Espetáculo “Zaoris” acontece hoje e amanhã no Ponto Sete, em Ponta Negra

Inspiradas na obra de José Simões Lopes Neto, cenas e canções exploram imaginário do homem do campo

Conr1

Conrado Carlos

Editor de Cultura

As semelhanças entre o Rio Grande do Norte e do Sul vão além da mera ortografia. Ambos os Estados possuem tradição pastoril e têm na cantoria e na poesia o canal narrativo de histórias regionais que envolvem o folclore do homem do campo – seja no rico solo sulista ou na secura sertaneja. Portanto, o espetáculo “Zaoris”, inspirado em contos e lendas do gaúcho João Simões Lopes Neto (1865-1916), em cartaz no Ponto Sete, em Ponta Negra (local que também abriga a Feira de Arte e Cultura de Gana), desperta curiosidade em quem pensa em fugir do bombardeio midiático imposto pela Copa do Mundo. A partir das 18 horas de hoje e de amanhã (24), o natalense terá a oportunidade de conhecer o universo daquele que é considerado o maior nome do regionalismo gauchesco.

O espetáculo conta com quatro atores e uma banda composta com seis músicos, todos gaúchos – além de técnicos e equipe de produção. Dirigido por Adriana Motola, com figurino de Marco Fronkowiack e Maura Sobrosa, a direção musical de Fernando Keiber completa o pacote folclórico do grupo Gaia Cultura e Arte, do Rio Grande do Sul – a peça tem patrocínio do Ministério da Cultura. Zaoris é uma figura nascida numa Sexta-Feira Santa, com dons especiais. Seus olhos brilhantes e misteriosos veem através de corpos opacos, terras ou montanhas, e localiza tesouros escondidos. Luís da Câmara Cascudo afirmou que este mito tem origem árabe e denuncia o velho hábito de enterrar dinheiro – costume muito popular na Espanha.

Natural de Pelotas, que na virada do século XIX para o XX rivalizava com Porto Alegre pelo posto de principal cidade gaúcha, Simões Lopes Neto lançou dois livros que entrariam para o cânone local: “Contos Gauchescos” e “Lendas do Sul”, obras que contribuíram para forjar a imagem cultural do Rio Grande – de família rica, ele teve uma vibrante participação na vida cultural da cidade, conhecida em todo o país através de brincadeiras homofóbicas; fica o registro que a fama de ‘delicados’ que impregnou nos pelotenses decorreu da mania que as famílias abastadas tinham de enviar os jovens para estudarem na França. Ao voltarem mais refinados e educados, com sotaque afrancesado, se contrapunham ao machão fazendeiro.

“O gaúcho transborda as fronteiras do Rio Grande. É um tipo que existe na Argentina e no Uruguai, com pequenas diferenças devido à colonização. Por mais que o clima, a terra e a descendência europeia o diferencie do homem do campo nordestino, são muitas as características que os aproximam, como a dureza de viver de uma atividade econômica que o isola da modernidade e o transforma em um sujeito atípico. A poesia e a música feita por essa gente é a antítese do homem urbano”, diz João Emílio Venazzi, gaúcho de Charqueada, na região metropolitana de Porto Alegre. O representante comercial mora em Natal há quase duas décadas e sempre viu a literatura de cordel como uma irmã siamesa das lendas gaúchas.

O espetáculo Zaoris se sobrepõe como uma simples disseminação da história cultural regional ou da obra de um escritor gaúcho para servir de exteriorização de um imaginário que buscava privilegiar a ficção – o musical resvala por lendas e contos simonianos através da narrativa oral, em que diversas vozes estereotipam o contador de causos Blau Nunes. É uma releitura do homem gaúcho dos últimos dois séculos através de uma simbologia dos valores que sobreviveram ao tempo e às mudanças socioeconômicas – a famosa cordialidade, fraternidade, humildade do interiorano. “A poética do indivíduo que habita lugares distantes dos grandes centros, mesmo que hoje o desenvolvimento tenha chegada ao interior também, é diferente. O ritmo de vida e os valores são outros, o que cria um ser cujo olhar ainda mantém a bondade e a confiança no próximo como fundamental para sua existência”.

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