Em 1974, ditador zairense levou a maior luta de boxe da história à África

Caos na organização e choque entre costumes criou uma quase tragédia; semelhança com a Copa do Mundo do Brasil vai além da herança étnica

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Ninguém chama grupo na Copa pela letra. Jamais olhamos a tabela para ver cruzamentos das Oitavas pensando no ‘campeão do grupo F’. É sempre o do Brasil, no da Itália, caiu no da Alemanha, o da Argentina é o da morte. A lógica funciona por aí, por pura identificação com o que geralmente acontece – vale relembrar que dos 209 filiados da Fifa, apenas oito levantaram o caneco, em 80 anos de disputa.

Mais de 60 dessas novas carteirinhas foram impressas de 1974 para cá, primeiro ano da Dinastia Havelange, encerrada em 1998, o que mostra o poder do jeitinho brasileiro. Apoiadores do também membro do Comitê Olímpico Internacional dirão que nesse tempo houve processos de independência na África e na Ásia, que a Cortina de Ferro se desmantelou, que vários países foram constituídos.

É verdade, mas na frequente citação grandiloquente de que a entidade máxima do futebol tem mais integrantes que a ONU, vai a camuflagem da marginália para o fato de lugares sem status de nação, como Ilhas Faroe, Ilhas Turks e Caicos e até Macau, ganharem direito a voto na eleição geral – ou, na pelada, os coletes não são sempre distribuídos para os mais chegados?

Muito bem. Acontece que o presidente Joseph Blatter andou dizendo que daria mais vagas para africanos e asiáticos tirando de sul-americanos e, quem sabe, europeus. Em tempos de fartura orçamentária em países ‘periféricos’, muitos governados por sujeitos esquisitos com sistemas de governo esquisitos, a jogada é perfeita. Todo chefão populista gosta de esbanjar na geopolítica mundial.

Portanto, broncas e sucessos da Copa e das Olimpíadas serão creditadas ao PT e aos governos estaduais e municipais dos últimos cinco anos. Anote os nomes e tire a limpo de alguma forma. O caso mais conhecido é o de Mobutu Sese Seko, tirano que adorava se vestir com pele de leopardo e passar o rodo no Zaire – foram 32 anos de um poder ilimitado, com a extravagância e o banditismo como proposta de governo.

A atual República Democrática do Congo é uma vastidão de quase 2,5 milhões de quilômetros quadrados habitados por 70 milhões de pessoas situadas no penúltimo lugar do ranking de Índice de Desenvolvimento Humano com pouco mais da metade dos pontos conquistados pelo mais atrasado município potiguar – o minúsculo João Dias, no extremo oeste do Estado.

Com sua megalomania que durou 32 anos, ele levou a luta de boxe mais famosa da história (Ali x Foreman, em 1974) para o coração da África. As placas que anunciavam o combate na capital Kinshasa tinham frases como: “Um cadeau Du président Mobutu au peuple zairois et um honneur pour l’homme noir” (Um presente do presidente Mobutu ao povo zairense e uma honra para o homem negro).

Tirei isso do livro “A Luta”, de Norman Mailer, autor que gostava de porrada e fez observações curiosas (e preconceituosas) sobre a higiene e conforto do hotel e do idioma local: “[...] os nativos da recepção falavam francês como se fossem dotados de laringes artificiais”. Correspondentes europeus e norte-americanos eram unânimes ao apontar os zairenses como os mais grosseiros da região. Mailer deve ter percebido.

A fuzarca foi tão grande que um festival com astros da música negra foi armado – pago pelos miseráveis, é claro. Da esbórnia sobrou o ótimo documentário “O Poder do Soul” (além do ganhador do Oscar, Quando Éramos Reis) sobre a produção caótica e os shows sensacionais nos dias que antecederam The Rumble in The Jungle (“O estrondo na selva”, slogan oficioso).

A falta de estrutura africana gerou gastos exorbitantes com transporte e equipamentos. No palco, James Brown, B.B.King e Bill Whiters foram os mestres da cerimônia inacreditável. Algo semelhante com o que estamos vivenciando no Brasil? Totalmente. Com dinheiro dos miseráveis, desestruturados e por egocentrismo de um ex-presidente que não vestiu pele de onça por, hoje, ser politicamente incorreto, teremos nosso estrondo da selva.

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