Especialista defende que contar calorias para emagrecer não funciona

"A grande questão é procurar comidas mais nutritivas, não necessariamente menos calóricas."

Método de contar calorias só dá resultado no início da dieta. Foto:Divulgação
Método de contar calorias só dá resultado no início da dieta. Foto:Divulgação

O que engorda mais: cem calorias de brigadeiro ou cem de espinafre? Para os adeptos de dietas baseadas na contagem de calorias, como a dos pontos, dá na mesma, o que importa é o valor energético da comida.

Mas, para o americano Jonathan Bailor, autor de “The Calorie Myth” (o mito da caloria), não é bem assim. Em seu livro, lançado hoje nos EUA e já nas listas de mais vendidos, ele defende que as calorias são diferentes, e contá-las para emagrecer, em vez de ajudar, atrapalha.

Bailor tem 30 e poucos anos (ele não diz ao certo), é formado em ciência da computação e trabalha na Microsoft. No fim da adolescência, motivado pela vontade de ganhar músculos, foi personal trainer por tempo suficiente para concluir que o método “coma menos, se exercite mais” nem sempre funciona.

Bailor se afastou do ofício e se tornou um pesquisador independente. Por quase 15 anos, analisou estudos sobre perda de peso e exercício. Em 2012, lançou o primeiro livro e agora lança o segundo, com base em 1.300 pesquisas.

“Contar calorias é eficaz para perder peso a curto prazo. Mas a longo prazo esse método falha na maioria das vezes”, disse o autor.

Mais importante do que a quantidade é a qualidade das calorias, defende Bailor –ele adota o slogan “coma mais e se exercite menos, mas de forma inteligente”.

“Não usamos as mesmas técnicas cirúrgicas de 40 anos atrás nem os mesmos computadores. Não precisamos usar as mesmas abordagens para dieta e atividade física”, afirma na introdução da obra, que termina, claro, com a proposta de um novo método para emagrecer.

MENOS CONTAS

No lugar da calculadora de pontos, Bailor propõe uma régua que separa as calorias saudáveis das não saudáveis, levando em conta os nutrientes que elas oferecem e a forma como são metabolizadas.

No topo estão os vegetais com pouco carboidrato (como brócolis e alface) e as carnes magras, que podem ser ingeridos à vontade.

Depois, vêm os cereais integrais, as sementes e as castanhas. No pé da lista estão doces e carboidratos refinados, que devem ser evitados.

“Esses alimentos têm uma densidade nutricional muito mais baixa que a dos vegetais com pouco amido e as frutas cítricas. Devemos comer carboidratos de alta qualidade.”

Ele compara 250 calorias de espinafre com 250 de farinha branca. Enquanto o vegetal supre 107% das necessidades diárias de cálcio, a farinha supre 1%.

Além de menos nutritivos, carboidratos refinados são absorvidos de forma rápida pelo organismo e uma parte maior é convertida em gordura, em comparação com a proteína, diz Bailor.

“Faz sentido. O corpo transforma o excesso de carboidrato em gordura. Parte da proteína também vira gordura, mas é uma parcela menor”, diz Fabio Bessa Lima, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

Mas, para ele, o que faz a matemática da ingestão e do gasto calórico não ser exata é a absorção do alimento pelo organismo, que varia de pessoa para pessoa e até de acordo com a flora intestinal.

“Nem tudo que você come é absorvido. Uma parte passa pelo tubo digestivo e sai nas fezes. Não dá para ficar escravo dos rótulos.”

EM DEFESA DO DOCE

Para o endocrinologista Alfredo Halpern, que criou a dieta dos pontos há mais de 40 anos, se o objetivo é emagrecer, as calorias são, sim, todas iguais.

“Qualquer dieta com menos calorias faz perder peso. Você pode emagrecer com a dieta do brigadeiro: come seis brigadeiros e nada mais.”

Mas ele admite que esse emagrecimento é menos saudável do que com uma dieta variada. “Se o objetivo é ter saúde e manter o peso, é preciso comer de tudo em quantidades moderadas.”

Por isso, critica a dieta de Bailor, que restringe os carboidratos. “É mais ou menos o que prega a dieta da proteína. Mas não dá para ficar sem carboidrato, a pessoa enjoa.”

O nutrólogo Celso Cukier recomenda observar outras características do alimento além das calorias, como a quantidade de sal e o fato de ser processado ou não. “Industrializados são ricos em gordura e açúcar. As calorias são concentradas, e o risco de comer em excesso é maior.”

A nutricionista Michelle Bento, do Vigilantes do Peso, concorda: se forem priorizados alimentos naturais e ricos em fibras, a quantidade de calorias cai naturalmente.

Em 2010, o Vigilantes do Peso abandonou o sistema de pontos baseado só nas calorias e adotou um método em que os alimentos ganham valores conforme a quantidade de fibras e proteínas.

“A grande questão é procurar comidas mais nutritivas, não necessariamente menos calóricas.”

Fonte:FSP

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