Espanha Grau Zero
Resenhar um livro cujo prefaciador é Mario Vargas Llosa requer maiores cuidados. O descartável assombra da primeira a última linha. A propensão em copiar ideias induz novos caminhos.
O prazer da leitura de “Nada”, da espanhola Carmen Laforet (1921-2004) começa pela qualidade gráfica peculiar da editora Alfaguara – dos mais bonitos no mercado editorial brasileiro.
Logo após o texto de Llosa, tem inicio a narrativa sufocante da jovemórfã Andrea, então com dezesseis anos. As paixões que a pouca idade desperta serão antepostas ao desmoronamento financeiro e moral na Espanha dos anos subsequentes à Guerra Civil – números mais pessimistas creditam dois milhões de mortos na conta do General Francisco Franco, entre os anos de 1936 e 1975.
Impressões físicas, sons, cheiros e aspectos das coisas são revelados com maestria na escrita de Laforet – então com 23 anos de idade. Na Barcelona perigosa e empobrecida, Andrea recomeça a vida dividindo um casarão velho, carcomido e mal cheiroso com o que restou da família.
George Orwell diz no artigo “Recordando a Guerra Civil” que “Uma das coisas mais essenciais da guerra é o fato de jamais podermos escapar aos odores nada atraentes e de origem humana”. Para Orwell, a latrina era o epicentro das escaramuças ibéricas. Andrea percebe o mesmo.
Lembrei-me da angustiante história de Edmund, o menino de “Alemanha Grau Zero” (1947), filme do italiano Roberto Rossellini, em que uma família numerosa habita um espaço reduzido e degradante, fugindo da morte onipresente. O convívio das individualidades em tal situação é enervante.
A semelhança do drama vivido por crianças e adolescentes nas duas obras – livro e filme – reflete a tragédia que acomete aos mais fracos em uma guerra – o discurso do professor pedófilo em “Alemanha…” é emblemático.
Tanto Rossellini como Laforet utilizam o sexo, a fome e o medo para traçar paralelos entre o fim da inocência, a batalha pela sobrevivência e a infâmia pessoal dos degenerados em meio aos caos social.
Com uma prosa sem disfarce e bem construída, Carmen Laforet tem em “Nada” sua obra de maior relevância. A história da jovem Andrea, mergulhada na imundície, na vaidade e na descoberta do amor arrebata o leitor desde as primeiras linhas. A cada capítulo, a crescente tensão pessoal e familiar eclode em novos episódios, cujo final é incerto.
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