Esse é pra ler: “Michel Foucault e a verdade cínica de Ernani Chaves”

O livro é o resultado de uma investigação exaustiva sobre um tema deixado de lado pela filosofia acadêmica

Não lembro bem como foi, mas usei o termo “cínico” rapidamente em um sentido vulgar e Ernani Chaves, professor da UFPA, alertou-me en passant para um “outro” cinismo. Fazia tempo que Ernani Chaves vinha pesquisando sobre o tema. Fiquei feliz ao ler o livro “Michel Foucault e a Verdade Cínica” publicado no ano de 2013 pela editora PHI de Campinas. O livro é o resultado de uma investigação exaustiva sobre um tema deixado de lado pela filosofia acadêmica. É que a “verdade cínica” é realmente difícil de aceitar, porque a partir dela muitas coisas se tornam inegociáveis em um mundo que pede negociações que chegam, no extremo, às corrupções. Ernani Chaves com seu livro consegue por em cena novamente o problema da “estilística da existência” que foi o cinismo contra a sua redução a um “conjunto de anedotas (p. 34). Pensando no cinismo – seja pelo lado de fora, seja pelo lado de dentro – conseguimos pensar em muitas coisas que nos vem acontecendo.

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Lendo o livro fiquei inevitavelmente com essa ideia de que há um cinismo e outro cinismo. Chamaria-os provisoriamente de cinismo maior e cinismo menor. No mundo da vida, o cinismo tornou-se um termo usado para falar apenas de um tipo de postura antiética em um contexto moral. O mentiroso com seu otário, o debochado que usa o poder a seu favor, o político que “rouba mas faz” são representantes desse cinismo menor. Já a riqueza cínica dos filósofos antigos (que ressurgiu na história moderna no século 19 com Nietzsche, por exemplo) implica um cinismo maior. Desde a complexa filosofia de Diógenes o cinismo maior foi apagado na história do pensamento e da vida cotidiana onde o cínico deixou de ser o enunciador da verdade (um cínico maior) doa a quem doer para tornar-se aquele sujeito que sabe o preço de tudo mas não sabe o valor de nada (um cínico menor) sobre o qual um dia falou Oscar Wilde.

Não sei se Ernani Chaves concordará comigo nessa classificação um tanto rápida (quem sabe tosca) que acabo de elaborar, mas ela é fruto da reflexão que seu próprio livro sugere. O livro – um ótimo livro de filosofia – já começa a provocar efeitos de pensamento.

Ernani Chaves parte de um curso de 1981 chamado “A Coragem da Verdade” no qual Foucault faz um verdadeiro elogio do cinismo antigo enquanto, ao mesmo tempo, elabora uma espécie de testamento intelectual, como nota Ernani Chaves. Nesse texto “o conceito de parrêsia ou ainda do lugar concedido ao cinismo antigo como uma espécie de modelo de crítica” (p. 11) é o que será investigado pelo autor. A parrêsia é o “dizer verdadeiro” que interessou a Foucault como postura dos cínicos antigos. Ernani Chaves analisará “as modulações do conceito de parrêsia” para mostrar “como e por que o cinismo antigo é pensado como a expressão maior do “dizer verdadeiro”, a partir da confrontação entre os cínicos e Sócrates”. Ernani mostrará como Foucault percebeu nos cínicos a filosofia como “prática de vida “caracterizada pela insolência e pelo escândalo” por uma ética e uma pedagogia orientadas pelo papel central desempenhado pelo corpo” (p. 16).

O “dizer verdadeiro” diz respeito à relação daquele que fala com aquilo que ele diz. O “parrhesiastes” será em Foucault (p.23), aquele que expõe tudo o que lhe vem ao espírito. Trata-se de, na posição daquele que diz, da coragem para dizer a verdade. Trata-se também do diálogo que é “a técnica mais importante para se jogar o jogo da parrêsia” diz o autor citando Foucault. Só que, em vez da maiêutica socrática – ainda que Sócrates praticasse a parrêsia, – entra em jogo, a “pedagogia do escândalo”. O princípio cínico é o do “viver escandalosamente”(p. 70). Ora, em um mundo que elogia o falso e a aparência falsa, a verdade sempre é um escândalo. Daí que filosofia – nas suas diversas forma de ser e aparecer – ainda incomode a tanta gente. Se Foucault entendeu a filosofia (como aos gregos a entendiam) como uma prática da verdade que é “uma prática de si” (p. 41), ela é – vale dizer mais uma vez: em um mundo sempre em acordo com a bem comportada falsidade -, necessariamente um escândalo. A arte, assim como a filosofia, é o “cinismo da cultura”(p. 71). Natural que diante do cinismo menor da Indústria Cultural, o cinismo maior da arte não tenha um lugar privilegiado na cultura.

A crítica é sempre um escândalo quando se trata de acobertar a verdade. Foucault, como Ernani Chaves deixa claro em todo o seu livro, é herdeiro assumido de Nietzsche. Ernani Chaves, herdeiro ele mesmo de Foucault, entrará no texto de Foucault e completará as brechas por ele abertas analisando todos os autores citados por Foucault (de Gehlen a Niehues-Pröbsting, passando até pelo tão esquecido Paul Tillich). Penso que o que ele quer é praticar uma modulação da parrêsia junto com Foucault. Uma sofisticada parrêsia acadêmica.

O livro dá um lugar especial ao interesse de Foucault pela literatura nos seus escritos desde os anos 60 e nos seus últimos escritos e é por isso que Ernani Cahves dedicará grande parte de seu livro a analisar a presença de Baudelaire em Foucault. Mas não se trata apenas de ser fiel a Foucault, embora o livro seja. Trata-se de ir além, fazendo o diálogo de Foucault com outros autores abrir-se, mas também pondo em diálogo autores e questões não esperadas, como a que Ernani Chaves propõe pondo em conexão Foucault e Benjamin a propósito de Baudelaire. Creio que é o próprio Ernani que em diálogo com Foucault e indo ao fundo de todos os outros com quem Foucault dialoga, que diz o que quer dizer.

Nós e a filosofia

Não há espaço aqui para uma revisão do livro todo de Ernani Chaves. Até porque comentá-lo na sua riqueza jamais seria possível no espaço de uma resenha cujo fito é sugerir uma leitura possível. Chama a atenção, no entanto, o papel estratégico da leitura de Foucault sobre o cinismo antigo enquanto por meio dela é possível questionar a atualidade da própria filosofia. Conectando Foucault a vários autores, de Nietzsche a Bataille, de Baudelaire a Benjamin, Ernani Chaves abre espaço para repensar Foucault, mas também nos dá a chance de refletir sobre o que nós mesmos queremos com a filosofia nos dias de hoje. Vale prestar atenção no trecho em que ele comenta a classificação de Foucault sobre os filósofos: o filósofo-legislador, o filósofo-pedagogo e o filósofo–filósofo que é o cínico. Aquele que é o único que ri do poder…

Ernani Chaves escreveu um livro de filosofia que, para alguns, poderia ser uma chatice tal o grau de detalhamento a que ele chega. Para quem gosta do detalhe do detalhe, da delicadeza do argumento bem construído, o livro será um prazer em sentido foucaultiano, algo que vai além da ordem dos prazeres, que é libertação de qualquer ordem. Digo isso apenas para recomendar a leitura, porque prazeres sofisticados não devem ser proibidos na era dos prazeres ordenados. Ler esse livro será certamente um prazer fora do comum.

 

Fonte: Revista Cult

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