Em livro, todos os tesouros do acervo de Pelé são exibidos; leia capítulo

Em 'As joias do rei Pelé', o maior jogador da história do futebol apresenta sua coleção pessoal de taças e outras preciosidades

objetos do acervo pessoal de Pelé estão reunidos no livro 'As joias do rei', de Celso de Campos Jr. Foto: Divulgação
objetos do acervo pessoal de Pelé estão reunidos no livro ‘As joias do rei’, de Celso de Campos Jr. Foto: Divulgação

Nenhum atleta no mundo tem uma coleção de troféus, medalhas e objetos históricos tão rica como a de Pelé. Guardado a sete chaves pelo ex-craque em uma de suas casas no litoral paulista, o acervo pessoal do atleta do século XX deverá ser exibido no futuro museu dedicado do rei, em Santos (a abertura é esperada para o ano que vem). Quem não quiser esperar a inauguração do templo dedicado às façanhas do maior jogador de todos os tempos pode conhecer as peças mais raras e importantes no livro As joias do rei Pelé (Realejo Livros, 184 pág, 179,90 reais), do jornalista e escritor paulistano Celso de Campos Jr. Autor de bem-sucedidas biografias de Adoniran Barbosa e do ex-goleiro Marcos, ele conversou com o ex-craque sobre algumas das peças mais marcantes da coleção – como o radinho de pilha do pai de Pelé, uma bola de meia usada nas primeiras peladas de rua e o passaporte tirado às pressas para que ele pudesse viajar à Suécia para disputar a Copa de 1958.

A obra, que chega às livrarias neste fim de ano, une os depoimentos de Pelé sobre o acervo a belíssimas imagens dos objetos descritos por ele. ”De todos os livros que eu tenho, e são vários os que já foram escritos sobre o Pelé, este, mostrando algumas das peças que eu tive oportunidade de ganhar, talvez seja o mais especial, pelo resgate histórico de coisas que talvez as pessoas não tenham conhecimento, mas que são muito importantes em minha vida”, diz Pelé. “São peças como a caixa de engraxate com que eu ganhei meu primeiro dinheirinho em Bauru, uma moeda de 400 réis. Ela para mim tem tanto valor quanto a taça Jules Rimet. Ou a minha massagista elétrica, que ajudou muito na minha parte física, num tempo em que a tecnologia tão era tão avançada assim”, conta o ex-craque, emocionado com as memórias que seus tesouros despertam. “Fiquei muito feliz com a ideia desse livro, e também com a edição, que ficou maravilhosa. É mais uma joia que recebo. Nem sei se mereço tanto”, completa o mais humilde dos reis.

Rumo à história

A ascensão foi fulminante. No dia 7 de setembro de 1956, ainda com 15 anos de idade, Pelé estreou pelo time principal do Santos Futebol Clube – e já deixou sua marca, anotando o sexto gol do passeio de 7 a 1 no amistoso contra o Corinthians de Santo André. No início da temporada seguinte, a nova estrela já se revezava no time titular com Del Vecchio, em atuações que lhe valeram, aos 16 anos, o primeiro contrato com o clube da Vila Belmiro e a primeira convocação para a Seleção Brasileira. Foram duas partidas com a amarelinha, em julho de 1957, ambas válidas pela Copa Roca, uma no Maracanã e outra no Pacaembu. Na primeira, Pelé entrou no segundo tempo e anotou um gol, mas não impediu a vitória dos platinos por 2 a 1. Em São Paulo, o craque começou jogando e marcou novamente. Desta vez, deu Brasil, 2 a 0 – e o troféu, no saldo de gols, ficou com a Seleção, a primeira conquista de Pelé como profissional.

No Campeonato Paulista daquele ano, o título não veio por pouco: o Santos ficou com o vice, um pontinho atrás do São Paulo. Mas Pelé, àquela altura já um nome reconhecido em todo o país, terminou o certame como artilheiro.

Com 17 anos, a sensação do Santos não podia sequer dirigir. Mas já era a maior esperança da nação para o triunfo na Copa de 1958. Só que, antes de ganhar o mundo, Pelé precisava de um passaporte. Convocado por Vicente Feola, treinador da Seleção, o atleta ainda não tinha o tal documento. Aliás, nem fazia ideia de que precisava de um para viajar ao exterior. Logo depois do anúncio da lista, em abril, dirigentes do Santos correram para levar o desavisado jogador ao setor de expedição de passaportes. Problema resolvido: em prazo recorde, Pelé já estava com a papelada em ordem. Agora era questão de tempo até que o craque embarcasse com a Seleção para a Suécia… Ou não.

Três dias antes da viagem, havia um último jogo-treino em território brasileiro, contra o Corinthians, no Pacaembu. O Brasil vencia fácil, mas os alvinegros, como que querendo vingar a não convocação do ídolo Luizinho, seguiam jogando como se a partida fosse uma final de Copa do Mundo. Não era preciso ser aspirante a Nostradamus para perceber que o pior estava para acontecer. E aconteceu. Com ele. Em uma disputa de bola com o zagueiro Ari Clemente – dura, mas não desleal –, Pelé machucou o joelho e deixou o gramado de maca, aos prantos. Pânico generalizado.

Ali mesmo, no vestiário do Pacaembu, iniciou-se uma corrida contra o tempo para recuperar o destaque da Seleção. O massagista Mário Américo usava as armas que tinha à disposição: bolsas de água quente e contrastes de gelo e toalha, em doses cavalares. O único resultado: bolhas na pele. Nada de melhora. Na véspera do embarque, o doutor Hilton Gosling fez sua avaliação definitiva. O médico da delegação olhou, mexeu, apalpou o joelho do atleta. E, com pesar, transmitiu o recado para Feola. “O menino pode até chegar lá e ficar bom. Mas ainda não está OK pra viajar.”

Para Pelé, foi como se Gosling o condenasse a uma sentença fatal. “Não é possível! Eu já estou com o passaporte, eu nunca saí do Brasil. Meu Deus, me deixa ir, por favor”, suplicou, baixinho, só para o homem lá em cima ouvir.

Deu certo. A providência divina se manifestou ali mesmo, segundos depois, na resposta do treinador brasileiro. “Ele é jovem e pode se recuperar. Vamos levá-lo e ele faz o tratamento acompanhando a delegação”, resolveu Vicente Feola, com a sabedoria – e a circunferência da pança – de um verdadeiro Buda

 

Fonte: Veja

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