Espelho, espelho meu! – Vicente Serejo

Quando vi meu rosto pela primeira vez no espelho do quarto da minha mãe, Senhor Redator, nunca mais duvidei de…

Quando vi meu rosto pela primeira vez no espelho do quarto da minha mãe, Senhor Redator, nunca mais duvidei de sua magia. Alguns anos depois, descobri o espelho da rainha má, aquela que mandou matar Branca de Neve e foi enganada pelo caçador bondoso com um coração de marzipã. E nem tão tarde assim compreendi a força encantadora nos olhos dos índios, quando caíram na conversa dos portugueses conquistadores, segundo li no livro ‘História do Brasil’, de Armando Souto Maior.

Nunca mais duvidei dos espelhos e por isso gosto dos contos de fada. Fui um menino vigiado por uma mãe que temia o mormaço e a poeira. Recluso, era um leitor de histórias infantis que minha tia Edianeube levava a Macau. Tudo porque um dia fui trazido a Natal, às pressas, com febre alta, enrolado numa toalha úmida para não ter convulsão. Fui atendido por um jovem médico, já famoso, e de quem anos depois seria amigo, mas guardando o respeito de chamá-lo de doutor: Heriberto Bezerra.

A coincidência é que, por esses dias, vividos na peleja contra uma gripe medonha, daquelas que Antônio Maria dizia deixar na boca o azinhavre de pulseira de relógio, de couro, depois do suor de um verão abrasador, andei passando os olhos nos livros de histórias. Precisava informar a um amigo, via e-mail, se existia aqui, nestas prateleiras, um exemplar da edição da Cátedra dos ‘Contos e Histórias de Proveito & Exemplo’, do glorioso Gonçalo Fernandes Trancoso, com introdução de Franco de Barros.

Não, não tem. A edição que vive aqui é mais nobre, se posso estufar o peito, a mesma que esse amigo já tem: é da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1974, reproduzindo o texto integral de 1624, enriquecido da leitura crítica, prefácio, glossário e notas de João Palma-Ferreira. Foi certamente a mesma edição de outros anos mais antigos que brilhou nos olhos de Câmara Cascudo e neles fundou sua admiração pelas estórias e fez nascer os seus contos tradicionais – daqui, do Brasil e de Portugal.

Tudo flutuou no mar da memória, desgarrado das profundezas da alma do menino, depois que li a notícia de que o nosso Luís Inácio, o Lula da Silva, por isso mesmo hoje o maior intérprete deste povo de soçobradas influências macunaímicas, deu um puxão de orelha como se seu partido precisasse olhar-se no espelho. Se olhar, certamente verá no rosto seus novos parceiros, como José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor e outros, que o próprio Lula imaginou serem coisas de um partido maduro.

O que disse Lula? Tudo aquilo que só Lula pode dizer do PT ao PT. Que os mandões do partido desfiguram seu passado, quando caiu na prática dos outros partidos que um dia tanto combateu e, por combatê-los, venceu. Como escreveu a Carta Capital, e por mais que tenha antolhos diante de um viés ideológico, o jeito é mirar-se no espelho, aquele hoje guardado no criado-mudo. Sabe o PT que não é mais aquele. Como no caso da Rainha Má, o espelho do PT também não mentirá. Nem para agradar.

CENA – I

A cena patrocinada pelo DEM na reunião do diretório foi uma demonstração de força do senador José Agripino e também a mais humilhante e constrangedora da nossa história política nas últimas décadas.

EFEITO – II

O placar esmagador – 45 a 9 votos – revela o modo de uma política de partidos privatizados. Rosalba não caiu diante da preferência por um nome melhor. Sua queda foi exigência do PMDB para aliar-se.

ERRO? – III

Teria a governadora confiado demais no amigo Agripino de que sua dignidade não seria submetida a uma crueldade digna das melhores tragédias gregas e por isso cometeu o erro de não ter o partido dela?

LEGADO – IV

A posição intramuros dos Democratas é fria: Rosalba foi senadora e governa como resultado de uma articulação agripinista, não poderia levar o filho Felipe Maia a ser derrotado nas urnas. É uma punição.

EFEITO – V

De tão trágico, e contraditoriamente, como é da natureza, o senador José Agripino também sai da cena derrotado. Deixou sobre a mesa as suas vestes talares de líder para ser subalterno refém do aluizismo.

ANOTEM

Bem que esta coluna avisou que era abandono: a cúpula do PSB teme ausência de apoio à candidatura de Eduardo Campos nos estados. O PSB daqui consentiu a grande derrota que ele vai sofrer nas urnas.

FESTA

Márcia Carrilho vem por aí para comandar a festa dos noventa anos da matriarca Lourdinha Carrilho, a jovem freira que um dia, encantada por um sertanejo simples e trabalhador, deixou seu hábito e casou.

PROVAS – I

Os documentos históricos comprovam a verdade a quem ainda duvidava: nunca houve altruísmo dos capitalistas ao apoiarem em São Paulo o Golpe Militar. Os militares estimularam os grandes negócios.

NEGÓCIO – II

Documentos de arquivos secretos da Escola Superior de Guerra mostram: indústrias se organizaram e fizeram grandes vendas às Forças Armadas. Nossa direita sempre foi mais escrota do que a esquerda.

GLÓRIA

O time de craques da OAB-RN retorna de Budapeste, na Hungria, com o título de vice-campeão do campeonato mundial de advogados. Agora precisa só encontrar uma boa utilidade para essa sua glória.

DROPS

Quinta, 19 às 22h, na Saraiva do Midway, Flávio Emílio Cavalcanti autografa seus livros ‘Drops de Carreira’ e ‘Perguntas e Respostas para gestão de sua carreira’. Selo Bons Costumes, Novos Escribas.

LEGADO – I

Um bom legado da Copa, de verdade, é o trabalho do Instituto Legislativo Potiguar – ILP, que uma semana antes da Copa completa a formatura em inglês de 1.493 profissionais com 120 horas de aulas.

EXEMPLO – II

O trabalho da Assembleia Legislativa através do ILP vai além dos seus limites e não tem a copa como sua fronteira. Um profissional bilíngue no mercado turístico tem uma maior qualificação profissional.

TIRO

Do colunista Ricardo Melo na Folha de S. Paulo sobre o estilo épico e intolerante de Joaquim Barbosa: ‘Alguém poderia citar uma medida da gestão Barbosa que tenha servido ao povo contra os poderosos?’

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