Emoção, emoções

Uma irritação sorridente me acompanhava aos passeios monótonos pelos parques de diversão de minha infância restrita às articulações de molecagens…

Uma irritação sorridente me acompanhava aos passeios monótonos pelos parques de diversão de minha infância restrita às articulações de molecagens de rua e à paixão de refúgio pelo futebol.

As festas e quermesses organizadas pela igreja enchiam o saco. Tínhamos que ouvir homilias longas, lições morais que os próprios autores descumpriam nas penumbras e a voz esganiçada das beatas na fé renitente, antes de sair pelas barraquinhas circulando e tramando. Os equipamentos modestos, brinquedos enferrujados e temerários.

Apreciava o amor charmoso dos briosos soldados da Polícia Militar e das nossas assistentes particulares que à época chamávamos, sem nenhuma conotação preconceituosa, de empregadas domésticas, fato que hoje pode gerar passeata, protesto e até mesmo processo nesse país de valores transversos.

Gostava de ficar perto do sistema de som fuleiro e do locutor de paletó marrom e lascado atrás, daqueles do tipo “peço a palavra”, de vereador de interior. Quando o cara levanta e pede para falar, a manga vai bater no cotovelo. O nosso Cid Moreira das noites mocorongas e domingueiras, anunciava, do alto das emoções:

– De um alguém muito valente, porém muito decente, para outro alguém de vestido roxo com diadema amarelo, bem singelo, Fernando Mendes cantando a emocionante, Cadeira de Rodas:

Chiadeira na boca de som pendurada no poste, a dama borrando a maquiagem e o guardião da lei e dos bons costumes, revólver 38 no coldre de coxa e o charme fatal do trago no cigarro Minister se aproximava, puxando o papo que fatalmente acabava ao pé de um poste, com nossa turma espreitando e cometendo impurezas manuais.

Fernando Mendes corneava em sua letra sutil: Sentada na porta/Em sua cadeira-de-rodas ficava/Seus olhos tão lindos, Sem ter alegria,Tão triste chorava/Mas quando eu passava/A sua tristeza chegava ao fim/Sua boca pequena/ No mesmo instante/ Sorria pra mim.

Desde aquele tempo guardo a forte desconfiança da inveja de Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso, Vinicius de Moraes, Gilberto Gil e outros poetas pela capacidade produtiva de Fernando Mendes e a profundidade melódica de suas canções.

Pôsteres dele e de outros próceres como Odair José, Carlos Alexandre, Tony Albert e Amado Batista nunca faltaram no quarto de nossas diletas amas, onde costumava chegar de repente, a pretexto de procurar revista velha e demorava a sair.

Nos parques de diversão e passatempo, gostava de atirar nas espingardas de acertar carteiras de cigarro. Picaretagem cínica, os caras entortavam o cano do trabuco de chumbinho e ninguém conseguia levar a nota de 50 ou 100 cruzeiros convidativa. Pecado a 100 metros da igreja.

>>>>>>

Em parque de diversão nunca quis conversa com montanha-russa, negócio para masoquista vomitador, trem fantasma ou a caverna de Monga, a mulher que virava macaco. Monga, gostava de ver se aprontando, coxas bem alvas, carnudas e inocentes. Pra mim, eram. Nunca tive chance de me aproximar e dialogar antes da mutação fajuta.

Nunca gostei de brincar com perigo. Por isso evitava as atrações menos agradáveis dos parques e deixei de frequentar circo ainda menino, quando vi uma reportagem sobre a morte de centenas de pessoas em Niterói (RJ), vítimas de um incêndio criminoso. O leão não me aterrorizava e o elefante me causava dó, de tanto tédio paquiderme. Gostava quando ele, sonso, cagava no adestrador.

No futebol, pouco vi o perigo à minha frente. Sou felizardo por ter acompanhando grandes times de ABC e América. Gente boa de bola, de toque de efeito, de jogadas mágicas, causadoras de uma sensação que – presumo – a dama da noite sentia ao receber a música dedicada pelo apaixonado policial no parque de quinta categoria.

Sabíamos que não havia perigo quando íamos aos jogos. No Campeonato Brasileiro, por exemplo, o objetivo dos dois clubes era participar para garantir rendas extraordinárias – como de fato conseguiam – enfrentando grandes clubes nacionais.

Lá no sitio arqueológico do Machadão, o América botou para suar o Internacional de Porto Alegre campeão de 1975, início da máquina gaúcha que seria tri e melhor time da década. O mago Humberto Ramos, senhor das criatividades, levou Falcão e Carpegiani a correr atrás dele, autor do gol local no improvável 1×1. O Corinthians campeão paulista de 1977empatou em 0x0 e o Fluminense, Máquina Tricolor, perdeu de 2×1 em 1976.

O ABC deu um baile no Cruzeiro campeão da Libertadores de 1976 em partida do ano seguinte. Injusto empate em 2×2 com lindo gol alvinegro em linha de passe de Danilo Menezes até o toque por cobertura do atacante Zezinho Pelé sobre o goleiro Raul. Hélio Show defendeu todas as bombas nucleares disparadas pelo lateral-direito Nelinho, titular da seleção.

Contra o Guarani, campeão brasileiro, 1×1, jogo disputado, Cláudio Oliveira vencendo o duelo dos quarto-zagueiros contra Amaral, titular do Brasil no Mundial da Argentina. O ABC que foi um dos poucos a não perder para o Palmeiras campeão em 1972(2×2) e a vencer o vice Botafogo (2×1), resultado anulado pela inscrição irregular de três jogadores.

Jamais corremos perigo. Nos divertíamos. Nos orgulhávamos de nossos times que encaravam seus rivais do Nordeste de peito erguido. A torcida do Santa Cruz, no mencionado 1972, aqui chegou tocando tamancos pelas praias e na arquibancada de Lagoa Nova até engolir o 2×0 construído pela supremacia monolítica de Alberi sobre os homens banais . Fez um e deu outro ao lateral-direito Sabará.

Hoje começa a Série B para ABC e América. O ABC vai a Recife encarar o Santa Cruz no Mundão do Arruda. O América enfrenta o Avaí no Arena das Dunas. É começar se livrando do perigo no começo. O América tem time ajeitado e não deve ter problemas para ganhar em casa. Ao menos, não deveria. É a lógica que pode mudar pelo nivelamento rasteiro.

O ABC é um enigma. O time é praticamente o mesmo dos recentes vexames. Vem sendo remontado como quem troca o pneu de um carro em movimento. De aceleração. Do mesmo jeito do ano passado, quando o grito de sossego foi precedido de longo tormento.

É o tipo de emoção que um ser humano normal deve dispensar. A perspectiva do sofrimento. A agonia masoquista de uma montanha-russa de parque decadente. Melhor suportar Fernando Mendes embalando a adoração de um alguém para outro alguém.

Compartilhar: