Empresário escreve artigo em formato “conto de fadas” ironizando novo aeroporto

Sob o título “Once upon a time”, ou Era uma Vez, o economista e empresário Werner Jost escreveu artigo, publicado no O Jornal de Hoje, contando a história da construção do novo aeroporto internacional de São Gonçalo do Amarante, suas vantagens, desvantagens e viabilidade econômico financeira.

Obras do aeroporto avançam. Foto: Divulgação
Obras do aeroporto avançam. Foto: Divulgação

Sob o título “Once upon a time”, ou Era uma Vez, o economista e empresário Werner Jost escreveu artigo, publicado no O Jornal de Hoje, contando a história da construção do novo aeroporto internacional de São Gonçalo do Amarante, suas vantagens, desvantagens e viabilidade econômico financeira. O texto lembra de como foi o início desta obra, considerada desnecessária e onerosa diante da demanda econômica de um Estado tão carente de outros investimentos.

Confira, abaixo, na íntegra, o artigo

“Era uma vez… Há muito tempo atrás, quase em outro planeta, existia uma cidade bonita, com lindas praias e um clima ameno. As pessoas viviam felizes, sempre sonhando com um futuro melhor. Uma das muitas vantagens que a natureza lhe proporcionou foi uma posição estratégica no continente. Por isso, a cidade tinha um aeroporto bem estruturado e central. Enquanto outras cidades tinham seus aeroportos afastados do centro, a bela cidade tinha o dela bem ali, a alguns minutinhos do centro. Pela situação estratégica, tinha uma particularidade: O aeroporto era compartilhado, utilizado tanto pelos militares como pelos civis.

Os militares, contam alguns nativos, não gostaram muito desta situação. É que eles queriam estar entre si sem precisar dividir as instalações com o público em geral. O que fazer? Ajudou que outras forças tinham interesse no assunto, tanto por questões de segurança nacional, como de especulação imobiliária. Em reuniões da alta cúpula ficou decidido: A ordem seria empurrar os civis para fora do aeroporto. Como plano de ação tomaram a iniciativa de desapropriar uma grande quantidade de terras e de contratar as forças armadas para começar a construir uma pista no meio do nada. Ano a ano, durante muito tempo, a obra avançou.

Surgiram conversas de que a cidade tinha sido escolhida junto com outros seis lugares no mundo para abrigar um super-aeroporto, habilitados para receber super-jumbos. Como sempre, alguns cidadãos mais encrenqueiros começaram a questionar quem estes superaviões trariam e levariam. Especialistas explicaram que os passageiros passariam para aviões menores e depois viajariam para vários destinos em todo continente. Depois se descobriu que nem as empresas aéreas nem os passageiros queriam descer naquela cidade para depois viajar aos seus destinos finais. Seria muito mais fácil voar direto. Até porque as outras cidades eram maiores. Como os cidadãos desta cidade privilegiada não acreditavam mais nesta história, começaram circular boatos de que toda a carga advinda dos outros continentes passaria pelo aeroporto novo, seria redistribuída e depois seguiria ao seu destino final.

Com o tempo, ficou claro que as empresas de carga não tinham interesse em descer, tirar a carga e colocar em outros aviões menores. Preferiam voar direto para os grandes centros. Enquanto isso, as Forças Armadas continuaram a construir a pista do novo aeroporto. Algumas vozes críticas se levantaram argumentando que seria mais inteligente investir e ampliar o aeroporto existente do que continuar a gastar na construção de um novo e distante equipamento. O assunto ficou em ponto de espera enquanto as Forças Armadas continuavam construindo a pista.

Os poderosos se juntaram e decidiram que não poderia ficar daquele jeito. Algo precisava ser feito. O novo aeroporto tinha que se tornar realidade. Numa declaração “uníssona”, afirmaram que só com ele a economia daquele Estado poderia avançar. Disseram que seria criada uma nova plataforma de exportação responsável por impulsionar o Estado para novas riquezas nunca vistas. Os críticos calaram. Somente no meio dos amigos mais íntimos perguntava-se onde seriam encontradas estas indústrias para encher os aviões de carga e conquistar o mundo numa ofensiva comercial. E mesmo que existissem, porque não poderia ser feito no antigo aeroporto. Ainda bem que estes “pessimistas” de plantão não foram ouvidos. E neste período a pista nova crescia e crescia.

De repente, aconteceu o milagre que todos os habitantes deste país privilegiado tanto esperavam: Foram escolhidos para hospedar o jogo mais popular do planeta. A vida mudaria, tudo ficaria melhor, todos os problemas seriam superados. A cidade predestinada entendeu finalmente que para hospedar quatro jogos deste evento precisava de um aeroporto novo. Nem pensar em usar o antigo, tão perto da cidade, tão bem ligado por rodovias! Só um novo aeroporto podia atender a demanda de duas semanas de jogo. Finalmente, a construção do novo aeroporto foi decidida e implantada. As Forças Armadas podiam se retirar e deixar a obra para os civis. Eles tinham feito o papel deles. Tornaram o aeroporto da salvação um fato consumado.

Mas, como na maioria dos contos de fadas, há um “pequeno” problema que pode ameaçar o final feliz. Na nossa história, infelizmente, aconteceu também. Aviões grandes precisam de rotas de aproximação quilométricas antes de poder posar na pista. Os sábios que construíram a nova pista erraram no ângulo de um jeito que, enquanto ela estiver sendo utilizada, a pista geral do antigo aeroporto ficará inutilizada. É que, pelas projeções técnicas, aviões diferentes, utilizando as duas pistas no mesmo horário, se cruzariam na aproximação e isso não pode acontecer, nem no conto de fada e muito menos na realidade. Os sábios acharam rapidamente a solução: Poderiam usar uma pista menor que hoje cruza as pistas principais. Mas como no conto de fada, o final nem sempre é tão feliz. A pista é curta. Prolongar? Hoje há um loteamento com centenas de casas. Derrubar o conjunto? O leitor atento percebe que a história começa a se complicar. Mas posso acalmá-lo! Tudo é segredo bem guardado. Enquanto isso, o novo aeroporto está sendo construído. É o “novo símbolo do crescimento econômico do Estado”. Não há ainda acesso entre a cidade e o aeroporto. Mas contos de fadas não se preocupam com estes menores detalhes. Um dia pronto, estará tão distante que os habitantes ficarão com saudades do velho aeroporto. Tão perto… Ainda bem que estamos falando de um conto de fada e que a cidade onde tudo isso está acontecendo fica muito distante. Quase em outro planeta.”

Autor: Werner Jost, economista e empresário

 

 

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