Entenda quais os prós e os contras dos inibidores à base de anfetamina

Senado derrubou portaria da Anvisa que proibia venda e prescrição de remédios usados no tratamento da obesidade

Foram proibidas medicamentos que têm na fórmula as substâncias femproporex, anfepramona e mazindol. Foto: Divulgação
Foram proibidas medicamentos que têm na fórmula as substâncias femproporex, anfepramona e mazindol. Foto: Divulgação

Proibidos desde 2011, os inibidores de apetite à base de anfetamina podem voltar ao mercado nacional. O Senado suspendeu, na última terça-feira (2), a resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que proibia a venda, prescrição, fabricação e importação de medicamentos usados no controle da obesidade que têm na fórmula as substâncias femproporex, anfepramona e mazindol. O motivo? A eficácia deles podia ser menor que o risco que ofereciam.

E, como de costume, a resolução voltou a incendiar a discussão sobre o assunto. De um lado, estão endocrinologistas, nutrólogos, associações e sociedades da área, que defendem que eles devem ter o maior número disponível de opções para cuidar deste caso. “A obesidade é um problema de saúde pública, mais de 50% da população brasileira está acima do peso e nós já temos muitas limitações nesse tratamento, se tivermos dificuldade também em ter acesso aos medicamentos fica ainda mais difícil ajudar”, explica o Dr. Ricardo Meirelles, Presidente do departamento de Comunicação Social da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Na outa ponta, estão médicos de diversas outras especialidades e pesquisadores que defendem, entre outras coisas, que as substâncias podem causar dependência, não funcionam em perda de peso a longo prazo e são ultrapassadas. “Existem dados que mostram que estes medicamentos têm um efeito colateral terrível”, afirma o médico homeopata da Clínica Aspin, Dr. Silvio Laganá de Andrade.

A favor 

É unanimidade entre qualquer médico que emagrecer é prioritariamente uma mudança no estilo de vida, que envolve prática de exercícios físicos e reeducação alimentar. Mas, eles sabem também que existem casos em que a compulsão alimentar, a ansiedade ou outros distúrbios físicos dificultam, e muito, a perda de peso. E é justamente para estas pessoas que os remédios, em algum momento, são necessários.

“Esses medicamentos podem ser extremamente úteis em alguns casos de obesidade. Esgotados outros recursos para emagrecimento, as pessoas podem se beneficiar destes remédios”, afirma Dr. Ricardo Meirelles. E, completa, “são feitas indicações em situações muito específicas e elas precisam estar disponíveis quando forem necessárias”.

Atualmente, a sibutramina – que tem a comercialização efetivamente controlada pela Anvisa -, é o medicamento usado com mais frequência neste tratamento. Ao lado dela há outras opções, mas que por serem importadas, têm preços muito elevados. A redução dos valores dos medicamentos e a possibilidade de acesso para as classes mais baixas estão entre as mudanças que a volta da fabricação nacional pode trazer.

A sibutramina é usada para aumentar a saciedade, enquanto os medicamentos à base de anfetamina atuam no apetite, diminuindo a fome. E, como a maioria dos remédios de tarja preta, causa uma série de efeitos colaterais. No caso da anfetamina, eles são: boca seca, aumento da frequência cardíaca, insônia e, por agirem no sistema nervoso central, aumento da energia e do grau de atenção – por isso também é usada no tratamento de pacientes com déficit de atenção.

Justamente devido aos riscos, o uso destes remédios deve ser controlado pela Anvisa com regulamentação eficaz e regras rígidas. Primeiro, os médicos não indicam para pacientes que queiram se livrar de pequenos excessos de peso, mas sim para aqueles que o quadro é realmente grave. Outras contraindicações são ainda problemas cardíacos, arteriais e histórico de dependência química. “Temos experiência de mais de 50 anos na prescrição destes remédios e isso nos dá segurança para usar”, explica o endocrinologista formado na Unifesp, Dr. João César Castro Soares.

Segundo ele, quando os medicamentos chegarem ao mercado serão de grande ajuda no pré-operatório de cirurgias bariátricas, por exemplo. “Às vezes, antes da cirurgia tem que perder 10% do peso para melhorar o quadro cardiovascular. Mas, muitas pessoas não conseguem. Então fazemos dois procedimentos, primeiro colocamos balão gástrico por quatro, cinco meses até emagrecer. Depois sim, faz a cirurgia. São dois procedimentos, dois custos e risco maior para os pacientes”. O endocrinologista explica que o uso dos remédios ajuda a perder peso e exclui a necessidade do uso do balão.

Contra

Os especialistas contrários à venda destes remédios afirmam que há disponível no mercado outras opções de tratamentos para serem usados no combate à obesidade, que geram menos prejuízo aos pacientes. “Estes remédios deixam a pessoa agitada e, às vezes, é preciso outros medicamentos para conter os efeitos. Há muitos prejuízos para a parte circulatória também”, explica o médico homeopata especialista em Nutrologia Médica, Dr. Silvio Laganá.

Além de outros remédios – mais modernos e com composições diferentes – há também terapias alternativas, como os fitoterápicos. O especialista afirma ainda que eles são eficientes e amplamente utilizados nos Estados Unidos, mas estão proibidos pela Anvisa no Brasil.

Anvisa

Em 2011, muito se discutiu sobre os excessos que a Anvisa protagonizou ao proibir estas substâncias quando seu papel central seria, na verdade, regulamentá-las. Deixando a discussão política de lado, os médicos favoráveis comemoram o cancelamento da portaria e aguardam ansiosos uma nova regulamentação por parte da Agência.

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Anvisa explicou que a decisão do Senado a impede de “proibir” o uso destas substâncias, mas que ainda cabe a ela regulamentar o produto.

Eles explicaram que até a venda voltar a ser feita, muita burocracia ainda precisa ser resolvida. Em 2011, os registros de todos os medicamentos que continham femproporex, anfepramona e mazindol foram cancelados, ou seja, eles deixaram de existir no Brasil. Agora, para voltar a serem fabricados e comercializados, as empresas farmacêuticas precisam pedir um novo registro à Anvisa, como se tivessem acabado de criar um novo remédio. A Agência, por sua vez, analisa a eficácia e segurança deste remédio antes de liberar a manipulação e a venda. Este processo leva meses.

Paralelo a esse movimento, a Anvisa irá trabalhar em uma nova regulamentação de como estes remédios poderão ser fabricados e vendidos.

Fonte: Terra

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