não me arrependo de ter feito tão cedo. As pessoas estão abrindo a cabeça e nos aceitando mais. Não é por que você tem tatuagem que usa droga ou é uma qualquer”. Formada em administração, ela também dispensa bebidas, como forma de manter a beleza e a saúde que incrementa o orçamento de gerente de recursos humanos na empresa dos pais. O contato com a agência de modelos foi feito pela própria mãe, vaidosa com a filha que dava os primeiros sinais de ser uma pessoa diferente.

Das treze tatuagens, Katlyn Caicy, cujo sobrenome foi sugerido pela avó materna, uma ex-sargento do Exército, após conhecer uma índia, diz que prefere as de temas náuticos no estilo Old School – desenhos retrôs inspirados em marinheiros norte-americanos da primeira metade do século passado. Espalhados por seu corpo existem trevos com caveiras, catrinas (melancólicas mulheres mexicanas com a boca costurada, populares na Festa do Dia dos Mortos), amoras, estrelas, um raio e um coração. “Tem uma molecada fazendo por impulso, por que virou moda. Eu fiz quando era muito nova, foi uma irresponsabilidade. Se um dia um filho meu quiser fazer, vou orientá-lo para esperar completar dezoito anos”. A pele alva e a boa cicatrização impulsionaram a mania de quem tem uma relação particular com o corpo, pois a tatuagem (1) requer paciência de ficar horas em uma posição desconfortável, (2) tolerância à dor e (3) a consciência de que a marca será carregada até o túmulo.

Tudo por questões estéticas e contestatórias. “Eu nunca quis ser modelo. Minha mãe que me colocou numa agência [a extinta Look]. O fato de eu ser tatuada ajudou, sim, não tenho como negar. As meninas daqui são muito parecidas, todas têm o mesmo estilo. Só na primeira vez que senti que o cara que me olhou estranho, me aceitando por não ter mais jeito, já que eu estava ali”. Katlyn diz que seu namorado acha bonito (ele não tem nenhuma), ainda que aconselhe calma para sobrar espaço na pele original. Ela pensa em tatuar algo nos braços, em homenagem a futuros filhos. Outrora propensa a cobrir membros superiores por inteiro, no momento a ideia é cuidar das existentes com o uso diário de protetor solar com fator 60 (“O sol daqui é cruel!”) e planejar o que fará a seguir. “Algumas ideias que tinha quando era nova não cabem mais”.

Longe do modismo

Agnóstica, fã de Johnny Cash, Al Pacino e leitora de William Shakespeare, Katlyn ignora futebol. Como na imensa maioria dos brasileiros, os gastos exorbitantes com a Copa do Mundo lhe causam revolta, diante de “tanta coisa para se fazer no país e na cidade. Chega a ser um absurdo”. Ela se mantém informada sobre política e economia, ainda que o termo ‘politizada’ fuja de sua personalidade. “Não adianta nada. Aqui no Brasil não se protesta de verdade, como lá fora”. O dinheiro e a eficiência repentina para a construção da Arena das Dunas foram relembrados pela admiradora da americana Kat Von D, musa tatuadora protagonista da série Miami Ink. Um dos episódios antagônicos ao embaraço na loja de carro foi vivido no Parque das Dunas, onde costuma complementar o pacote de atividades físicas, que inclui musculação diária. Ali, em meio a corridas em que sua vestimenta revela os pigmentos cultuados por polinésios e patenteados por colonizadores britânicos no século XVIII, foi surpreendida com uma abordagem.

“Toda vez que vou correr, noto que olham para mim, mas sempre com um jeito de admiração. Uma vez uma menina veio e me elogiou, elogiou as tatuagens, dizendo que eram lindas. Sei que existe um estigma que envolve o lado sexual, por causa da imagem diferente. Mas comigo as pessoas são respeitosas, até porque, mesmo sendo curvilínea [tem 1,67m e 59 kg], já que não sou modelo de passarela, eu tenho uma postura mais séria, como forma de defesa mesmo”. O cosmopolitismo da cultura urbana em que a tatuagem está inserida se expandiu por todo o mundo, acredita Katlyn. Como forma de expressão artística genuinamente pós-moderna, ferir a pele com agulhas que injetam tintas, para formar figuras, entraram na lista de itens comportamentais – inclusive dos modistas, vidrados na turma do BBB. Poucos abraçam a tatuagem como verdadeiro estilo de vida, que envolve outras artes e posicionamento oposto à massificação estética. “Quem não pensa direito, não planeja pensando nos prós e contras, se arrepende mesmo”.

 

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