Está explicado – Rubens Lemos Filho

Nos últimos anos, o Palmeiras e o Vasco disputam um revezamento de falta de amor próprio. Caem um ano para…

Nos últimos anos, o Palmeiras e o Vasco disputam um revezamento de falta de amor próprio. Caem um ano para a Série B, sobem no outro e padecem no seguinte. Dois clubes de torcidas apaixonadas e tradição internacional. O Palmeiras é o primeiro no ranking de títulos nacionais. Está fazendo 100 anos enquanto derrapa, a cada rodada, nas curvas da Zona do Rebaixamento.

Na Série B está o Vasco, pela segunda vez em cinco anos, na tormentosa gestão de Roberto Dinamite, o maior ídolo do clube prestes a perder a honraria depois do desastre como administrador. Roberto Dinamite cumpre um mandato tão ruim que até eu chego a admitir a volta do assombroso Eurico Miranda ao poder do desmoralizado heroico português.

Vasco da Gama, o original navegante, manda boletins diários do além ameaçando entrar com processo judicial surrealista para que seu nome seja afastado de tão fracassada agremiação nos tempos de hoje. O Vasco não tem mais menino torcendo por ele, salvo em casos de filhos de fanáticos, que obrigam e cortam mesada. Menino gosta de time vencedor.

O centenário do Palmeiras coincide com a péssima campanha no Brasileirão que sequencia horroroso período sob o comando do ex-técnico Luiz Felipe Scolari, o Dunga Velho. O Dunga Velho levou o Palmeiras à Série B e, como prêmio, recebeu de volta o comando da seleção brasileira até conduzi-la à vergonhosa campanha na Copa do Mundo dos 7×1.

Com muito bom gosto, primor editorial pode-se dizer, a Revista Placar lançou uma edição de colecionador sobre o momento que deveria ser festivo para o Palmeiras. É uma obra para se guardar. Bem escrita, caprichosa nas artes gráficas, detalhista nas estatísticas, ideal para apaixonados e saudosistas no requinte da escolha das fotografias de velhos ídolos e vitórias de epopeia.

Belo trabalho, jornalismo de primeira qualidade lembrando os idos da Placar gigante e feita pelos craques das máquinas datilográficas dos anos 1970. Primor. Juca Kfoury, Carlos Maranhão, José Maria de Aquino, Celso Kinjô e Teixeira Heuzer assinariam o material com orgulho.

Há uma longa entrevista com o presidente do Palmeiras, Paulo Nobre. É um fanático, um torcedor que coleciona porquinhos. O porco entrou na vida palmeirense pela contramão. Foi o apelido posto pelos rivais corintianos em 1969, quando morreram o lateral Lidu e o ponta-esquerda Eduardo, em acidente automobilístico às margens do Rio Tietê.

O Corinthians liderava o Campeonato Paulista, contava com o esplendor de Rivelino jogando o tudo que encantava o pibe argentino Diego Maradona, a astúcia do ponta Paulo Borges e a euforia da massa esperançosa em quebrar o tabu, aquela altura no singular 15o ano.

Sem Lidu e Eduardo, o Timão propôs inscrever dois novos jogadores e os adversários aceitaram. Menos o Palmeiras, transformado em suíno a cada confronto no Parque Antártica, Pacaembu, Morumbi ou vilarejo onde fosse jogar. Nos anos 1980, numa sacada de marketing, adotou o porco de mascote oficial e as provocações acabaram.

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Paulo Nobre guarda porquinhos de brinquedo e desenhou um deles no fundo de sua piscina gigante. Na Placar comemorativa, há uma foto de Paulo Nobre à beira da piscina sorridente, orgulhoso como um Montgomery triunfal na Segunda Guerra abatendo nazistas.

Perguntado sobre a crise, Paulo Nobre começa a apresentar suas credenciais e atributos, diretamente ligados ao futebol modesto do time. Aparenta forte depressão pela perda do atacante Alan Kardec para o São Paulo.

Alan Kardec é um Jô vestido de tricolor. Jô, lembra? Aquele zagueiro disfarçado de centroavante que evitava gols do Brasil no Mundial do quarto lugar com pinta de quadragésimo.

O endeusado Alan Kardec é o mesmo que começou no Vasco – olha outra coincidência – e cometia sistemáticos homicídios contra bolas a ele entregues no ex-Maracanã, em São Januário ou no Machadão, onde jogou contra o América pela Série A em 2007.

O presidente Paulo Nobre sofre por Alan Kardec. Mas não é a primeira pista do crime. Qualquer detetive de subúrbio descobriria o porquê do sofrimento do Palmeiras. Na revista, elege-se o time dos 100 anos. Uma máquina: Marcos; Djalma Santos, Luís Pereira,Waldemar Fiúme e Roberto Carlos; Dudu e Ademir da Guia; Julinho Botelho, Rivaldo, Edmundo e Evair. Técnico: Osvaldo Brandão. Só artista.

O colégio eleitoral, composto por torcedores ilustres, entre os quais o atual presidente, teve grandes dificuldades para formar o esquadrão. Dos 35 consultados, 34 apontaram o óbvio e votaram no gênio Ademir da Guia, reitor da Academia encantadora dos anos 1960 e do remake da década seguinte.

Ademir da Guia representa para o Palmeiras a unanimidade de Garrincha no Botafogo, de Zico no Flamengo, de Rivelino no Fluminense, de Tostão no Cruzeiro, de Reinaldo no Atlético Mineiro, de Falcão no Internacional. Pelé no Santos nem precisa mencionar. Ademir da Guia flutuava em campo ao som de um invisível violino.

Quem não votou em Ademir da Guia? O presidente Paulo Nobre. Está explicado o Palmeiras de hoje. Imagine um palestino chutando pôster de Yasser Arafat, judeu blasfemando Golda Meir ou inglês destronando o mito Winston Churchill. Paulo Nobre despreza um milagre em carne e osso e chora por Alan Kardec, perna de pau de luxo. Nem corintiano seria tão cruel.

Zé Teodoro

Tem tudo nas mãos para classificar o ABC. O jogo contra o Vasco pede o esquema que ele usa contra o Macapá do Mereto. Prudência total. É ser coerente.

Oliveira Canindé

Boa declaração quando compara o exemplo do América na Copa do Brasil ao do Fluminense, derrotado, humilhado e desclassificado pelo próprio América. Sem salto alto na volta.

Diferença

Algum cientista – que não seja boçal – precisa explicar o porquê de ABC e América jogando bem na Copa do Brasil e tão diferente na Série B. Prêmio, bicho, dinheiro. Não, de jeito nenhum passa o caso por cifrão.

Paulo Baier

Triste do futebol de um país em que Paulo Baier, 39 anos, usa a camisa 10 de um time de Primeira Divisão e faz um gol de calcanhar, ainda que anulado. O veterano do Criciúma um dia foi Paulo César, lateral-direito dispensado por Vasco, Flamengo, Fluminense e Botafogo.

Segurança

Treinos da seleção de Dunga terão mais seguranças. Certo. O povo merece proteção de futebol feio.

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