Encruzilhada

Fim de semana em encruzilhada emocional. Amanhã, meu ídolo de infância, Roberto Dinamite, completa 60 anos de idade. Justamente num…

Fim de semana em encruzilhada emocional. Amanhã, meu ídolo de infância, Roberto Dinamite, completa 60 anos de idade. Justamente num domingo de decisão contra o Flamengo, de provável sequência de vice-campeonatos do Vasco da Gama.

Reprovo o Roberto Dinamite cartola. Faltam-lhe os atributos básicos do líder, do presidente de um clube que foi grande e passou pelo vexame do rebaixamento duas vezes pelas suas mãos: comando, competência, bravura, murro na mesa quando é preciso, autoestima, respeito à história do clube que ele construiu em capítulos decisivos. Um vencedor não se conforma jamais. Quer sempre mais. Transforma o triunfo em sua bandeira e flecha de imponência e diferencial de grandeza.

É o Roberto Dinamite de semblante oblíquo, disforme, apático e conformado. Roberto Dinamite que não denunciou o que recebeu de legado monstruoso e cometeu deslizes de nepotismo na administração bisonha.

Eis o Roberto Dinamite presidente, herdeiro dos piores tempos de Eurico Miranda, ovo e serpente venenosa que começou a escalada destruidora do Almirante, o clube mais democrático do Brasil, primeiro a aceitar negros vestindo sua camisa, palco do lançamento da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) pelo presidente Getúlio Vargas.

É o conflito do vascaíno maduro, quarentão, com o menino de um ídolo só. Sofrendo gozações flamenguistas e respirando pelos rompantes do herói de sorriso triste e pontaria certeira, artilheiro de técnica discutível e faro rastreador.

Roberto Dinamite, o jogador, amenizou meus sofrimentos, comandou vitórias impossíveis, enfrentou o exército rubro-negro brilhante, arrogante e quase imbatível. Como Quixote de lanças nos pés. Mal acompanhado por nulidades mantidas pela avareza dos que tratavam o clube como um armazém de secos e molhados, ora, pois.

O torcedor de grande área que decidiu voltar ao Vasco em 1980 após o Flamengo anunciar sua contratação, gravando vinhetras de uma dobradinha terrível com Zico. Vide, fez cinco gols, nos 5×2 no Corinthians.

1981. Cravados 44 minutos do segundo tempo e havia uma poça d`água no meio do caminho. O Flamengo comemorava o título carioca numa quarta-feira de dilúvio sem arca no Maracanã com vascaínos resistentes.

Cartolas desciam aos gabinetes burocráticos do estádio para buscar o troféu e as medalhas dos campeões antecipados enquanto a charanga cantava os diversos hinos do clube da Gávea. No meio do caminho havia uma taça.

Havia Roberto Dinamite e um balaço rasteiro, pistoleiro, gol que silenciou a massa majoritária e reacendeu pulmões humilhados pelo país inteiro. Aos 11 anos, berrei chorando e gritando o nome do camisa 10 do Vasco.

O gol impossível adiou a decisão, vencida pelo favorito com providencial ajuda extracampo. Botaram um ladrilheiro em campo quando o Vasco pressionava pelo empate que levaria a partida extra para a decisão. O Flamengo tinha muito mais time. Roberto Dinamite significava o time inteiro.

Roberto Dinamite nas faltas que infernizavam o goleiro Raul. E levavam a minoria da qual fazia parte a delirar no desabafo de vindita. Raul dava um passo à frente e Roberto batia rente ao seu pé de apoio. Era saco. Infalível.

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O gol mais repetido da televisão brasileira, especialmente do programa o Grande Momento do Futebol, da Band, é assinado por Roberto Dinamite. Em 1976, no minuto final, recebeu um passe alado do refinado armador Zanata, matou no peito, deu um chapéu no beque central Osmar Guarnelli e meteu um sem-pulo de arte marcial, estufando as redes do goleiro Wendell.

Um gol tão lindo que inspira um dos maiores artilheiros mundiais de hoje. O sueco Ibrahimovic, especialista em saltos mortais e patadas indefensáveis, cópias nem tão perfeitas da obra-prima de Roberto Dinamite contra o Botafogo.

Sempre foi Roberto Dinamite e mais 10. Em 1977, quando o Vasco montou um grande time, ele disparou, arrancando da intermediária, driblando o imortal Carlos Alberto Torres num dos gols do 3×0 sobre o Flamengo. O Vasco foi campeão, ele batendo o último pênalti, depois de sete anos de espera.

Em 1978, na Copa da Argentina, escalado à força depois de jogado no esquecimento pelo técnico Cláudio Coutinho, Roberto Dinamite surgiu como o salvador sem a genialidade de companheiros como Zico, Rivelino, Cerezo e Reinaldo. Matou no peito e chutou no canto do goleiro Koncilia, da Áustria. Roberto Dinamite evitou a humilhação de o Brasil ser eliminado na primeira fase com três empates.

O Roberto Dinamite campeão em 1982, de novo, segurando sozinho um time medíocre, contra a máquina flamenguista de Zico, Andrade, Adílio, Tita, Leandro, Mozer e Júnior. Roberto Dinamite na proteção psicológica à geração brilhante que o sucedeu, na exuberância de Geovani, Romário, Mazinho, Edmundo e Bismarck.

O Roberto Dinamite emprestado sem o menor respeito para a Portuguesa de Desportos em 1989 e depois ao suburbano Campo Grande(RJ) em 1991. Para voltar no ano seguinte, aos 38 anos, persistente, a ajudar na primeira conquista do inédito tricampeonato carioca.

É separar o ídolo do homem comum, é manter a relação prudente da arquibancada ou da televisão com o talento em campo. Jogador de futebol quase todo é igual e costuma decepcionar o fã no contato pessoal. Zico é a exceção eternizada e universal.

Roberto Dinamite, o maior artilheiro do CampeonatoBrasileiro(em gols acumulados a partir de 1971), balançou as redes mais do que Zico nos duelos épicos das multidões em transe com 150 mil pessoas para ver Vasco x Flamengo de verdade, no recheio dos craques.

O cartola paripatético pode ganhar de presente a amargura de outra derrota em final. O artilheiro solitário sempre será inesquecível . Como o autógrafo que recebi, tímido, de suas mãos em 1982 quando passou por Natal com a seleção e que se perdeu nas mudanças de minha vida de cirandeiro involuntário. É a imagem teimosa de minha gratidão calejada e revivida nas narrações de José Carlos Araújo e nos rebuscados memoriais dos filmes.

 

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