Em “Mingus Ah Um”, Charles Mingus brinda fãs com nova sonoridade

As faixas são nervosas e introspectivas, ao mesmo tempo

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Com um talho aberto de uma ponta a outra na cabeça, após forte pancada em uma cômoda, o pequeno ser, então com dois anos de idade, pintava como protagonista da tragédia familiar. Ele ouvia sem entender: “Baby morreu! Baby morreu!”. Era abril de 1924 e o médico antecipava a possibilidade. “Vou fazer o melhor, sr. e sra. Mingus, mas ele está indo embora rapidamente”. O buraco acima do olho esquerdo concentrava as atenções. A criança superdesenvolvida, com grossas articulações, ombros e quadris largos, gostava de baratas d’água e de guardar formigas em uma garrafa. Os pais se inquietavam com aquela mania, mas, naquele instante, salvar o filho era a única preocupação. De repente, um grito. Foi o segundo som emitido no dia – o primeiro fora um reclame com a irmã Grace, autora de uma sessão de cócegas aflitivas. O menino ia sobreviver, suspirou o doutor. “Não se preocupem, em uma semana ou um pouco mais ele vai estar novo em folha”. Desde então, novidades e tormentos conduziram a vida de Charles Mingus, maior contrabaixista da história do jazz.

No começo dos anos 1940, Mingus tocava jazz tradicional na banda de Louis Armstrong e na orquestra de Lionel Hampton. Fera nos arranjos e com uma personalidade peculiar, logo se destacou nos conjuntos dos dois ícones. Até que em 1950 começou a solar no trio de Red Norvo, o ‘Mr. Swing’ que ajudou a estabelecer a marimba e o xilofone como instrumentos no jazz. O branco Norvo viu que Mingus experimentava sonoridades e liberou sua criatividade. Foi a senha para a quebra de barreiras harmônicas. Como ninguém, ele direcionou a improvisação coletiva, com uma música complexa, tensa, rica em efeitos e abismos psicológicos, como só alguém tão caudaloso poderia fazer. Foram tantos sucessos que a loucura cresceu na mente criativa e nem sempre ponderada do cara que revolucionou o contrabaixo – destaco “The Jazz Experiments Of Charlie Mingus” (1954), “Pithecanthropus Erectus” (1956), “The Clown” (1957), “Charles Mingus Presents Charles Mingus” (1960), “Tijuana Moods” (1962) e “The Black Saint and the Sinner Lady” (1963).

Outros tantos merecem figurar na lista. Escolhi “Mingus Ah Um” (1959) por êne motivos. Por ser seu primeiro disco lançado pela Columbia; pela capa fantástica do designer gráfico S. Neil Fujita; por traduzir com perfeição a mudança da linguagem musical que aquele momento sofria, algo gospel, bebop e free. O álbum faz parte das cinquenta gravações escolhidas pela Biblioteca do Congresso Americano para compor o National Recording Preservation Board, arquivo que melhor traduz a história cultural e estética dos Estados Unidos. As faixas são nervosas e introspectivas, ao mesmo tempo. De uma beleza e agressividade compreendida apenas para quem conhece um fragmento da existência de Mingus, artista que viveu intensamente o que o jazz poderia proporcionar aos mestres – sexo, drogas e muita grana; como tantos, ele extrapolou o imponderável. Alguns dos temas de “Mingus Ah Um” viraram standards. A abertura com “Better Git It in Your Soul” é um exemplo. Ela nos remete à décadas anteriores, cheia de ‘riffs’, mas já sugere o que Mingus aprontaria nos anos subsequentes.

Raros são os jazzistas que compuseram tantas obras-primas em tão pouco tempo – Coltrane? Miles Davis? Ornette Coleman? E aqui Charles Mingus soltou explosões arrebatadoras ao lado de um time afinado, sempre sob controle – seu temperamento proibia voos solo no espaço aéreo que comandava, o que não ofuscou o brilho de um John Hardy (sax tenor, alto e clarinete) e de um Willie Dennis, no trombone. Todos harmonizam em “Goodbye Pork Pie Hat”, balada sensual, perfeita para uma noite de um casal que precisa recalibrar a chama carnal – escrita para o saxofonista Lester Young. A êxtase biológico é abandonado para a velocidade compressora de “Boogie Stop Shuffle”, feita para bater cabeça como um metaleiro ao som do Pantera. O piano de Horance Plan tenta suavizar a trilha semelhante a do seriado Batman, aquele que víamos nos 80s. Só que não consegue – Charles Mingus é o pai do thrash metal jazzístico; responsável por nossa vontade de pogar (chutar todo mundo que está ao lado, feito punks em ação). “Birds Calls”, homenagem a Charlie Parker, mantém a pegada furiosa.

Enquanto “Fables Of Faubus” soca a consciência branca e protesta contra o governador de Arkansas, a mando do presidente Dwight Eisenhower, que enviou a Guarda Nacional para abafar um protesto de nove estudantes da Little Rock Center High School. Originalmente a versão em vinil tinha seis faixas. Em 1979, “Mingus Ah Um” ganhou o acréscimo de três pérolas, dentro do esquema de restauração da obra de O Homem Mais Zangado do Jazz, apelido adequado a sua fama de terrível com subalternos, morto naquele mesmo ano ao sucumbir a uma esclerose lateral amiotrófica (implosão do sistema nervoso central, em seu caso, amplificada pelo uso generoso de heroína). Duas delas são geniais. “Pedal Point Blues”, perfeita e caótica trilha para o trânsito de uma grande cidade, com cada instrumento auxiliando na formação de um pacote rico e multifacetado de sonoridades contrastantes. E “GG Train”, um bebop para lá de vibrante que encaixa bem neste sábado imprevisível.

 

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